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RN vai realizar primeiras cirurgias de redesignação de gênero

O Rio Grande do Norte vai realizar, pela primeira vez, cirurgias de redesignação de gênero, também conhecidas como cirurgias de afirmação de gênero, marcando um avanço inédito na saúde pública voltada à população trans no estado. As primeiras intervenções devem acontecer em Natal e beneficiar inicialmente duas mulheres trans, colocando o RN entre os poucos estados brasileiros que contam com profissionais capacitados para esse tipo de assistência especializada.

As cirurgias de afirmação de gênero são procedimentos médicos realizados para adequar características físicas à identidade de gênero da pessoa trans. Elas podem incluir alterações corporais, genitais e mamárias, com o objetivo de promover bem-estar físico, emocional e psicológico, além de contribuir para a redução da disforia de gênero e melhorar a qualidade de vida e a integração social dos pacientes.

Atualmente, o Brasil conta com nove estados que realizam cirurgias de redesignação de gênero, consolidando polos de referência para a saúde da população trans. No Nordeste, os procedimentos são realizados em Pernambuco, Bahia e, mais recentemente, no Rio Grande do Norte, que iniciou cirurgias inéditas em Natal em maio de 2026. Nas demais regiões, o atendimento cirúrgico está concentrado em São Paulo, Rio de Janeiro, Goiás (líder nacional em volume de procedimentos), Rio Grande do Sul, Minas Gerais e Pará, este último sendo o único representante da Região Norte.

A informação foi confirmada pela coordenadora da Diversidade Sexual e de Gênero da Secretaria de Mulheres, Juventude, Igualdade Racial e Direitos Humanos do RN (SEMJIDH), Rebeca de França.

Segundo Rebeca de França, a iniciativa representa um avanço no reconhecimento da identidade de gênero e no atendimento humanizado. “Essas cirurgias colocam o RN como um estado que possui profissionais sensíveis e comprometidos com a verdadeira medicina. A ciência é utilizada para melhorar a vida, o psicológico, a anatomia e a convivência dessas pessoas nas relações sociais”, afirmou.

Apesar do início dos procedimentos, a cirurgia ainda não integra oficialmente a rede regular de atendimento do Sistema Único de Saúde (SUS) no Rio Grande do Norte. Os custos da etapa inicial dependem de articulações locais, enquanto o governo estadual busca estruturar um fluxo permanente de atendimento especializado.

O enfermeiro sanitarista Lauro Gabriel Bezerra Santos, técnico da Secretaria Estadual de Saúde Pública (Sesap/RN), explica que um dos principais desafios enfrentados atualmente pela população trans é a ausência de serviços habilitados no estado. “Nossos ambulatórios no RN ainda são jovens e não possuem habilitação, e não temos hospital habilitado. Em outros estados, onde já existem ambulatórios e hospitais, as filas de espera são muito longas e muitas vezes não atendem às urgências dessas pessoas”, diz em entrevista à Agência Saiba Mais.

Ele afirma ainda que a falta de estrutura acaba restringindo o acesso da população trans à saúde especializada. “Existe barreira no acesso. Muitas vezes a saúde da pessoa trans fica restrita aos espaços especializados. Por isso estamos em diálogo com serviços, usuários e trabalhadores para construir esse fluxo para cirurgias no nosso estado”, acrescentou.

De acordo com Lauro Gabriel, a criação de protocolos e de um cadastro oficial para pacientes trans pode ajudar a organizar a demanda e dar maior visibilidade às necessidades dessa população dentro da rede pública. “Quando criamos um protocolo de cadastro oficial, estamos tirando o paciente da ‘fila do esquecimento’ e dando a ele um lugar oficial no sistema. Isso melhora a dignidade do atendimento no RN”, afirmou.

Entre os encaminhamentos discutidos pelo grupo responsável pela articulação da política de saúde trans no estado estão a ampliação da comunicação com usuários, reuniões com ambulatórios para definição da documentação necessária e a inclusão dos pacientes no sistema RegulaCirurgia. Também foi solicitada ao Ministério da Saúde a habilitação de um ambulatório especializado em Mossoró, além da expectativa de implantação de outro em Natal.

A coordenação estadual espera que o início das cirurgias sirva de incentivo para ampliar a assistência especializada pelo SUS no estado, com a criação de ambulatórios fixos e acesso regular aos procedimentos. A expectativa é que, futuramente, o Ministério da Saúde repasse recursos específicos para custear os atendimentos.

As cirurgias de afirmação de gênero variam de acordo com as necessidades de cada paciente. Entre os procedimentos realizados em mulheres trans estão neovaginoplastia, clitoroplastia e implante de próteses mamárias. Já para homens trans, podem ser realizadas mastectomia masculinizadora e cirurgias de reconstrução genital, como metoidioplastia e faloplastia.

SAIBA MAIS: “Sabia que era uma menina”: a trajetória da primeira mulher trans potiguar operada pelo SUS

Fonte: saibamais.jor.br

Gil Araújo

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