A proximidade do fim da patente da semaglutida, princípio ativo de medicamentos como Ozempic e Wegovy, indica uma reconfiguração profunda do mercado brasileiro de canetas emagrecedoras a partir de 2026. Popularizadas especialmente no último ano, essas terapias passaram de tendência a fenômeno de consumo, com impacto direto na indústria farmacêutica. A expectativa do setor é de que o faturamento alcance cerca de R$ 20 bilhões, quase o dobro do volume atual, impulsionado pela chegada de genéricos e similares desenvolvidos por farmacêuticas nacionais. Esse movimento consolida o Brasil como um dos principais mercados globais de medicamentos voltados ao tratamento do diabetes tipo 2 e da obesidade, ao lado de países como China e Canadá.
Com o vencimento da patente, a chegada de versões genéricas deve provocar uma queda de preços estimada entre 30% e 50%, ampliando o acesso a um tratamento que hoje permanece restrito a uma parcela da população de maior renda. Laboratórios brasileiros como Hypera e EMS já anunciaram investimentos no desenvolvimento de suas próprias canetas, sinalizando uma disputa bilionária que tende a intensificar a concorrência e pressionar ainda mais os valores praticados nas farmácias. Atualmente, o Mounjaro lidera as vendas no país, com cerca de 57% de participação, mas analistas avaliam que esse cenário deve se redistribuir rapidamente com a popularização das novas opções.
Para a nutricionista Nathália Ribeiro, a ampliação do acesso pode representar um avanço importante no enfrentamento da obesidade, desde que o uso seja acompanhado por profissionais de saúde. Segundo ela, a semaglutida não deve ser encarada como uma solução isolada. “Esses medicamentos ajudam no controle do apetite e na melhora de parâmetros metabólicos, mas não substituem o que realmente funciona que é a mudanças de hábitos para um estilo de vida mais saudável. Quando o preço cai, aumenta também a responsabilidade de orientar melhor o paciente, para evitar frustrações e efeitos adversos”, afirma. Nathália destaca que a procura já é grande em consultórios e tende a crescer ainda mais com a redução de custos, o que exige protocolos claros de indicação e acompanhamento nutricional.
A experiência de quem já utiliza as canetas há mais tempo ajuda a dimensionar o impacto desses medicamentos na vida cotidiana. Para Mikarla Lopes que faz uso das canetas emagrecedoras há cerca de dois anos, inicialmente por indicação médica após dificuldades para controlar o peso associadas à resistência à insulina. Ela relata que os resultados vieram de forma gradual, acompanhados de mudanças na alimentação. “Não foi algo imediato, nem fácil. Enfrentei efeitos colaterais no início, precisei ajustar as doses e tive acompanhamento médico e nutricional ao longo do processo. Hoje entendo que o medicamento foi uma ferramenta importante, mas, sozinho, não teria funcionado no meu caso”, relata Mikarla.
Para ela, a perspectiva de preços mais baixos tende a beneficiar pessoas que atualmente interrompem o tratamento por não conseguirem arcar com os custos mensais. Ao mesmo tempo, Mikarla pondera sobre os riscos da popularização sem critérios. “Com canetas mais baratas, o acesso certamente melhora para todo mundo. A preocupação é que isso facilite o uso por quem não precisa, transformando um tratamento de saúde em uma solução fácil para resultados que poderiam ser alcançados de outra forma”, reflete.
Apesar do otimismo do mercado e dos relatos positivos, autoridades sanitárias mantêm um alerta. A Agência Nacional de Vigilância Sanitária tem reforçado campanhas contra o uso de produtos ilegais, falsificados ou manipulados sem comprovação de segurança e eficácia. Com a alta demanda, cresce também a circulação de canetas irregulares, muitas vezes vendidas pela internet ou por redes informais, o que representa riscos graves à saúde.
O endocrinologista Ricardo Pinheiros, alerta que a redução de preços, embora positiva do ponto de vista do acesso, pode trazer efeitos colaterais preocupantes se não vier acompanhada de controle rigoroso. “O barateamento das canetas aumenta o risco de banalização do uso. Sem indicação adequada, a semaglutida pode provocar efeitos adversos importantes, como náuseas intensas, vômitos, desidratação, perda excessiva de massa muscular e até agravamento de transtornos alimentares. Não se trata de um medicamento estético, mas de uma terapia para condições clínicas bem definidas”, ressalta. Segundo o endocrinologista, a tendência é de crescimento da automedicação e do uso sem acompanhamento médico.
O avanço dos genéricos de semaglutida , reúne oportunidades e desafios. De um lado, a perspectiva de democratização de um tratamento eficaz e a movimentação de bilhões de reais na indústria farmacêutica nacional. De outro, a necessidade de reforçar a regulação, a informação de qualidade e o acompanhamento clínico, para que a popularização não venha acompanhada de uso indiscriminado. Em 2026, o mercado brasileiro de canetas emagrecedoras deve entrar em uma nova fase, com impacto direto não apenas na economia, mas também na forma como o país enfrenta a obesidade e suas consequências.
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Fonte: saibamais.jor.br
