A liberdade dos lobos significa, de fato, a morte das ovelhas (Isaiah Berlin)
Em 2010, foi publicado nos Estados Unidos o livro Merchants of Doubt: How a Handful of Scientists Obscured the Truth on Issues from Tobacco to Climate Change, de autoria de Naomi Oreskes e Erik M. Conway, ambos historiadores: respectivamente, professora de História da Ciência da Universidade de Harvard e historiador da ciência do Laboratório de Propulsão a Jato da NASA.
Em 2025, o livro foi publicado no Brasil, traduzido por Fernando Santos e lançado pela Editora Quina, com o título Mercadores da dúvida: como um pequeno grupo de cientistas distorceu fatos que vão do tabagismo às mudanças climáticas. A edição conta com um prefácio de Al Gore, originalmente publicado na edição norte-americana de 2020, além de um pósfácio dos autores e, para a edição brasileira, um texto adicional de Naomi Oreskes.
Trata-se de um extenso e bem fundamentado estudo, com ampla revisão bibliográfica e fontes baseadas em documentos revelados durante as ações movidas contra a indústria do tabaco nos anos 1990, nos Estados Unidos, posteriormente arquivados na Universidade da Califórnia. O banco de dados reúne mais de 50 milhões de páginas. O livro possui 510 páginas e 1.137 notas, distribuídas entre introdução, sete capítulos, conclusão, epílogo e dois posfácios. Entre os temas abordados estão a chuva ácida, o buraco na camada de ozônio – especialmente a construção de contranarrativas sobre o fenômeno-, a negação do aquecimento global, o tabagismo e o debate sobre o fumo passivo, além do negacionismo contemporâneo (O negacionismo está de volta).
Os autores também publicaram outras obras voltadas ao combate à desinformação e à defesa da ciência. Naomi Oreskes é autora de um artigo científico, revisado por pares – procedimento fundamental das revistas científicas -, que documenta o consenso científico sobre a mudança climática antropogênica, isto é, provocada pela ação humana. O estudo teve grande repercussão no meio científico, mas também gerou ataques de negacionistas, incluindo mensagens de ódio, telefonemas ameaçadores e outras formas de intimidação.
No capítulo 7, “O negacionismo está de volta”, os autores analisam os ataques revisionistas direcionados à bióloga Rachel Carson (1907–1964), autora do livro Primavera Silenciosa, publicado nos Estados Unidos em 1962 e lançado no Brasil em 2013 pela Editora Gaia. Oreskes e Conway reconstituem o contexto da publicação da obra, suas repercussões e os ataques sofridos por Carson, inclusive de cientistas financiados pela indústria dos agrotóxicos. A autora demonstrou os malefícios do uso indiscriminado de pesticidas, que estavam se acumulando na cadeia alimentar e prejudicando o meio ambiente. Entre os resultados de sua atuação, destaca-se o fato de que “seu trabalho foi ratificado pelo Comitê Consultivo Científico do Presidente, que em 1972 concluiu que havia evidência científica suficiente para justificar a proibição do pesticida DDT nos Estados Unidos”.
No prefácio da edição brasileira, Linda Lear, historiadora da ciência e autora da biografia Rachel Carson: Witness for Nature (1997), afirma que “o alerta de Rachel Carson desencadeou um debate nacional sobre o uso de pesticidas químicos, a responsabilidade da ciência e os limites do progresso tecnológico”. Segundo Lear, quando Carson morreu, em 1964, aos 56 anos, já havia iniciado um movimento que resultaria na proibição da produção doméstica do DDT e no fortalecimento de um movimento popular em defesa do meio ambiente. Sua obra contribuiu decisivamente para transformar a relação entre os seres humanos e o mundo natural, além de ampliar a consciência ambiental pública.
A estratégia utilizada pela indústria dos agrotóxicos naquele período é semelhante à adotada por outros setores negacionistas, como a indústria do tabaco – especialmente desde os debates dos anos 1950 sobre os malefícios do cigarro- e, posteriormente, por grupos que negam o aquecimento global ou questionam a eficácia das vacinas. Trata-se, essencialmente, de lançar dúvidas sobre a ciência, criando uma verdadeira indústria da desinformação voltada ao combate aos fatos e à sabotagem do conhecimento científico. Para os autores, há uma relação estreita entre esse fenômeno e o discurso neoliberal, associado ao que chama de “fundamentalismo de mercado”.
