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Jurema Sagrada resiste entre cidade, território e ancestralidade no RN

A Jurema Sagrada permanece viva no Rio Grande do Norte como prática espiritual, herança indígena e forma de resistência coletiva. Para lideranças e pesquisadores ligados à tradição, sua trajetória é marcada por séculos de perseguições, apagamentos culturais e luta permanente pela preservação dos territórios, da memória ancestral e dos saberes transmitidos entre gerações.

Fábio de Oliveira, que também leva o nome Ta’angahara, é mestrando em Antropologia na Universidade Federal do Rio Grande do Norte, cineasta, escritor, editor, ambientalista e juremeiro iniciado. Sua pesquisa acadêmica investiga as relações entre espiritualidade, território, meio ambiente e identidade presentes nos cultos de Jurema. O trabalho nasceu inicialmente de outro interesse, o de estudar o preconceito em torno do sacrifício de animais nos terreiros. Mas o próprio cotidiano dentro da religião levou o pesquisador a mudar de direção.

“No começo eu ia pesquisar o preconceito relacionado ao sacrifício de animais, mas percebi que existia algo muito mais urgente num cenário em que o mundo fala tanto sobre justiça climática e proteção da biodiversidade”, afirma.

Segundo Ta’angahara, o que mais o impactou foi perceber que a Jurema funciona como uma “grande rede de convivência”, onde humanos, plantas, sementes, animais e entidades espirituais participam conjuntamente da formação do iniciado. “No ritual, as plantas e os animais deixam de ser vistos como recursos ou coisas descartáveis. Eles se tornam participantes ativos”, explica.

Foto: cedida

A pesquisa parte justamente dessa compreensão: a de que os terreiros guardam conhecimentos ancestrais sobre formas sustentáveis de coexistência entre seres humanos e natureza. Em um momento de agravamento da crise climática e avanço da devastação ambiental, Ta’angahara entende que a Jurema oferece reflexões que ultrapassam o campo religioso.

“O terreiro tem muito a ensinar sobre respeito à vida”, resume.

A relação entre espiritualidade e território aparece como eixo central da pesquisa. Ta’angahara destaca que a Jurema nasce das tradições indígenas nordestinas e mantém vínculos profundos com a terra e os seres da floresta. Ele cita estudos dos professores Luiz Assunção e Rômulo Angélico para lembrar que os povos originários nunca enxergaram a terra apenas como mercadoria ou propriedade.

“Cada planta e cada animal são vistos como sagrados”, afirma.

Em janeiro deste ano, mais de mil pessoas ocuparam a Pinacoteca do Estado durante o 9º Encontro de Juremeiros e Juremeiras de Natal, transformando o espaço em um grande território de afirmação religiosa, cultural e política.

SAIBA MAIS: Encontro de Juremeiros reúne mais de mil fiéis e fortalece a Jurema como patrimônio vivo

Essa relação ancestral, porém, vem sendo tensionada pelo crescimento urbano, pelo desmatamento e pela destruição de áreas verdes. Segundo o pesquisador, muitos terreiros passaram a funcionar como verdadeiros refúgios ecológicos dentro das cidades. “Quando a mata diminui, os juremeiros precisam adaptar suas tradições para espaços cada vez menores. O terreiro assume a missão de proteger o pouco de verde que resta”, explica.

Na avaliação dele, defender a Jurema também significa defender os territórios tradicionais e enfrentar a lógica urbana marcada pela destruição ambiental. “Cuidar da espiritualidade e proteger a natureza são caminhos que andam juntos.”

A dimensão ecológica atravessa todos os aspectos do culto. Plantas, cascas de árvores, sementes, ervas, fumaça e animais fazem parte dos rituais e carregam significados espirituais fundamentais. Ta’angahara destaca que existe um profundo conhecimento tradicional sobre manejo e preservação desses elementos.

