Para a maioria das pessoas adultas, não é fácil falar sobre temas áridos como abuso, abandono, luto, machismo, homofobia, racismo e violência. A dificuldade é ainda maior quando, pelos rumos inesperados que a vida toma, você se depara com essas questões de “gente grande” ainda na infância.
Em “Meninos Choram” (Sol Negro), seu livro de estreia, o jornalista potiguar Itaércio Porpino convida o leitor a olhar para esses assuntos sensíveis – além de muitos outros – a partir da perspectiva de crianças, os personagens principais das noves histórias ficcionais que tratam da construção do “mito da masculinidade”.
Repórter reconhecido pela sensibilidade humana nos textos jornalísticos, Itaércio Porpino trabalhou durante vários anos no jornal Tribuna do Norte e foi um dos fundadores do extinto guia cultural, Solto na Cidade.
Para o jornalista, o que mais importa não são os temas em si, mas “a história e a forma de contá-la”:
“Não que o tema seja insignificante – longe disso –, mas há quem consiga escrever literatura da melhor qualidade a partir de coisas triviais, assim como há quem produza má literatura sobre temas de enorme relevância e urgência. Eu prefiro infinitamente ser o primeiro tipo de escritor”, diz.
O problema, segundo ele, “está em primar por um certo utilitarismo e esquecer a literatura”.
“Eu espero sempre conseguir escrever histórias que toquem o leitor de alguma forma e nas quais ele reconheça a minha voz – que pode se manifestar por meio da poesia, como uma espécie de beleza triste”, acrescenta.
Itaércio considera que a literatura cumpriu com seu papel se, no seu caso, “conseguir provocar esse encontro sensível entre forma e conteúdo”.
Cigarros
O conto de abertura do livro, “Cigarros”, o preferido do autor, é uma demonstração desse “encontro sensível” entre forma e conteúdo, como diz ele. Ao narrar a história de uma família pobre do interior, com foco na relação autoritária do pai com seu filho de apenas cinco anos, Itaércio Porpino arrebata de primeira o leitor com um estilo literário que é poético sem deixar de ser cortante.
“Gosto dele porque trabalha com o mínimo necessário: poucas palavras, poucas cenas, mas muitas camadas. A história se constrói mais pelo que é sugerido do que pelo que é dito diretamente”, explica, ao justificar sobre a escolha do conto como o seu favorito.
“Há também uma quebra na ordem dos acontecimentos, discreta, mas funcional, que ajuda a tensionar a narrativa. Nada ali está por acaso – cada elemento cumpre um papel específico, cada palavra ocupa um lugar pensado. Esse cuidado com a escolha e a disposição das palavras – não apenas o que dizer, mas como dizer, ou, em vez de dizer, mostrar – é algo muito importante para mim e que geralmente me exige tempo”, detalha.
Em “Cigarros”, prossegue o autor, “o texto fluiu quase inteiro de uma vez, especialmente o início, no qual consigo contrapor a ideia de uma violência urbana ausente – por se tratar de outra época, sugerida pela descrição do cotidiano dos moradores – à violência doméstica, que acontece, e sempre aconteceu, dentro de casa”.
O conto, aliás, é o único dos nove que compõem o livro em que o verbo chorar não é citado explicitamente. A ausência, segundo ele, não foi casual, mas sim o “resultado de uma escolha consciente de linguagem”.
“Tudo nesse conto é bem medido e pesado com um propósito narrativo e dramático – cada palavra, a ausência de fala do menino. Quando narro a parte em que ele vai comprar os cigarros, revelo seu estado emocional – amedrontado e tenso – sem precisar dizê-lo literalmente”, revela.
A agressividade e o autoritarismo do pai aparecem com a mesma sutileza:
“Ele não pede, manda; não tira o cinto da calça, arranca. Justamente por isso, o choro não precisa aparecer nomeado: ele está diluído na cena, no corpo da criança e no silêncio que atravessa o conto. A crueza emerge desse contraste entre o gesto mínimo e a violência que o cerca”.
O “mito da masculinidade”

Desde criança, quando tinha uns dez anos, Itaércio conta que já se incomodava com as questões relacionadas à construção da masculinidade.
“Quando criança, com uns dez anos, nas vezes em que eu estava com amigos da mesma idade na rua, era muito comum alguns deles assobiarem para uma mulher e gritarem ‘gostosa’. Quem não agia da mesma forma era chamado de gay. Olha só como os meninos são moldados desde muito cedo”, narra.
Ele afirma que, apesar do incômodo, naquela época “ainda não consegui pensar de forma crítica sobre esse e outros comportamentos relacionados à construção da masculinidade na nossa sociedade, nem sobre como eles são extremamente nocivos para todos”.