São campanhas deliberadas de desinformação que visam defender interesses privados – e não o bem público, a saúde humana, o meio ambiente ou os animais. Essas campanhas contam com forte organização e financiamento por parte de setores ligados às indústrias do tabaco, do petróleo, dos agrotóxicos, entre outras, além de se associarem a formas de negacionismo ideológico. No Brasil, isso ficou evidente durante a pandemia da Covid-19, especialmente na disseminação de desinformação sobre vacinas.
O livro apresenta diversas histórias sobre a criação da dúvida e a difusão da desinformação por indivíduos e grupos que conseguiram, ao menos por algum tempo, impedir regulamentações de produtos nocivos à saúde nos Estados Unidos. Entre elas, destacam-se medidas relacionadas ao controle do tabaco, à emissão de gases CFC na atmosfera e à proteção da camada de ozônio. Embora estudos científicos já demonstrassem, desde a década de 1970, os riscos ambientais desses gases, representantes da indústria e outros setores negacionistas insistiam em afirmar que a destruição da camada de ozônio não era real, seria irrelevante ou teria origem natural, como atividade vulcânica.
Com base em dados e estudos científicos, os autores procuram demonstrar como funciona a indústria da desinformação e os interesses privados que sustentam seu ecossistema. Essa estrutura conta, inclusive, com cientistas financiados por determinados grupos econômicos e utiliza amplamente os meios de comunicação e, mais recentemente, as redes sociais, ampliando significativamente seu alcance.
O combate à desinformação sempre existiu, mas se sofisticou ao longo do tempo. Nos anos 1950, por exemplo, já havia evidências científicas suficientes sobre os malefícios do cigarro. Ainda assim, a indústria do tabaco lançou uma intensa campanha anticientífica, financiando cientistas e promovendo ações publicitárias para lançar dúvidas sobre a relação entre tabagismo e doenças, especialmente o câncer de pulmão. Estratégias semelhantes continuam sendo utilizadas atualmente em relação às vacinas, ao aquecimento global e aos relatórios do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), criado em 1988 e considerado a principal autoridade internacional sobre questões climáticas.
Os autores também destacam o papel da internet na ampliação da desinformação. Segundo os autores, a internet criou uma “sala de espelhos” em que qualquer afirmação, por mais absurda que seja, pode ser reproduzida indefinidamente. Nesse ambiente, a desinformação raramente desaparece. Trata-se de um espaço em que qualquer opinião pode ser reproduzida e difundida indefinidamente, independentemente de sua veracidade. Nesse contexto, citam uma frase de Umberto Eco, pronunciada em 2015, segundo a qual “a internet deu voz a uma legião de imbecis”.
A ciência não se constrói a partir de opiniões isoladas, mas de provas e evidências. Nem todas as opiniões possuem o mesmo valor científico, já que muitas se baseiam apenas em alegações sem respaldo empírico. Isso não significa, entretanto, que a ciência seja infalível. Ao longo da história, diversas teorias foram revistas ou substituídas graças ao avanço do conhecimento científico. É justamente esse processo de revisão que permite o desenvolvimento da ciência.
O livro também aborda a negação do aquecimento global, tratado por setores negacionistas como um engodo. Do ponto de vista científico, entretanto, trata-se de um fenômeno amplamente comprovado e relacionado à ação humana.
Outro aspecto importante discutido na obra é o papel dos meios de comunicação. Em princípio, caberia à imprensa informar com responsabilidade, evitando dar espaço a charlatões e vendedores de ilusões, especialmente em temas científicos. Contudo, muitas vezes os meios de comunicação acabam reproduzindo discursos negacionistas ou funcionando como porta-vozes de interesses econômicos, da indústria negacionista.
Uma estratégia recorrente dessas campanhas consiste em criar a aparência de respaldo científico por meio da utilização de especialistas e discursos técnicos, mesmo quando não há consenso científico que sustente tais argumentos. Isso ocorre, por exemplo, em debates sobre mudanças climáticas e eventos extremos.
Na seção intitulada “O problema orwelliano”, em referência ao escritor George Orwell, autor de 1984, os autores descrevem a atuação de uma ampla rede de think tanks financiados por empresários, corporações e fundações conservadoras. Essas organizações promovem pesquisas, conferências e seminários voltados à defesa de interesses econômicos específicos, especialmente relacionados à desregulamentação ambiental, trabalhista e sanitária. Muitos desses estudos procuram contestar o consenso científico sobre o aquecimento global e outros temas relevantes.
