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Música e troca de olhares: linguagens de afeto

Começou com música.

Não exatamente com conversa, embora conversassem. Nem exatamente com flerte, embora houvesse desejo atravessando tudo, uma eletricidade escondida dentro da parede. Começou com uma canção enviada às duas da manhã, sem contexto algum.

“Escuta isso.”

Ela clicou.

Era uma música antiga, dessas que parecem tocar dentro de um quarto cheio de fumaça e lembranças. A voz rouca do cantor dizia algo sobre amar alguém mesmo quando o mundo inteiro parecia feito para impedir. Quando terminou, ela ficou olhando para o teto do quarto, sentindo que havia perguntas demais escondidas naquela escolha.

Respondeu no mesmo idioma.

Mandou outra música de volta.

Uma sobre encontros tardios.

Sobre pessoas que se reconhecem cansadas.

Sobre desejo dito pela metade.

E foi assim que passaram a se falar.

As mensagens vinham quase sempre acompanhadas de letras, links, trechos sublinhados, áudios curtos gravados dentro do carro, refrões específicos enviados. Entregavam um segredo. Nenhum dos dois dizia claramente o que queria dizer. A música fazia isso por eles.

Às vezes ele mandava algo agressivamente romântico, mas disfarçado em indie rock melancólico. Ela devolvia sambas doloridos, canções de amores impossíveis, MPBs que falavam de permanência sem precisar usar a palavra amor.

Era um idioma próprio.

Ele dizia “ouve a faixa três”.

Ela entendia “pensei em você o dia inteiro”.

Ela enviava uma música sobre saudade.

Ele compreendia “eu queria estar perto agora”.

Havia uma intimidade absurda em ser traduzido pelas escolhas musicais de alguém.

Os encontros começaram antes mesmo de acontecerem oficialmente. Criavam situações pequenas, quase banais, só para caber um no cotidiano do outro. Ela fingia precisar passar perto da oficina onde ele trabalhava. Ele inventava cafés demorados na região onde ela costumava estar. Às vezes dividiam apenas quinze minutos de conversa numa praça quente, encostados num banco descascado enquanto o fim da tarde dissolvia a cidade em tons cor de ferrugem. O Sertão faz o horizonte pegar fogo em certas estações.

Depois iam embora, semelhante a quem tenta preservar alguma coisa delicada demais para ser tocada rápido.

Nenhum dos dois tinha coragem de acelerar aquilo.

Talvez porque ambos soubessem que certos afetos, quando nomeados, se assustam e fogem.

Numa sexta-feira de chuva fina, ele mandou outra música.

Dessa vez, uma versão ao vivo. Voz baixa. Violão quase triste.

“Essa aqui me desmonta”, escreveu.

Ela ouviu sentada na cama, ainda enrolada na toalha depois do banho. A letra falava sobre duas pessoas que se olhavam. Um encontro para o descanso depois de anos sobrevivendo.

Ela demorou para responder.

Mandou apenas:

“Acho que a gente precisava se ver hoje.”

Ele respondeu em menos de um minuto:

“Acho isso também.”

Encontraram-se num bar pequeno perto do mercado, desses onde a iluminação é baixa demais e a música ambiente parece sempre saída de um rádio antigo. Ela chegou primeiro. Observava as gotas escorrendo pelo vidro enquanto tentava controlar a ansiedade absurda que sentia nas mãos.

Quando ele entrou, o mundo pareceu desacelerar.

Camisa clara grudada nos ombros por causa da chuva. O cabelo úmido. O olhar procurando por ela até encontrar.

A conexão ocorreu de imediato.

Não era apenas desejo.

Era reconhecimento.

Os dois carregassem silenciosamente a mesma exaustão de existir no mundo e, ainda assim, encontrassem alívio um no outro.

Ele sorriu primeiro, daquele jeito pequeno e involuntário que nasce antes da consciência. Ela sentiu o corpo inteiro amolecer.

Abraçaram-se. Num abraço longo e apertado carregado de… De quê?!

Sentou-se à frente dela como quem já conhecia aquele lugar.

Conversaram durante horas. Sobre discos antigos. Sobre shows ruins. Sobre letras que salvam pessoas em dias específicos. Sobre como certas músicas conseguem dizer exatamente aquilo que ninguém aprende a pronunciar em voz alta. Sobre a vida um do outro…

Em algum momento, ela comentou:

“Acho que a gente fala mais pelas músicas do que pelas mensagens.”

Ele riu baixo.

“Porque música não mente tão fácil.”

Ela não desviou o olhar, apesar do impacto que a frase lhe causou.

O bar foi esvaziando devagar. Cadeiras subindo nas mesas. Funcionários bocejando perto do caixa. E eles continuavam ali, presos numa conversa que parecia existir há muito tempo antes daquele encontro.

Na saída, caminharam pela calçada molhada sem direção definida.

Ele encostava nela às vezes, de leve, como quem testa a possibilidade de permanência. Ela percebia cada toque. Parecia que seu corpo inteiro tivesse sido reprogramado para notar apenas aquilo.

Pararam diante da praça da matriz.

O vento bagunçou o cabelo dela. Ele observou em silêncio por alguns segundos antes de dizer:

“Tem uma música que eu nunca te mandei porque fiquei com medo.”

Ela sorriu de canto.

“Então manda agora.”

Ele tirou o celular do bolso, procurou rapidamente e entregou para ela.

A canção começou suave.

A letra dizia: “Eu sei, é o amor que ninguém mais vê.”

Ela levantou os olhos devagar, pensou: “Será que ninguém mais vê isso?!”

E lá estava ele.

A mesma troca de olhar.

O mesmo sorriso suspenso no canto da boca.

A mesma transparência impossível entre duas pessoas que já tinham entendido tudo sem precisar nomear quase nada.

Ela segurou a mão dele pela primeira vez.

Sem espetáculo.

Sem anúncio.

Sem urgência.

Igual a quem, finalmente, encontra a nota certa depois de passar anos ouvindo a vida desafinada.

Despediram-se com a promessa de um novo encontro, talvez na casa de um deles?!, regado a vinho?!, uma cerveja?!, pizza?!, churrasco?!, cachacinha?!, um café?! …

Decidiriam depois.

Quando, deitada em sua cama pensava naquele encontro, pensou: Mais transparente que nosso olhar quando nos vemos é a troca de olhar que permanece com um sorriso no canto da boca quando lembramos um do outro.

Fonte: saibamais.jor.br

Bia Crispim

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