O avanço dos alimentos ultraprocessados no Rio Grande do Norte não pode ser explicado apenas por uma mudança de hábito alimentar. Por trás do aumento do consumo de refrigerantes, biscoitos recheados, macarrão instantâneo e refeições prontas há um conjunto de fatores socioeconômicos que ajuda a entender por que esses produtos ganharam mais espaço na mesa potiguar.
Pesquisa publicada pela Revista de Saúde Pública, da Universidade de São Paulo (USP), mostra que os ultraprocessados já representam 18,7% das calorias consumidas pela população do Rio Grande do Norte, índice acima do registrado em estados vizinhos como Paraíba (16,1%), Alagoas (16,6%) e Ceará (17,8%). No Nordeste, o RN aparece entre os estados com maior presença desses produtos na dieta, atrás apenas de Bahia (19,4%) e Pernambuco (19,3%).
Embora o percentual potiguar ainda esteja abaixo da média nacional, de 20,2%, o dado chama atenção porque revela uma mudança no padrão alimentar ligada menos à tradição culinária e mais às transformações no modo de vida, no custo dos alimentos e na organização das cidades.
O próprio estudo mostra que o consumo de ultraprocessados cresce junto com fatores como urbanização, renda, escolaridade e inserção em rotinas mais aceleradas. Entre as variáveis usadas pelos pesquisadores para estimar o consumo nos municípios brasileiros estão justamente renda, nível educacional, urbanidade, raça/cor, sexo e localização geográfica, o que reforça que o avanço desses produtos está diretamente ligado à estrutura social e econômica dos territórios.
No caso do Rio Grande do Norte, isso ajuda a explicar por que o estado aparece acima de boa parte do Nordeste. Segundo o João Menezes, nutricionista especialista em nutrição comunitária, O RN tem uma população majoritariamente urbana, forte concentração demográfica na Região Metropolitana de Natal e um padrão de consumo cada vez mais moldado pela lógica da praticidade. Em centros urbanos, onde o tempo de preparo das refeições é comprimido pela rotina de trabalho, deslocamento e jornadas extensas, alimentos prontos e semiprontos passam a ocupar um espaço maior por serem mais rápidos, acessíveis e amplamente disponíveis.
Esse processo também é econômico. “Em muitos bairros urbanos, nas periferias, comer bem custa mais caro e exige mais tempo. Alimentos in natura ou minimamente processados, como frutas, legumes e proteínas frescas, costumam ter preço mais instável, menor durabilidade e dependem de preparo. Já os ultraprocessados são baratos, duram mais tempo nas prateleiras, exigem pouco ou nenhum preparo e são distribuídos em larga escala por supermercados, mercadinhos e redes de conveniência”, explica. Na prática, isso faz com que a escolha alimentar seja muitas vezes determinada menos por preferência e mais por orçamento, tempo e acesso.
O consumo mais alto, portanto, não é apenas uma questão de gosto. Ele também reflete desigualdade alimentar. Famílias com menos tempo, menor renda disponível e menos acesso a feiras ou alimentos frescos tendem a depender mais de produtos industrializados de alta densidade calórica e baixo valor nutricional. É uma equação em que pesam inflação dos alimentos, precarização do trabalho e a expansão de um mercado que oferece comida rápida, barata e altamente palatável.
“Quando os ultraprocessados avançam, o que cresce não é só o consumo de produtos industrializados, mas a desigualdade no acesso à comida de verdade. A escolha alimentar nunca é apenas individual. Ela é atravessada por renda, tempo, território, oferta e pelas condições concretas de vida das famílias”, afirma o especialista.
Segundo ele, a maior presença desses produtos nas periferias urbanas está diretamente ligada à forma como o sistema alimentar se organiza. “Os ultraprocessados ocupam espaço porque são baratos, duráveis, amplamente distribuídos e exigem pouco tempo de preparo. Em contextos de insegurança alimentar, precarização do trabalho e sobrecarga doméstica, eles deixam de ser apenas uma opção e passam a funcionar como solução possível.”
Menezes avalia que o crescimento do consumo no Rio Grande do Norte acompanha uma lógica já observada em outras capitais brasileiras, em que a urbanização acelerada e a desigualdade tornam o ambiente alimentar mais vulnerável à presença de produtos industrializados. “Não se trata apenas de comer pior. Trata-se de um processo em que a alimentação passa a ser cada vez mais determinada pela renda e menos pela cultura alimentar, pelo tempo disponível e pela possibilidade real de escolha.”
O ambiente urbano também favorece esse avanço. A pesquisa aponta que moradores de áreas urbanas consomem, em média, 21,2% das calorias vindas de ultraprocessados, contra 14,1% entre moradores de áreas rurais. Nas capitais, esse percentual sobe para 23%.
Entre os municípios potiguares, Parnamirim lidera a proporção estimada, com 20,3% das calorias diárias vindas de ultraprocessados, seguida por Natal, Mossoró (18,0%), Caicó (17,5%) e Extremoz (17,3%). Não por acaso, são cidades mais urbanizadas, com maior circulação de renda, presença de redes varejistas e mudanças mais aceleradas no padrão de consumo. Na outra ponta, municípios menores e menos urbanizados, como Paraná e Jardim de Angicos, registram os menores percentuais, com 13,2%.
A conclusão dos autores é que o consumo de ultraprocessados no Brasil deixou de ser um fenômeno restrito aos grandes centros do Sul e Sudeste e se espalhou de forma desigual pelo território nacional.
O alerta é reforçado pelos impactos à saúde. A Organização Mundial da Saúde (OMS) classifica carnes processadas, como bacon e salsicha, no Grupo 1 de agentes cancerígenos, categoria de maior evidência científica para associação com câncer. Embora essa classificação se refira especificamente a carnes processadas, ela se soma ao consenso científico de que dietas com alta presença de ultraprocessados estão associadas a maior risco de obesidade, diabetes, hipertensão, doenças cardiovasculares e câncer.
No Rio Grande do Norte, onde esses produtos já ocupam quase um quinto das calorias consumidas pela população, o avanço dos ultraprocessados não revela apenas uma mudança no cardápio. Expõe também como desigualdade, urbanização e renda passaram a definir, cada vez mais, o que chega ao prato.
SAIBA MAIS:
Quase 19% da dieta dos potiguares é composta por alimentos ultraprocessados
Fonte: saibamais.jor.br