Negar evidências científicas consolidadas equivale, segundo os autores, a negar teorias amplamente aceitas pela comunidade científica, como, entre muitos exemplos, a teoria das placas tectônica ou a teoria da evolução das espécies, formulada por Charles Darwin. Negacionismo que se estende a outras áreas, como as teorias conspiratórias e revisionistas da história, com a negação do holocausto (como analisa a historiadora e diplomata Deborah Lipstadt no livro A negação do holocausto: o crescente ataque à verdade e a memória –1994 – publicado no Brasil pela Editora Universo dos livros em 2017 com o título Negação: uma história real) ou sobre a ditadura militar no Brasil(1964-85), tida por eles como ‘uma revolução contra o comunismo,’ etc. Como afirmam Naomi Oreskes e Erik M. Conway, após determinado estágio de comprovação, não existem “dois lados” equivalentes na ciência: existe a verdade histórica, o conhecimento científico reconhecido, que não devem ser confundidas com opiniões sem validação empírica.
No posfácio publicado em 2020 para a nova edição norte-americana de Mercadores da dúvida, os autores afirmam que o problema da desinformação se agravou ao longo da década e que suas consequências ameaçam “nossa prosperidade, nossa democracia e até mesmo nossas vidas”.
Naquele momento, Donald Trump encerrava seu primeiro mandato presidencial nos Estados Unidos. Conhecido por posições negacionistas em relação às mudanças climáticas e por críticas à vacinação infantil, seu governo promoveu retrocessos em áreas como educação, saúde, cultura, ciência e meio ambiente. Entre as medidas citadas estão a retirada dos Estados Unidos do Acordo de Paris, a revogação do Plano de Energia Limpa e os ataques constantes à ciência, às universidades e aos cientistas.
O mais grave, segundo os autores, é que as campanhas de desinformação continuam circulando livremente na internet, inclusive aquelas relacionadas à saúde humana, como a venda de produtos falsos e medicamentos “milagrosos”. Tais práticas enriquecem charlatães e colocam milhões de pessoas em risco.
Existe uma diferença fundamental entre a incerteza inerente à ciência – que faz parte do processo de construção do conhecimento – e as estratégias deliberadas de manipulação da dúvida. O consenso científico é resultado da análise rigorosa de evidências por especialistas, enquanto a desinformação busca desacreditar esse processo.
Nesse sentido, os negacionistas procuram convencer a população de que a ciência é duvidosa, utilizando argumentos falsos, seleção parcial de dados, difamação de cientistas e informações enganosas disfarçadas de ciência. Quando os meios de comunicação deixam de submeter essas alegações ao devido escrutínio crítico, acabam contribuindo para a disseminação da manipulação.
Em relação ao Brasil, Naomi Oreskes afirma, no posfácio da edição brasileira, que o país chegou a ser referência mundial na redução do desmatamento da Amazônia entre 2005 e 2010. Entretanto, segundo a autora, houve retrocessos significativos durante o governo Jair Bolsonaro, marcado pelo enfraquecimento de políticas ambientais e pela flexibilização de mecanismos de proteção da Amazônia e dos povos indígenas. Um presidente que exaltou ditadores brutais (Como Augusto Pichochet, ditador do Chile entre 1973-1990) e “inclusive do próprio passado brasileiro”.
Outro livro relevante publicado no Brasil é O triunfo da dúvida: dinheiro obscuro e a ciência da enganação, do epidemiologista norte-americano David Michaels, lançado em 2024 pela Editora Elefante. A obra analisa estratégias utilizadas por empresas para evitar regulamentações voltadas à proteção da saúde pública, incluindo manipulação de dados e financiamento de pesquisas com resultados favoráveis aos interesses empresariais.
Michaels demonstra como diversas indústrias recorrem ao negacionismo e à ciência fraudulenta para defender produtos nocivos, promovendo incertezas sobre pesticidas, produtos químicos tóxicos, vacinas e mudanças climáticas. Segundo o autor, essas práticas têm como objetivo preservar lucros imediatos, mesmo diante de impactos graves à saúde humana, animal e ao meio ambiente.
Os livros Mercadores da dúvida e O triunfo da dúvida evidenciam alguns dos principais desafios enfrentados pelas democracias contemporâneas e brasileira em particular, em um ano em que haverá eleições presidenciais e a possibilidade deo retorno da extrema direita ao governo e nesse sentido, o combate à desinformação, ao negacionismo e às manipulações políticas e midiáticas torna-se, nesse contexto, um elemento central para a continuidade da democracia, da defesa das instituições democráticas e da valorização do conhecimento científico.
Fonte: saibamais.jor.br





