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Em Natal, Rita Von Hunty defende educação de gênero

Em passagem por Natal para participar da primeira edição do Festival Aurora, a drag queen, professora e comunicadora Rita Von Hunty fez uma análise do avanço conservador no Brasil e no mundo, discutiu o papel político das pautas de gênero e defendeu a necessidade de fortalecer a educação pública como ferramenta de enfrentamento à extrema direita.

Conhecida por articular humor, referências acadêmicas e performance drag em debates sobre política, cultura e sociedade nas suas redes sociais com milhões de seguidores, Rita participou de uma conversa voltada às discussões de corpo, gênero e sexualidade, temas centrais da programação do festival.

Durante a entrevista dada à Agência Saiba Mais, ela classificou o atual cenário político como um momento de fortalecimento internacional do conservadorismo e afirmou que as chamadas pautas “antigênero” se tornaram estratégicas para grupos de extrema direita:

“Eu acho que a gente está enfrentando um levante conservador como poucas vezes vimos na história do Brasil”, afirmou. “Nesses momentos, todas as pautas sensíveis são atacadas. Das pessoas com deficiência às pessoas do espectro autista, passando pela pauta de gênero, que tem sido central.”

Segundo Rita, pesquisas internacionais já apontam que o discurso antigênero funciona como um elemento de unificação da extrema direita global. Ela citou lideranças conservadoras internacionais como Donald Trump e Viktor Orbán para exemplificar como diferentes setores políticos se aproximam em torno da rejeição às discussões sobre gênero e diversidade sexual.

“O discurso antigênero é a cola da extrema direita”, disse. “Essa tem sido uma forma de angariar juventudes masculinas ressentidas para transformar esse ressentimento em afeto político.”

Para a artista, o conservadorismo contemporâneo opera oferecendo a homens frustrados uma sensação simbólica de poder sobre grupos historicamente marginalizados.

“As pautas antigênero são um jeito de falar com homens que sonham em ter algum poder. Se eles se aliarem com outros homens, ao menos terão poder sobre mulheres, sobre viados”, afirmou.

Rita também contextualizou historicamente o avanço desse tipo de discurso. Segundo ela, ataques à chamada “ideologia de gênero” não são recentes e remontam aos anos 1990, quando setores ligados ao Vaticano passaram a reagir ao crescimento de debates feministas e queer.

“Quando a gente pega na história ‘ideologia de gênero’, ‘generismo’, ‘teoria queer’, tudo isso começa a ser atacado pelo Vaticano nos anos 90. Então, a gente está há quase meio século combatendo um levante conservador”, disse.

A luta da classe trabalhadora é a luta da população LGBTQIAPN+

Ao longo da conversa, Rita defendeu que pautas LGBTQIAPN+ e questões de classe não podem ser tratadas como temas separados. Para ela, existe uma tentativa recorrente de imaginar a classe trabalhadora como um grupo sem corpo, sem sexualidade e sem identidade de gênero.

Citando a socióloga Marília Moscovitch, Rita afirmou que pessoas LGBTQIAPN+ não ocupam um lugar externo às discussões trabalhistas, mas compõem diretamente a base da classe trabalhadora brasileira.

“Nós não somos parte da classe trabalhadora. Nós somos a classe trabalhadora”, afirmou. “É como se existisse uma imaginação de classe trabalhadora sem corpo, sem desejo, sem sexualidade.”

Ela apontou ainda que pessoas LGBT estão concentradas em setores historicamente precarizados do mercado de trabalho, como telemarketing e serviços terceirizados, reforçando a relação entre exploração econômica e marginalização social.

“Basta pegar dados estatísticos de serviços de telemarketing no Brasil. É um dos setores mais precarizados e um dos que mais concentra pessoas LGBTs”, declarou.

Questionada sobre quais seriam as prioridades no debate de gênero hoje, Rita defendeu a ampliação de políticas educacionais capazes de tratar do tema de forma aberta e crítica dentro das escolas públicas.

“O mais urgente é que a gente consiga uma educação pública que paute as questões de gênero”, afirmou.

Além das reflexões políticas, a artista também falou sobre sua trajetória ao ocupar simultaneamente espaços ligados à arte drag, à educação e à produção intelectual. Segundo Rita, sua atuação provoca estranhamento tanto em setores tradicionais do universo acadêmico quanto dentro da própria cena drag.

“Eu apanhei muito dentro do campo drag, porque perguntavam ‘o que é essa merda que você está fazendo?’. E apanhei muito dentro do campo intelectual também”, contou.

Apesar das críticas, ela afirma que o impacto social do trabalho é mais importante do que a aceitação em determinados espaços.

“Eu me preocupo mais com o efeito prático do que com a crítica”, disse. “Me preocupo que surta efeito e gere afeto.”

Misturando performance, humor, linguagem popular e referências teóricas, Rita Von Hunty se consolidou nos últimos anos como uma das principais vozes públicas brasileiras nas discussões sobre política, educação e diversidade, especialmente entre públicos jovens nas redes sociais e em espaços culturais.

SAIBA MAIS:
Quem é Ruth Venceremos, a drag queen do MST formada pela UFRN que trabalhará no governo Lula
Geja: arte, política e performance na construção de uma drag no RN



Fonte: saibamais.jor.br

Gil Araújo

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