“O uso do tabaco, das cascas e dos animais não é feito de qualquer jeito ou por exploração. Existe um cuidado rigoroso, uma sabedoria que respeita o tempo e a vida de cada ser vivo”, afirma.

Para ele, a preservação ambiental não aparece como tema secundário dentro da Jurema, mas como condição de sobrevivência da própria religião. “Se a floresta morre, a nossa fé morre com ela.”

A pesquisa também discute quem sustenta essa tradição atualmente. Ta’angahara destaca o papel dos anciãos responsáveis pela transmissão dos cantos, rezas e fundamentos religiosos, mas amplia essa noção ao afirmar que a própria natureza participa da continuidade da Jurema:

“Se a árvore da Jurema não estivesse lá para nos dar sua ciência, a religião simplesmente não existiria”, afirma. “Na Jurema, o bicho e a planta não são enfeites. Eles trabalham junto com a gente.”

Durante o 9º Encontro de Juremeiros e Juremeiras de Natal, essa dimensão coletiva ficou evidente. Mais de mil pessoas vindas de diferentes regiões do Rio Grande do Norte e de estados vizinhos participaram das atividades na Pinacoteca do Estado. O encontro reuniu apresentações culturais, comercialização de produtos ligados à economia de terreiro, rodas de conversa, celebrações religiosas e o lançamento do livro “Soledade: Cachimbo, Rede e Rosário”, de Mãe Maria Rita.

Em sua fala durante o evento, Mãe Maria Rita destacou a importância do registro da memória dos povos de terreiro, historicamente excluídos dos espaços acadêmicos e editoriais. “Nós somos um povo de oralidade porque nunca deixaram a gente entrar na academia, nunca deixaram a gente publicar nossos saberes”, afirmou.

O encontro também reforçou a dimensão política da Jurema. Em 2024, a tradição foi reconhecida oficialmente como Patrimônio Religioso e Cultural Imaterial do Rio Grande do Norte, além da criação do Dia da Jurema, celebrado em 2 de julho. Ainda assim, lideranças denunciam que a violência contra terreiros e praticantes continua presente.

“Mesmo com as leis instituídas, as investidas contra os terreiros continuam acontecendo por meio de depredações, repressões e invasões”, afirmou Ta’angahara durante o encontro.

Segundo ele, o preconceito contra religiões de matriz afro-indígena continua profundamente ligado ao desconhecimento histórico produzido desde o período colonial. A própria pesquisa acadêmica, afirma, surge também como forma de enfrentamento desse apagamento.

“As pessoas muitas vezes olham para a Jurema apenas pelo mistério ou pelo preconceito e ignoram completamente a ciência, a história e a sabedoria ecológica que existem ali dentro”, diz.

Dentro da universidade, Ta’angahara reconhece avanços recentes no reconhecimento dos saberes tradicionais como formas legítimas de produção de conhecimento. Ele cita como exemplo a criação de uma disciplina sobre Jurema Sagrada na Universidade Federal da Paraíba, voltada ao estudo da história, da organização social e da riqueza cultural da tradição.

“Estudar a Jurema na universidade nunca será igual a vivenciar o sagrado no terreiro. Mas essas iniciativas ajudam a derrubar os muros do preconceito institucional”, afirma.

SAIBA MAIS: Estudo da UFRN aponta efeito duradouro da jurema-preta na depressão

Ao conectar espiritualidade, território, identidade indígena e preservação ambiental, a pesquisa desenvolvida por Ta’angahara busca mostrar que os conhecimentos preservados nos terreiros dialogam diretamente com desafios contemporâneos ligados à crise climática, à destruição ambiental e à intolerância religiosa.

“A Jurema guarda uma tecnologia de convivência que a nossa sociedade perdeu”, afirma o pesquisador. “Ela mostra que é possível conviver com a natureza sem destruir a vida.”

SAIBA MAIS: Jurema Sagrada é reconhecida como Patrimônio Religioso Imaterial do RN

Fonte: saibamais.jor.br

Gil Araújo

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