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Fórum reúne povos de terreiro e reafirma luta por direitos no RN

Numa conjuntura marcada pelo avanço da intolerância religiosa e pela disputa por reconhecimento dos territórios tradicionais, lideranças de religiões de matriz africana de todo o Rio Grande do Norte voltam a se reunir neste sábado (27), em Natal, para a realização do III Fórum Estadual das Comunidades Tradicionais de Terreiros do RN.

O encontro acontece no Complexo Cultural da Zona Norte, da Universidade do Estado do Rio Grande do Norte (UERN), e deve reunir cerca de 800 participantes de pelo menos 32 municípios potiguares, além de representantes da Paraíba e de Pernambuco. Com o tema “A força do que fizemos guia o que queremos ser”, o evento marca a retomada das articulações estaduais dos povos de terreiro após sete anos sem a realização do fórum, cuja última edição ocorreu em 2019.

Mais do que um espaço de celebração religiosa, o encontro se consolida como uma arena de debate sobre direitos, memória, igualdade racial, preservação cultural e enfrentamento ao racismo religioso. A programação reúne lideranças religiosas, pesquisadores, estudantes, juventudes de terreiro, movimentos sociais, representantes de universidades e gestores públicos.

A realização é do Grupo de Articulação de Matrizes Africanas e Ameríndias do Rio Grande do Norte (GAMA/RN), da Rede de Jovens de Matriz Africana e Terreiros do RN (REJOMATE/RN) e da UERN, por meio do projeto de extensão “As Religiões numa Perspectiva Afrocentrada”.

Para os organizadores, o fórum representa um marco na consolidação das políticas de reconhecimento dos povos e comunidades tradicionais de terreiro no estado. A construção desta edição envolveu anos de articulação entre comunidades, universidades e instituições públicas, num processo coletivo iniciado ainda em 2019.

Entre os destaques da programação está o lançamento estadual do Museu Virtual – Arquivo Afro-Religioso: Memória e Patrimônio das Comunidades de Terreiro do RN. A iniciativa reúne pesquisadores da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), da UERN e lideranças religiosas de diversas regiões do estado, com o objetivo de preservar e difundir a memória das tradições afro-religiosas potiguares.

Também será apresentado o Mapa do Axé Potiguar, uma cartografia inédita dos terreiros existentes no Rio Grande do Norte. A proposta é contribuir para a visibilidade desses territórios, ampliar a produção de conhecimento sobre as comunidades tradicionais e subsidiar políticas públicas voltadas à proteção do patrimônio cultural afro-brasileiro e afro-ameríndio.

A invisibilidade histórica dos povos de terreiro continua sendo um dos principais desafios enfrentados pelas comunidades. Apesar de desempenharem papel fundamental na preservação de saberes ancestrais, práticas de cuidado, manifestações culturais e redes de solidariedade, os terreiros ainda convivem com episódios recorrentes de discriminação e violência motivados pelo racismo religioso.

Nesse contexto, a defesa da memória ocupa lugar central na programação do fórum. Uma das homenagens previstas recebeu o nome de “Às mãos que cuidam e guardam o sagrado” e reconhecerá lideranças responsáveis pela preservação dos conhecimentos ancestrais nas comunidades tradicionais. Também serão realizadas homenagens póstumas a pessoas que tiveram papel relevante na organização política dos povos de terreiro no estado.

Além dos debates políticos e das atividades formativas, o encontro contará com a Feira dos Povos e Comunidades Tradicionais de Terreiro. O espaço reunirá cerca de 30 expositores ligados a terreiros e três associações comunitárias, com a comercialização de artesanato, ervas, vestimentas religiosas, alimentos tradicionais, livros e produtos culturais.

A feira busca fortalecer experiências de economia solidária e geração de renda, evidenciando uma dimensão muitas vezes invisibilizada dos terreiros: seu papel como territórios de produção cultural, desenvolvimento comunitário e circulação de conhecimentos tradicionais.

Ao longo do dia, serão discutidos temas como igualdade racial, saúde, educação, juventude, cultura, direitos humanos, segurança alimentar e preservação patrimonial. A expectativa é que o encontro fortaleça as articulações entre comunidades e amplie a incidência política dos povos de terreiro na formulação de políticas públicas.

Em um estado onde as religiões de matriz africana ainda enfrentam estigmas históricos, o III Fórum Estadual das Comunidades Tradicionais de Terreiros surge como um espaço de afirmação coletiva. Ao reunir diferentes gerações em torno da ancestralidade, da memória e dos direitos, o encontro reafirma os terreiros como territórios vivos de resistência, produção de conhecimento e construção de futuros.

Fonte: saibamais.jor.br

Da Redação

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