Pesquisadores da Universidade Federal do Rio Grande do Norte identificaram espécies microscópicas “adormecidas” há anos em ecossistemas subterrâneos da Caatinga potiguar, revelando uma biodiversidade ainda pouco conhecida e ameaçada por atividades humanas no semiárido. O estudo, coordenado pela professora Juliana Deo Dias, analisou formas dormentes de zooplâncton preservadas no sedimento de cavernas, rios subterrâneos, lagos freáticos e nascentes do Rio Grande do Norte.
Publicado na revista científica Hydrobiologia, o trabalho mostrou que organismos microscópicos conseguem sobreviver por longos períodos em estado de dormência e voltar à atividade quando encontram condições ambientais favoráveis. Ao longo de quase 200 dias de experimento em laboratório, os pesquisadores registraram 7.726 eclosões de organismos pertencentes a 25 táxons diferentes.
Segundo Juliana Dias, em entrevista à Agência Saiba Mais, o estudo ajuda a revelar uma biodiversidade invisível, que não aparece nas coletas convencionais realizadas diretamente na água. “Isso demonstra que ainda conhecemos muito pouco sobre a biodiversidade de ecossistemas aquáticos subterrâneos que são constantemente ameaçados pelas atividades humanas”, afirma.
A equipe identificou 11 táxons que não haviam sido registrados desde o início das coletas realizadas na região, em 2021. Para a pesquisadora, estimular a eclosão dessas formas dormentes permite acessar uma espécie de “memória biológica” dos ecossistemas subterrâneos da Caatinga. “Promove levantamentos de espécies mais completos”, explica.
Os organismos analisados fazem parte do zooplâncton, conjunto de animais microscópicos fundamentais para a cadeia alimentar aquática. Em períodos de seca extrema ou condições ambientais desfavoráveis, eles produzem ovos de resistência ou entram em estado de quiescência, permanecendo preservados no sedimento até que fatores ambientais adequados permitam a retomada do desenvolvimento.
Durante o experimento, os pesquisadores simularam diferentes condições de luminosidade e umidade para testar os gatilhos de eclosão. Os resultados mostraram que a presença de luz favoreceu o despertar dos organismos, embora ela não tenha sido suficiente para ativar todas as espécies presentes no sedimento.
“A luz foi importante para a quebra da dormência do zooplâncton, mas nossos resultados indicam que provavelmente existam outros fatores ambientais importantes para desencadear a eclosão”, explica Juliana Dias. Segundo ela, os resultados reforçam que as formas dormentes funcionam mais como reservatórios de biodiversidade de longo prazo do que como mecanismos de colonização imediata.
A pesquisa também chama atenção para as ameaças aos ecossistemas subterrâneos do semiárido. Entre os principais impactos apontados pela pesquisadora estão a extração de calcário, perfurações ligadas à exploração de petróleo, mineração, desmatamento e a sobre-exploração de águas subterrâneas.
Dos dez ambientes analisados no estudo, apenas dois estão localizados em unidades de conservação. Para Juliana Dias, ampliar o conhecimento sobre a biodiversidade subterrânea é fundamental para fortalecer políticas de preservação de cavernas e aquíferos da Caatinga.
“A identificação dos organismos presentes tanto na água quanto no sedimento contribui para estratégias de conservação mais efetivas”, afirma. Ela acrescenta que compreender essa biodiversidade oculta também ajuda a avaliar a capacidade de resiliência dos ecossistemas diante das mudanças climáticas e de secas cada vez mais severas.
O estudo foi desenvolvido em parceria entre pesquisadores da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, Universidade Estadual de Maringá, Universidade Federal de Ouro Preto e do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade, por meio do Centro Nacional de Pesquisa e Conservação de Cavernas (Cecav).
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Fonte: saibamais.jor.br





