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Uma epifania com Chico Chico

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Uma epifania com Chico Chico

“Vou me ater aos fatos: o amor nunca falhou. As coisas acontecem de uma hora para outra, mesmo que demorem a vida inteira para acontecer”. Fui ao show de Chico Chico e saí com a sua interpretação de “Norte” pulsando no coração. A música é de autoria de Carlos Posada, cantor e compositor nascido na Suécia, criado no Recife e há vários anos radicado no Rio de Janeiro. A experiência do show de Chico Chico me enterneceu profundamente. Pensei na minha própria vida, nos meus afetos, na história dele e na minha, nas confluências de sermos frutos de multiparentalidades e no curioso acaso de ele fazer aniversário no mesmo dia da minha mãe, Maria.

Fui para ver de perto o “menino bonito” que cresceu e que, desde a infância, já anunciava a potência artística que hoje se confirma. Ainda criança, no festival Rock in Rio (2001), participou do show de sua mãe, Cássia Eller, tocando percussão em “Smells Like Teen Spirit”, do Nirvana. O gesto precoce de autonomia criativa tornou-se um dos momentos mais emblemáticos daquela edição do festival, levando o público ao delírio.

Duas vezes Chico, revela-se como uma das expressões mais vigorosas da música popular brasileira contemporânea. No palco, é inquieto e inventivo, conciliando ternura e intensidade em cada gesto. Frequentadora assídua de atividades culturais, confesso que fui transportada para um território interior raro da minha subjetividade: sua presença artística acendeu um espaço bonito em mim. Brincante e de timbre original, atiça os sentidos. Ele está inteiro, todo entregue ao próprio som.

Dono do palco e, ao mesmo tempo, generoso com os músicos, Chico Chico cria espaço para que os instrumentos também se expressem. A banda, criativamente chamada Banda Banda, participa de forma viva e orgânica da construção do espetáculo. Ele ocupa todos os espaços sem sufocar os exímios músicos que o acompanham, com profunda reverência à parte instrumental, com ricos improvisos embelezando ainda mais o Tempo de louças, Tanto pra dizer, Hora h, Urmininu, Vila do Sossego, Acorda Zé. A felicidade, Vapor Barato, Menino Bonito, Árvore. Só fez falta “As folhas da Praça Paris.”

Além de um repertório impecável e de um acervo autoral expressivo, recupera a autenticidade de quem faz do ofício um prazer. É impossível sair indiferente à experiência sensorial que sua apresentação provoca. Chico Chico diverte-se enquanto canta e nos devolve, em ato, uma pergunta fundamental: o que pode um corpo? Salta, gira, caminha, rodopia, sobe, desce, circula, faz cambalhota e sensualiza. A presencialidade expressa uma pluralidade estética que dialoga com referências do cancioneiro que ele aprecia de Waly Salomão, Jards Macalé, Zé Ramalho, Edson Gomes, Gonzaguinha, Raul Seixas, Rita Lee e Cazuza.

Seu nome foi escolhido em homenagem à canção “Francisco”, de Milton Nascimento, gravada por Nelson Faria no álbum Iô Iô (1993), ano de seu nascimento. O que mobilizou Cássia Eller a nomear o seu rebento foi a beleza dos falsetes que a música possibilitava. Foi um gesto sublime oferecer ao filho um nome inspirado em uma canção estonteante.

A presença de palco de Chico Chico nos convida a pensar os destinos de nossas inquietações. Ele as converteu em beleza, potência e autenticidade, onde habita uma originalidade que se encarna fugindo das expressões tradicionais. Ele é duplo, múltiplo e ontologicamente diverso.

Plural como sua própria origem, Chico é fruto do desejo de Cássia Eller de reinventar o amor e a maternidade, e da cumplicidade de Tavinho Fialho, baixista que acompanhou a Legião Urbana no álbum V. Francisco nasce do exercício da autonomia afetiva e erótica de seus pais. Ocorre que Tavinho partiu tragicamente em um acidente de carro, seis dias antes do nascimento do filho. Sua ausência foi eternizada por Renato Russo na canção Love in the Afternoon, do álbum Descobrimento (1993), inteiramente dedicado a Fialho, deixando como herança um verso que atravessou gerações: “É tão estranho, os bons morrem jovens.

O litígio familiar estabelecido pela guarda de Chico Chico, após Cássia Eller partir para os outros mundo de Deus, resultou em jurisprudência paradigmática no sistema de justiça brasileiro ao reconhecer os vínculos socioafetivos construídos entre ele e Maria Eugênia, relativizando a primazia da herança biológica. Abriu-se, assim, caminho para a proteção jurídica de outras formas de parentalidades no direito das famílias no Brasil.

No palco e nas aparições públicas, vemos um artista que nos parece conciliado com a própria história. A escolha do nome artístico é afirmação de trajetória e visão de mundo. Na fusão entre singularidade e multiplicidade, emerge um artista raro, ancorado no bom gosto e na autenticidade. Foi uma vivência apoteótica contemplar sua vibrante inquietação, aquela que desloca tudo dentro da gente, que ilumina a alma e estimula os sentidos. Um hipnótico desassossego sustentado por gestos variados: ele canta sentado no chão, descalço, circula livremente entre a plateia, entrega tudo de si e, despretensiosamente, constrói uma ambiência única.

Ele evolui com liberdade e constrói a própria trajetória, fundando uma existência que reverencia sua ancestralidade e se autoriza a parir o novo. Chico Chico, siga firme convidando o Brasil a “pedir piedade aos que não sabem amar”. Trata-se de um gesto político e poético de afirmação da vida, memória e dos direitos.

Fonte: saibamais.jor.br

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