“Hoje, entendo que é fundamental refletir sobre essa cultura – péssima em todos os sentidos –, mas que segue sendo normalizada, encarada com naturalidade, incentivada e até instrumentalizada de maneira muito triste”, reflete.
Itaércio assume que tudo no livro “fala de alguma forma da opressão ligada à masculinidade: das violências mais explícitas às mais silenciosas, da imposição da dureza à negação do afeto”.
O autor, no entanto, assegura que essa não foi uma escolha consciente desde o início. Apenas a partir do quarto ou quinto conto, segundo ele, começou “a perceber esses elementos em comum e, então, abracei essa temática como um eixo possível – talvez inevitável – da minha escrita”.
Histórias partem de “fragmentos de memórias”, revela o autor
Apesar de ficcionais, as histórias de “Meninos Choram”, escritas em períodos distintos entre 2021 e 2025, carregam muito do autor. Ele conta que parte quase sempre de “fragmentos de memórias” de coisas que viu ou vivenciou para criar as narrativas e as ambientações.
“O último conto, ‘Meninos choram’, começa com dois irmãos tentando capturar vaga-lumes. Essa é uma memória de infância de quando morei em Feira de Santana, na Bahia, pois a pouca iluminação da época, ali no finalzinho da década de 70, nos permitia ver muitos vaga-lumes. Era uma grande diversão tentar pegá-los para tê-los piscando em nossas mãos em concha. Uso essa imagem poética para introduzir o conto e criar uma atmosfera lúdica, cheia de inocência, para, logo em seguida, quebrá-la com um conflito entre os dois meninos. Todo restante da história é inventado, inclusive esse primeiro conflito”, exemplifica.
Itaércio afirma que o primeiro conto que escreveu foi “A Mão Dele”, que narra de forma lúdica a relação entre dois irmãos, os conflitos deles com os outros garotos da rua e o medo que o mais novo sentiu quando entendeu que, um dia, o irmão que o protegia “da malvadez do mundo, das gentes grandes e dos meninos pequenos maiores que eu” não estaria mais ali.
O conto foi selecionado para uma antologia nacional como prêmio do 1º Concurso Literário Anna Maria Martins, que escolheu 15 textos entre mais de 500, de autores de diversas partes do país.
“Esse reconhecimento, somado ao incentivo de outros escritores – especialmente do poeta Márcio Simões, que editou o livro – foi decisivo para que eu reunisse os textos e publicasse a obra”, conta.
O “caráter universal” das histórias da infância
O autor explica que escolheu não situar as histórias de “Meninos Choram” em datas nem em lugares específicos para “reforçar o caráter o caráter universal” das narrativas.
“Os contos evocam o meu tempo de infância – um período de inocência, em que a socialização se dava nas ruas, por meio de brincadeiras espontâneas e de uma liberdade maior. Ainda assim, não se trata de um livro de memórias nem de uma obra sobre o passado. Embora retrate um tempo que já não existe, é um livro atual, porque aborda questões que permanecem enraizadas na nossa sociedade”, comenta.
Ele diz, ainda, que “a ideia de passado é construída apenas por meio de elementos narrativos, sem marcações explícitas”.
“Mesmo quando os verbos aparecem no presente, a sensação de outra época se impõe com facilidade, criando esse trânsito contínuo entre o antes, o agora e o depois”, detalha.
A inclinação para a literatura
Jornalista com mais 30 anos de atividade na área, Itaércio admite que sempre teve uma inclinação para a literatura.
“Amo escrever, mas apenas quando tenho vontade e liberdade – em relação a tempo, forma e temática. Essa liberdade só encontrei plenamente na literatura”, declara-se.
Para ele, embora tenha sido sua profissão durante essas três décadas, “o jornalismo é bastante opressor nesse sentido”.
“O desejo de escrever ficção, no entanto, sempre esteve presente. Desde a pré-adolescência, influenciado por autores que comecei a ler nessa época, fui acumulando essa vontade e arriscando alguns escritos dos quais hoje talvez eu sentisse muita vergonha”, confessa, entre risos.
Itaércio diz esperar que não lhe “falte sede de escrever em 2026, para ver se sai alguma coisa até o final do ano, mas também não vou me cobrar”.
“Escrever tem que ser necessidade, não obrigação. Tem que ser de dentro pra fora, não de fora pra dentro”, comenta, sobre o já aguardado segundo livro.
Serviço:
“Meninos Choram” pode ser adquirido pelo perfil do autor (@itaporpino) e da editora (@solnegroeditora) no Instagram.
Fonte: saibamais.jor.br