Muito antes de mulheres ocuparem com mais frequência os espaços de poder no Brasil, uma potiguar do sertão já havia rompido a barreira que parecia inacessível à época. Nascida em 29 de abril de 1897, em Jardim de Angicos, então distrito de Lajes, Luiza Alzira Teixeira Soriano entrou para a história ao se tornar, em 1928, a primeira mulher eleita prefeita no Brasil e na América Latina. Quase um século depois, sua trajetória segue mobilizando memória, política e celebração no Rio Grande do Norte.
Foi em torno desse legado que Lajes celebrou, nesta semana, os 129 anos de nascimento de Alzira Soriano com mais uma edição da Semana Alzira Soriano, programação promovida pela Prefeitura com apoio do Governo do Estado, por meio do Nota Potiguar. Entre atividades culturais, apresentações artísticas e homenagens, a cidade transformou a memória de sua personagem mais emblemática em ato público de reconhecimento à força política das mulheres.
A história de Alzira começou em uma família influente da política rural potiguar. Filha de Miguel Teixeira de Vasconcelos, líder político da região, ela cresceu em um ambiente onde as decisões públicas passavam pela mesa de casa, ainda que aquele não fosse um espaço pensado para mulheres. Viúva aos 22 anos, após a morte do marido durante a gripe espanhola, Alzira voltou à fazenda da família, onde passou a administrar a propriedade e a participar mais ativamente das articulações políticas locais, em um tempo em que a presença feminina na vida pública ainda era vista como exceção.
Sua entrada formal na política ocorreu num momento decisivo para o Rio Grande do Norte. Em 1927, o estado se tornou pioneiro no país ao reconhecer, em sua legislação eleitoral, o direito de mulheres votarem e serem votadas. Foi nesse ambiente de mudança que Alzira lançou candidatura à Prefeitura de Lajes pelo Partido Republicano, com apoio de lideranças como Juvenal Lamartine e da feminista Bertha Lutz. A campanha foi atravessada por ataques misóginos, mas não impediu sua vitória: Alzira foi eleita com 60% dos votos e tomou posse em 1º de janeiro de 1929.
À frente da Prefeitura de Lajes, Alzira Soriano conduziu uma gestão voltada à modernização do município. Seu governo investiu em melhorias de infraestrutura, como estradas, iluminação pública e mercado municipal, deixando uma marca administrativa que contrariava os discursos de quem tentava reduzir sua presença ao simbolismo de uma candidatura feminina. O mandato, porém, foi interrompido em 1930, com a ascensão de Getúlio Vargas, que destituiu prefeitos eleitos em várias partes do país.
Foi esse percurso que voltou ao centro da cena em Lajes na noite de terça-feira (29), quando a programação da Semana Alzira Soriano reuniu moradores, estudantes, artistas e lideranças políticas em uma celebração marcada por memória e simbolismo. O momento central da noite foi a homenagem à governadora do Rio Grande do Norte, Fátima Bezerra, e à atriz potiguar Titina Medeiros, reconhecidas por suas contribuições à cultura e ao protagonismo feminino no estado.
Durante a cerimônia, Fátima associou a própria trajetória política ao caminho aberto por Alzira. “Celebrar Alzira é celebrar coragem e compromisso com a democracia. Ela abriu caminhos em um tempo de profundas restrições às mulheres e mostrou que participação política e igualdade caminham juntas”, afirmou a governadora, ao destacar a dimensão histórica da ex-prefeita de Lajes.
Fátima também anunciou que Lajes deverá ganhar uma Casa de Cultura, projeto apresentado como forma de fortalecer a preservação da memória de Alzira Soriano e valorizar a produção artística potiguar. O gesto reforçou o sentido político da celebração: mais do que reverenciar o passado, a Semana Alzira Soriano projeta o legado da ex-prefeita para o presente e para o futuro.
A homenagem a Titina Medeiros, que interpretou Alzira em audiovisual exibido em rede nacional, ampliou esse gesto de atualização simbólica. Ao aproximar a personagem histórica da arte contemporânea, Lajes reafirmou que a memória de Alzira não pertence apenas aos livros ou aos marcos oficiais: ela segue viva como referência de coragem política, disputa por direitos e presença feminina no poder.
A edição deste ano também carrega um peso simbólico adicional. A Semana Alzira Soriano de 2026 já funciona como preparação para 2028, quando o Rio Grande do Norte celebrará o centenário da eleição que transformou Alzira Soriano em um marco da história política latino-americana. Em Lajes, a comemoração não foi apenas sobre recordar uma pioneira. Foi sobre reafirmar que seu nome continua a abrir caminhos.
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Fonte: saibamais.jor.br





