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Entre livros, afetos e uma Stella para Estela

Diante da serra do Boqueirão, na extravagância de abundantes verdes, nos reunimos para experenciar o milagre discreto de uma tarde bem vivida. O Sertão vestiu-se de esperanças e perfumou-se. Havia um cheiro de terra úmida, de folha viva, de coisa que insiste em florescer mesmo quando o mundo parece dizer o contrário. E talvez por isso a gente tenha ido, porque ler também é um jeito de insistir.

O PaRoLei, nosso clube de leitores de Parelhas, se ajeitou ali como quem arma um pequeno território de afeto. Não era só sobre livros. Nunca é só sobre livros. É sobre gente que escolhe parar, olhar no olho e escutar com atenção. Chegamos aos poucos, trazendo histórias nas mãos e cansaços nos ombros, mas bastou a primeira conversa atravessar o ar para que tudo se reorganizasse dentro da gente.

Fomos recebidos com um banquete (e não há exagero nessa palavra). A comida também falava: maxixada fumegando, feijão preto encorpado, farofa dourada, arroz soltinho, vinagrete fresco. Havia um cuidado ali que não se aprende em receita, só na vontade de acolher. As frutas, melancia, abacaxi e laranja, cortadas em pedaços generosos, como se dissessem: fiquem, há lugar para todos.

E ficamos.

Tomamos cerveja Stella, em homenagem à Estela de Jeferson Tenório, personagem que nos convocou dessa vez através de Estela sem Deus para mais uma vez ficarmos juntos. E, entre goles e garfadas, fomos abrindo o livro outra vez, não mais nas páginas, mas na conversa. Porque ler junto é isso: deslocar o texto do papel para o corpo, deixar que ele ecoe, que incomode, que encontre morada nas experiências de cada um.

Falamos de Estela como quem fala de alguém que conhecemos. Talvez porque conheçamos mesmo, nas meninas que crescem rápido demais, nos sonhos que precisam aprender a resistir antes mesmo de se consolidarem. Estela queria ser filósofa. Queria pensar o mundo, reorganizá-lo em ideias, compreender suas contradições. Mas o mundo, esse bicho áspero, se apresentou a ela como selva muito cedo.

E ali, naquela roda, a gente tentou fazer o que a literatura nos ensina: ver a humanidade cara a cara, ora bela, ora horrenda.

Nos debruçamos sobre as questões sociais que o texto trouxe: racismo, desigualdade, violência, pertencimento. Não a partir de discussões de conceitos distantes, mas, sobretudo, reconhecendo essas marcas no cotidiano. Houve momentos de silêncio, desses que não são vazios, mas densos de reflexão. Houve também discordâncias, olhares que se tensionaram, mas sempre com o respeito de quem sabe que ouvir é também um ato político.

Enquanto comíamos e dialogávamos, íamos, sem perceber, fiando horizontes para Estela, e para nós. Porque cada leitura também é um gesto de reconstrução. A gente pega o que dói, o que falta, o que atravessa, e tenta imaginar outros caminhos. Nem sempre conseguimos, mas o exercício já nos transforma.

Recebemos um novo membro, e isso sempre tem algo de festa. Gente que chega com timidez nos olhos e, aos poucos, vai encontrando lugar na roda. É bonito ver quando alguém percebe que pode falar, que sua leitura importa, que sua voz não precisa pedir licença. O grupo cresce, mas não se perde, talvez porque o que nos une não seja o tamanho, mas o sentido.

Celebrar o Dia do Trabalhador assim, entre livros e comida partilhada, é também ampliar o significado do trabalho. Há um esforço silencioso em manter espaços como esse, vivos: o trabalho de cuidar, de organizar, de insistir na cultura como direito, não como luxo. Há o trabalho de ler depois de um dia cansado, de comparecer, de se permitir sentir.

E há o trabalho, talvez o mais difícil de todos, de permanecer humano.

O sol foi descendo devagar, pintando a serra com tons que não cabem em nome. Alguém riu alto. Outro completou uma fala interrompida, fizemos sorteio de livro. As cadeiras já não estavam organizadas como no início, e isso dizia muito sobre o encontro. A formalidade tinha dado lugar à convivência, ao corpo solto, ao tempo vivido sem pressa.

Em algum momento, alguém disse, quase como quem pensa alto, que estar ali fazia bem. E fez eco. Porque faz mesmo. Num mundo que nos quer apressados, isolados, distraídos, sentar em roda para ler e conversar é um gesto quase revolucionário.

Quando nos despedimos, não havia pressa de ir embora. Ficava sempre um pouco mais, uma última frase, um último riso, um último olhar para a serra. Como se a gente soubesse que aquele encontro não terminava ali, mas seguia com cada um, atravessando a semana, reaparecendo em pensamentos, em lembranças, em novas leituras.

Voltamos diferentes. Não completamente outros, mas deslocados o suficiente para perceber o mundo com mais camadas.

E talvez seja isso o que o PaRoLei nos dá, encontro após encontro: a chance de existir com mais profundidade.

Porque estar juntos nos faz bem, mas, mais do que isso… nos refaz.

Fonte: saibamais.jor.br

Bia Crispim

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