Atualizações

Por literaturas que mobilizem pensamentos, sentimentos e virtudes nas crianças

“Os livros são objetos transcendentes, mas os podemos amá-los do amor táctil.” Caetano Veloso(1997). Causa – me inquietação perceber a redução dos espaços destinados aos livros em muitos projetos arquitetônicos contemporâneos. Soma-se a isso o fechamento de livrarias de rua e o encerramento de grandes redes. Iniciativas voltadas à democratização do livro e da leitura merecem incentivo permanente.

Ler exige cultivo, continuidade e desejo. Em muitos modelos escolares tradicionais, a leitura obrigatória convertia-se em peso para parte dos estudantes, atravessada mais pelo dever do que pelo encantamento. Faltava, por vezes, a delicadeza de perceber a beleza que dança entre as palavras, na tessitura das narrativas, na construção das personagens e na arquitetura dos textos.

Para Clarice Lispector, em Felicidade Clandestina, a conquista de um livro desejado ultrapassa a relação com um objeto: “Não era mais uma menina com um livro: era uma mulher com o seu amante.” A narradora prolonga a espera, adia o prazer, esconde o livro e o reencontra. A metáfora construída por Clarice rompe com a perspectiva mecânica da leitura e afirma a entrega absoluta a um encontro. No sentir de Caetano Veloso(1997) “os livros que em nossa vida entraram são como a radiação de um corpo negro apontando pra a expansão do universo porque a frase, o conceito, o enredo, o verso e, sem dúvida, sobretudo o verso é o que pode lançar mundos no mundo.”

Por isso, importa celebrar as pessoas que se dedicam a construir mundos dentro de outros mundos, sobretudo aquelas que direcionam inventividade para as infâncias; pessoas que conduzem crianças por caminhos de imaginação, descoberta, ampliação vocabular e expansão das sensibilidades para o desenvolvimento de novos leitores e leitoras. 

Quando eu era menina, lia a mesma história inúmeras vezes. Saber decifrar as palavras produzia em mim enorme alegria. Havia encantamento em atravessar cidades lendo placas, nomes de ruas e fachadas. Outro entusiasmo consistia em ir, aos sábados pela manhã, à Livro 7, no centro do Recife. Aos olhos da criança que eu era, aquela livraria parecia gigantesca. Até hoje desconheço seu tamanho. Na memória, ela permanece imensa.

De tanto amar o hábito da leitura, assim que aprendi a escrever resolvi enviar uma carta ao meu escritor preferido. Desejava experimentar a emoção de receber correspondências, como via acontecer com os adultos da minha casa.

Escrevi para Ganymedes José, um dos autores mais lidos da literatura infantil da minha geração. Preparei uma carta cheia de perguntas e a encaminhei à editora, que a repassou ao escritor. Algumas semanas depois, naquele Brasil que respirava os ares iniciais da redemocratização, ele respondeu com delicadeza: primeiro, uma carta de próprio punho; depois, outra datilografada. 

Tempos mais tarde, recebi também minha primeira grande lição sobre a brevidade da vida. A editora escreveu comunicando sua morte e enviou um exemplar de um de seus livros como gesto de consolo, em resposta à outra carta que permanecera sem retorno. Havia enorme sensibilidade naquela forma de explicar a uma criança a partida de um autor.

Carrego profunda gratidão por Ganymedes José, assim como por Giselda Laporta Nicolelis, mãe do neurocientista Miguel Nicolelis, e pelo quarteto formado por Fernando Sabino, Carlos Drummond de Andrade, Rubem Braga e Paulo Mendes Campos, autores da coleção Para Gostar de Ler,uma iniciativa da Editora Ática pois atiçaram em mim o interesse pela leitura, contribuindo para o desenvolvimento da pessoa que sigo me constituindo, nesse vir a ser contínuo. 

Com esse espírito de reverência aos escritores e escritoras dedicados à literatura para crianças, considero um privilégio conviver com amigos que fortalecem a produção literária infantil realizada em Natal, no Rio Grande do Norte, e a projetam nacionalmente. Entre eles estão Juliano Freire, Adriano Gomes, José de Castro e Salizete Freire (in memoriam). Um dos últimos áudios de Salizete para mim, entre tantos assuntos, trazia a promessa de que ainda nos encontraríamos em outra alegria.

Eles produzem narrativas que estimulam o pensamento das crianças sem subestimá-las. Convocam o sensível, investem na qualidade estética das ilustrações e, simultaneamente, mobilizam em nós, adultos, reflexões indispensáveis. As imagens dialogam com os signos das infâncias, enquanto os temas pertencem ao interesse mais amplo da humanidade.

Nesta semana, Juliano Freire lançou mais uma obra. Autor de títulos como Doninha e o marimbondo, Pereyra – o menino bom de bola, Felizardo contra a bruxa da feira, Gumercindo mora no castelo e A cachorrinha que aprendeu a ler, ele conta que, na adolescência, escrevia para adultos nos cadernos da escola. Já na vida adulta, voltou-se à escrita para crianças. A experiência da paternidade, ao lado dos filhos Luca e Nicole, impulsionou histórias inicialmente narradas ao primogênito e, posteriormente, transformadas em livros.

A cachorrinha que aprendeu a ler nasceu diretamente pensado para o formato literário. Foram quatro horas de sessão de autógrafos na tarde do dia 08 de maio. As ilustrações são de Mari Holtz e lançado pela Editora Ases da Literatura, no selo Asinha. 

A narrativa acompanha uma família multiespécie em que uma cachorrinha escuta as histórias narradas pela avó Gertrudes e observa a rotina da família Pintassilgo. No encontro intergeracional entre avó, neta Lúcia e o pet, surgem letras, sentidos e descobertas. A cachorrinha aprende a ler silenciosamente e, como observa o autor, “sua maior leitura consiste em perceber-se amada e acolhida, experiência que sustenta qualquer aprendizagem”, afirmou sabiamente Juliano Freire. Trata-se de uma família comum, inserida em contexto urbano, composta por pais trabalhadores. A sintonia entre a avó, a criança e o animal organiza o núcleo afetivo do enredo.

Juliano reúne gentileza, sólida fibra ética, sensibilidade humanista e dedicação à família, ao jornalismo e aos amigos(as). Que bom amigo! Pertence à categoria rara das pessoas cuja presença favorece crescimento e amadurecimento dos que caminham ao redor. Que, assim como a cachorrinha que aprendeu a ler, também consigamos cultivar dentro de nós formas mais amorosas de habitar o mundo. 

Fonte: saibamais.jor.br

Ana Paula Felizardo

About Author

Leave a comment

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

You may also like

Atualizações

Enem 2025: RN tem mais de 113 mil inscritos confirmados

Número de estudantes no exame é 10,9% superior aos inscritos de 2024. Provas desta edição do Enem tem data marcada
Atualizações Cotidiano

Incêndio atinge barracas de alimentação e deixa 4 feridos em festival gospel

Caso aconteceu na noite desta sexta-feira (25) durante shows do Festival Sal e Luz em Mossoró, no Rio Grande do