Atualizações

Os arquivos da ditadura existem. Por que seguem ocultos?

Há uma pergunta que atravessa gerações e insiste em não ser respondida pelo Estado brasileiro: onde estão os arquivos da repressão?

A recente campanha “Arquivos da Memória: Onde Estão?”, lançada pela Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos, recoloca no centro do debate público uma reivindicação histórica dos familiares de mortos e desaparecidos políticos, dos movimentos de direitos humanos e de todos aqueles comprometidos com a democracia: a abertura irrestrita dos arquivos militares e a revelação integral da verdade sobre os crimes cometidos durante a ditadura civil-militar brasileira.

Não se trata de uma demanda nostálgica ou de um acerto de contas com um passado encerrado. O passado brasileiro não passou. Ele segue presente nas ausências, nos corpos não localizados, nos documentos ocultados, na impunidade dos perpetradores e na permanência de estruturas autoritárias que ainda atravessam nossas instituições.

Durante décadas, familiares ouviram a mesma narrativa oficial: os arquivos não existem, foram destruídos ou jamais existiram. A divulgação recente de documentos inéditos, revelados pelo trabalho jornalístico rigoroso e investigativo da jornalista Juliana Dal Piva, desmonta mais uma vez essa versão. Se documentos seguem aparecendo em acervos privados, sob posse de ex-militares ou suas famílias, então nunca faltaram registros. Faltou transparência. Faltou compromisso institucional com a verdade. Faltou vontade política.

Como jornalista, sei que o jornalismo investigativo cumpre uma função pública essencial, especialmente em democracias marcadas por pactos de silêncio. Investigar, revelar e contextualizar fatos ocultados é também disputar memória. É romper com versões oficiais construídas para legitimar violência de Estado e apagar responsabilidades históricas.

Não por acaso, esse debate ressurge em um momento de renovado interesse social e cultural sobre nossa memória política. O Brasil volta a olhar para sua história recente não apenas por meio de documentos e pesquisas acadêmicas, mas também pela potência da arte e da cultura. Produções como Ainda Estou Aqui e O Agente Secreto ajudam a recolocar a ditadura no imaginário coletivo, oferecendo novas formas de elaboração pública sobre trauma, silêncio e resistência.

Isso importa porque memória não é arquivo morto. Memória é campo de disputa política.

Países que não enfrentam seus passados autoritários carregam suas continuidades. O Brasil jamais realizou plenamente sua justiça de transição. Não responsabilizou torturadores, não abriu integralmente arquivos, não garantiu plenamente o direito à verdade e, por isso, permitiu que discursos autoritários fossem reciclados e normalizados no espaço público.

A luta por memória, verdade e justiça nunca foi apenas sobre o passado. É sobre o presente e o futuro da democracia brasileira.

A campanha da CEMDP é, portanto, estratégica e urgente. Ao criar um canal permanente para recebimento de documentos e informações, reconhece uma realidade que familiares denunciam há décadas: a verdade histórica brasileira permanece fragmentada, dispersa, sequestrada por pactos familiares, institucionais e militares.

Cada documento recuperado pode significar uma pista sobre o destino de alguém. Pode representar uma peça fundamental para reconstruir trajetórias interrompidas, localizar restos mortais, confirmar circunstâncias de morte, desmontar mentiras oficiais e oferecer, ainda que tardiamente, algum tipo de reparação.

Mas há algo ainda maior em jogo: o direito coletivo à verdade.

Uma democracia não se consolida sobre ocultamentos. Não há pacto democrático sustentável quando crimes de Estado permanecem envoltos em segredo, negacionismo e impunidade.

Como presidenta do Comitê Estadual de Memória, Verdade e Justiça do Rio Grande do Norte, integrante do Coletivo Filhos e Netos por Memória, Verdade e Justiça e filha de duas vítimas da ditadura, reafirmo a importância histórica e política dessa campanha. Minha trajetória também é atravessada por essa busca permanente: até hoje, nossa família procura documentos e informações que seguem ocultados pelo Estado brasileiro sobre as circunstâncias da morte de meu pai, apresentada oficialmente em uma versão marcada por contradições, lacunas e silêncios que jamais foram devidamente esclarecidos.

Sei, portanto, que cada documento recuperado pode significar muito mais que um dado histórico. Pode representar uma pista, uma reparação possível, uma resposta aguardada há décadas por famílias inteiras condenadas a viver entre a ausência e a dúvida.

Por isso, conclamo a sociedade brasileira a compreender que documentos relacionados ao período da ditadura não pertencem ao âmbito privado de famílias de ex-agentes da repressão ou a arquivos militares fechados. Tratam-se de documentos de interesse público, fundamentais para a reconstrução da verdade histórica e para o fortalecimento da democracia.

A verdade não pode seguir tratada como segredo de família ou espólio de guerra.

Abrir arquivos militares é uma dívida histórica com as famílias, com a democracia e com o país.

Porque sem memória, não há verdade. Sem verdade, não há justiça. E sem justiça, seguimos condenados a repetir as sombras que insistimos em não enfrentar.

Fonte: saibamais.jor.br

Jana Sá

About Author

Leave a comment

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

You may also like

Atualizações

Enem 2025: RN tem mais de 113 mil inscritos confirmados

Número de estudantes no exame é 10,9% superior aos inscritos de 2024. Provas desta edição do Enem tem data marcada
Atualizações Cotidiano

Incêndio atinge barracas de alimentação e deixa 4 feridos em festival gospel

Caso aconteceu na noite desta sexta-feira (25) durante shows do Festival Sal e Luz em Mossoró, no Rio Grande do