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Som da Mata, há 20 anos, a dose certa

O Parque das Dunas, nossa principal reserva de ar puro e Mata Atlântica, acolhe há 20 anos uma das iniciativas mais generosas e perenes da música no Brasil. O nome é tão bucólico que parece ter pedido emprestada a própria essência do lugar: Som da Mata, a música que se alimenta da fauna e da flora locais.

O maior parque urbano da América Latina, planejado por Lúcio Costa e Oscar Niemeyer, em Brasília, não tem nada parecido com o privilégio de que desfrutamos em Natal. O Som da Mata é coisa nossa, ideia original e muito bem executada entre os cantos dissonantes dos passarinhos que ali gorjeiam, únicos seres com voz e lugar de fala naquele ambiente.

O jardineiro fiel do Som da Mata é o jornalista Marcos Sá, produtor que, em julho, celebra duas décadas do projeto na cidade. Em 2006, o convite para ocupar o recém-criado Anfiteatro do Parque veio do então diretor-geral do Idema, Eugênio Cunha, o ex-general da Bandagália, banda que mudou a história do carnaval de rua da cidade.

De lá para cá, mais de 400 bandas e artistas solo passaram pelo Anfiteatro Pau-Brasil. Uma celebração da música instrumental sem o carimbo da caixinha de gêneros do mercado. Choro, jazz, rock progressivo, metal, valsa, baião, forró, coco e o que você imaginar de ritmos, brasileiros ou não, já fizeram eco entre as folhas de ubaia-azeda, amescla-de-cheiro, sucupira, mutamba, jatobá e outras espécies vegetais da área.

Reencontrei Marcos Sá neste domingo, mas não conseguimos prolongar o papo nem matar minha sede pelos detalhes e bastidores que fazem do Som da Mata um dos principais projetos culturais da cidade e um dos que há mais tempo permanecem ativos, entre hiatos que têm mais relação com a dificuldade de patrocínio do que com o desejo do produtor de manter os concertos.

No palco, uma pajelança instrumental. Sérgio Groove, um dos maiores baixistas do planeta, ladeado por Dudu Taufic, outro extraterrestre da música potiguar, além de Darlan Marley (bateria), Bruno de Lira (guitarra) e Ramon Gabriel (percussão), trio que leva o sarrafo lá para cima. Um time com selo de qualidade que sobe, com sua licença, em qualquer palco do mundo. Mas estavam ali, para deleite do público, num final de tarde de domingo.

Numa época em que a saúde mental tem merecido atenção e cuidados redobrados, o Som da Mata se afirma como uma experiência de qualidade de vida, um antídoto contra os efeitos da devastação musical imposta pelo mercado e também contra o distanciamento da natureza em tempos de mudanças climáticas.

Há 20 anos, uma vez por semana, na dose certa.

Fonte: saibamais.jor.br

Rafael Duarte

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