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“Contra a Máquina de Moer Mundos” leva crítica ao neoliberalismo para a Pinacoteca

Na primeira exposição individual da carreira, o artista visual potiguar Janderson Azevedo transforma a Pinacoteca do Estado em um território de confronto. Aberta desde a última sexta-feira (9), a mostra “Contra a Máquina de Moer Mundos” articula instalação, videoperformance, fotoperformance e objetos para construir uma crítica direta às estruturas de violência política, exploração ambiental e corrosão social que atravessam o Brasil contemporâneo.

Com curadoria de Sanzia Pinheiro, a exposição ocupa os espaços da Pinacoteca do Estado do Rio Grande do Norte a partir de materiais como concreto, minerais, água, ferrugem e resíduos. Mais do que elementos estéticos, essas matérias aparecem como vestígios de um modelo econômico e político baseado na extração, no desgaste e no colapso.

Foto: Isadora Aragão

A dimensão política da exposição não surge apenas no discurso curatorial, mas atravessa diretamente a trajetória do artista. Em entrevista exclusiva, Janderson relaciona o início de sua produção artística ao período de desmonte das universidades públicas e às transformações políticas ocorridas no país após o impeachment de Dilma Rousseff.

“Meu início na arte foi profundamente marcado por esse período de retrocesso no país que se reverbera até hoje”, afirma. “Sempre pensei minha produção artística como uma ferramenta de formação crítica e sensível, buscando contribuir na luta contra o neoliberalismo e ideologias intransigentes de extrema-direita, como o fascismo.”

A fala do artista ajuda a compreender o eixo central da mostra: a ideia de que a violência contemporânea não opera apenas de maneira explícita, mas também através de sistemas econômicos, urbanísticos e institucionais que naturalizam a destruição de vidas e territórios.

Esse entendimento aparece tanto nas obras quanto na escolha dos materiais. O concreto, por exemplo, surge “em ruína, obsoleto e frágil”, corroído pela água e pelo tempo. Já os minerais e cinzas vegetais remetem diretamente aos impactos ambientais provocados pela mineração e pela devastação de biomas.

“A escolha dos materiais é bastante intencional”, explica o artista. “Ela carrega uma dimensão metafórica de como a vida humana se implica no sistema e no bioma da Terra, contaminando e afetando diretamente outros modos de vida não humana.”

Ao invés de trabalhar com uma denúncia literal, a exposição aposta em imagens de desgaste, oxidação e decomposição para tensionar a relação entre progresso e destruição. O título da mostra funciona como síntese dessa operação: a “máquina” citada por Janderson não é apenas tecnológica ou industrial, mas política, econômica e subjetiva.

Na avaliação da curadora Sanzia Pinheiro, a exposição “enfrenta as engrenagens que naturalizam a violência e transformam a vida em recurso”. O trabalho, segundo ela, tenta interromper fluxos de simplificação e devolver complexidade às experiências sociais e históricas apagadas pelo discurso dominante.

Essa preocupação também atravessa o entendimento do artista sobre o papel da arte contemporânea. Para ele, produzir arte hoje significa ocupar necessariamente um lugar de confronto.

“A arte contemporânea certamente está no lugar de um incômodo coletivo”, diz. “Produzir arte sobre questões sociais, ambientais, filosóficas ou políticas é se colocar na linha de frente de discussões extremamente necessárias para pensar e agir no presente.”

A dimensão imersiva da mostra reforça esse posicionamento. Ao reunir diferentes linguagens, como vídeo, performance e instalação, Janderson constrói uma experiência em que o público não aparece como observador distante, mas como parte do ambiente tensionado pelas obras.

Segundo o artista, a intenção é provocar um “estalo” crítico em quem visita a exposição.

“Diariamente essa máquina mói vidas, sonhos e formas de existir sem pedir licença”, afirma. “Busco instigar o fortalecimento do senso crítico nas pessoas diante da ruína que nos rodeia.”

A ocupação da Pinacoteca também marca um momento simbólico para o artista, formado em Artes Visuais pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte em 2023. Atuando também como performer, diretor de arte e produtor cultural, Janderson construiu sua trajetória em diálogo com processos de montagem, produção e experimentação coletiva através da produtora Vermelho Arte Produção.

Agora, ao ocupar sozinho um dos principais espaços expositivos do estado, ele afirma esperar alcançar públicos diversos, tanto pessoas ligadas às artes visuais quanto visitantes sem formação específica.

“Contra a Máquina de Moer Mundos” segue em cartaz até 14 de junho na Pinacoteca do Estado do Rio Grande do Norte, na Cidade Alta, com entrada gratuita.

SAIBA MAIS:
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Fonte: saibamais.jor.br

Gil Araújo

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