Quem cultua Orixá sabe que, toda vez que precisamos de apoio, recorremos a Eles. Buscamos força e sabedoria nos braços de quem pode nos valer mais. Nos sentimos seguros, protegidos e prontos para qualquer batalha. Durante uma semana difícil, eu não fiz diferente. Clamei pela força de Ogum para que me ajudasse a vencer as demandas da vida. Pedi coragem a Oyá para não esmorecer diante daqueles que querem ver meu mal. Pedi sabedoria a Oxum para lidar com as situações nas quais eu não sabia como agir.
Mas foram os Pretos Velhos que vieram em meu auxílio. A maioria de nós, talvez pela fama e glamour com que os Orixás são apresentados na internet, acaba vendo Neles uma espécie de heróis e heroínas nos quais nos inspiramos e queremos ser iguais. Pensar em pessoas comuns, idosas e de fala mansa não parece ser o mais promissor para enfrentar uma guerra. Pelo menos é assim que o Ocidente nos ensina.
Quando falamos de Pretos Velhos, estamos nos referindo a pessoas que foram sequestradas do continente africano, chegaram aqui apenas com o corpo, a palavra e a memória e sobreviveram a todas as atrocidades da escravidão por quase quatro séculos. Óbvio que tivemos Pretos Velhos e Pretas Velhas capoeiristas e líderes de rebeliões, mas quem me valeu em dias de luta foram aqueles senhores e senhoras que estavam exigindo de mim uma postura diferente.
Eu estava em guerra, todos os dias, com os dentes trincados e hipervigilante, sempre pensando no meu próximo ataque. Foi aí que a lição veio. Nem toda guerra se ganha na força. Às vezes, o que mais precisamos é acalmar o coração e agir com sabedoria. Nem tudo merece uma resposta. Nem tudo se resolve no grito. Quem tem razão não precisa gritar. Quem não quer ver o bem prosperar e sabe que você tem o poder para isso vai tentar de tudo para tirar o seu equilíbrio. Vai tentar desestabilizar você para que você esqueça pelo que está lutando e passe a viver em combate com essas pessoas. É uma luta sem sentido e sem vencedores.
Algumas pessoas simplesmente não querem ver coisas boas acontecerem e vão trabalhar para que você também não consiga. Se permitir entrar na vibração dessas pessoas e reagir na raiva e no grito é dar poder a elas. Pretos Velhos e Pretas Velhas nos ensinam que, muitas vezes, o melhor é evitar que a nossa boca seja nossa maior inimiga. Não se refuta o silêncio. Nossas ações falam por nós.
Então, não perca seu tempo discutindo ou tentando resolver as coisas na força bruta. Existe grande sabedoria em silenciar, observar e conduzir as coisas de forma estratégica. Isso significa que os Orixás não poderiam fazer isso por mim? De forma alguma! Mas que nunca nos esqueçamos daqueles que mantiveram nossas heranças ancestrais vivas e que nos ensinaram que, não importa por quais meios sejam necessários, fique viva.
Ana Paula Campos (Lua Callin)- Indígena Potyguara, Cigana Calon, mãe atípica, candomblecista e juremeira, Professora da rede pública, escritora, pesquisadora orgânica, bailarina e cartomante.
Fonte: saibamais.jor.br





