A anunciada gratuidade do transporte público aos domingos em Natal vem acompanhada de uma reorganização mais profunda — e mais confusa — do sistema de ônibus. Na prática, a operação não se limita a ampliar o acesso gratuito: ela encurta linhas, cria novos trajetos, transfere parte dos deslocamentos para integrações e, já no segundo fim de semana, exige ajustes para cobrir áreas que ficaram descobertas ou mal atendidas. O caso mais evidente é o da linha S-50, que passou a retornar do Midway Mall e levou a STTU a criar a nova 597, voltada a moradores da região de Santa Catarina e da Avenida Padre Tiago Theisen, na Zona Norte.
Segundo a Secretaria Municipal de Mobilidade Urbana de Natal (STTU), a operação combina a rede atual com diretrizes previstas na futura licitação do sistema de transporte público. O discurso oficial é de reforço no atendimento a shoppings, praias, áreas de lazer e polos de maior demanda. Mas, para o passageiro, a principal mudança é outra: em vários casos, a viagem direta deixa de existir e passa a depender de integração.
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No primeiro fim de semana, a STTU anunciou um conjunto de alterações para adequar a rede ao transporte gratuito dominical. Linhas passaram a retornar de pontos como Midway Mall, Natal Shopping e Nordestão Santa Catarina, enquanto novos itinerários foram criados para atender trechos de Mirassol, Candelária, Nova Descoberta, Lagoa Nova, Pirangi, Redinha e Santa Catarina.
No segundo fim de semana, veio a correção mais clara: a criação da linha 597 — Nova Natal/Santa Catarina, via Avenida Padre Tiago Theisen. A nova linha surge porque a alteração da S-50 exigiu uma reorganização para manter o atendimento a usuários da Zona Norte, especialmente na região de Santa Catarina.
A nova operação prevê 30 viagens aos domingos, entre 5h20 e 22h50, e também modifica o funcionamento da linha 600, que passa a circular com o mesmo itinerário dos dias úteis. Segundo a STTU, as mudanças buscam melhorar a integração entre bairros da Zona Norte e ampliar a conexão com linhas estruturantes. As alterações, no entanto, provocaram reações entre usuários do transporte coletivo, principalmente moradores da Zona Norte, que relatam aumento no tempo de deslocamento e dificuldade para acessar regiões da Zona Sul sem múltiplas integrações.
Usuário do sistema de transporte público da capital, João Wolf afirma que as mudanças acabaram impactando principalmente trabalhadores que dependem do ônibus aos domingos:
“A verdade é que a intenção deles era desestimular que os pobres, especialmente os da ZN, descessem pra ZS. Só que ele acabou acertando os trabalhadores. Em dia de domingo quem precisa pegar ônibus é trabalhador”, afirmou.
Segundo João, parte dos moradores da Zona Norte já vinha adaptando hábitos de lazer devido às dificuldades históricas de deslocamento entre regiões da cidade. “O povo da ZN já faz tempo que se adaptou a frequentar a Redinha, Genipabu ou Norte Shopping”, disse.
Outros usuários também relacionaram a nova configuração do sistema à operação especial montada pela Prefeitura durante o Carnaval de 2026. Na ocasião, linhas extras e mudanças operacionais priorizaram o acesso aos polos oficiais da programação carnavalesca promovida pela gestão municipal. Nas redes sociais, passageiros passaram a questionar se o planejamento do transporte gratuito aos domingos prioriza determinados corredores de circulação e áreas comerciais em detrimento de trajetos tradicionalmente utilizados por trabalhadores.
A regulamentação da gratuidade também ajuda a explicar parte da lógica adotada na reorganização da rede. O decreto publicado pela Prefeitura em abril determina que as empresas serão remuneradas pelas viagens efetivamente realizadas e estabelece metas de cumprimento operacional monitoradas por GPS.
Na prática, o decreto reforça uma lógica de eficiência operacional baseada em cumprimento de itinerários, integração da rede e otimização das viagens programadas. Para passageiros que criticam as mudanças, porém, a reorganização reduziu trajetos diretos e ampliou a dependência de integrações, sobretudo em bairros periféricos.
Reajuste
A implantação da gratuidade aos domingos acontece pouco mais de um mês após o reajuste da tarifa de ônibus em Natal. Em março, a passagem passou de R$ 4,90 para R$ 5,20, aumento de 6,21%. O reajuste foi aprovado pelo Conselho Municipal de Transporte e Mobilidade Urbana (CMTMU), com 23 votos favoráveis e quatro contrários.
Segundo a Prefeitura do Natal, o aumento considerou critérios técnicos e o crescimento dos custos operacionais acumulados nos últimos 15 meses. Este foi o primeiro reajuste da gestão do prefeito Paulinho Freire.
As mudanças no sistema também acontecem em meio à demora na licitação do transporte público da capital. Em março, o prefeito Paulinho Freire prometeu que o edital seria publicado em até 20 dias, mas o prazo não foi cumprido. Anunciada pela primeira vez em 2016, a licitação segue, até hoje, apenas como uma promessa.
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Fonte: saibamais.jor.br




