Abrir um álbum de família como gesto de memória e pertencimento coletivo. Essa é a base do projeto Álbum da Memória Familiar Periférica, iniciativa do fotógrafo e pesquisador Everson Andrade que propõe transformar imagens guardadas em casas de bairros periféricos em um arquivo digital acessível, construído a partir da participação direta do público.
A proposta convida moradores de Natal, Parnamirim e outras cidades do Rio Grande do Norte a enviarem fotografias acompanhadas de relatos pessoais por meio de formulário online. O material será reunido em uma publicação digital gratuita, funcionando como documento histórico e afetivo das comunidades.
O projeto aposta no processo de revisitar essas memórias como ponto central da experiência. “O que mais amplia o sentido dessas memórias é o gesto da pessoa. Ela parar, pegar o álbum e começar a revisitar essas imagens, talvez com o pai, com a mãe, com alguém da família. Esse movimento já é muito potente”, afirma Everson em entrevista à Agência Saiba Mais.
A iniciativa se estrutura em três etapas: coleta digital das imagens e relatos, realização de encontros virtuais com convidados e, por fim, a construção do álbum coletivo. Segundo o idealizador, a prioridade neste momento é garantir a participação. “Eu estou focado em realizar o projeto de uma forma que seja executável e que cumpra suas demandas. Minha maior preocupação é que as pessoas cheguem e compartilhem suas histórias”, diz.
A expectativa, inclusive, não está na natureza das narrativas, mas na diversidade delas. “Eu não estou esperando histórias específicas. Quero que venham histórias. Pequenas, grandes, engraçadas, emocionantes. O importante é compartilhar.”
Sem uma curadoria rígida, o projeto busca preservar a pluralidade de vozes. A única possibilidade de seleção ocorre caso um envio individual comprometa o equilíbrio do conjunto. “A princípio, eu não pretendo fazer seleção. Só se houver um volume muito grande de uma única pessoa que acabe destoando do todo”, explica.
O foco nas periferias está diretamente ligado à ausência histórica dessas vivências nos registros oficiais. “As cidades são formadas, em sua maioria, por periferias. Mas quando a gente olha para os arquivos institucionais, muitas dessas histórias não estão lá. Elas estão nos álbuns de família”, afirma Everson. Ele reforça que esses acervos domésticos guardam uma dimensão da cidade que não aparece em documentos públicos ou na cobertura tradicional da imprensa.
A proposta também dialoga com debates contemporâneos da fotografia, que têm revisitado o álbum familiar como campo de criação e investigação. “Hoje existe uma produção muito forte em torno desses acervos. Trabalhos que revisitam o álbum e, a partir disso, constroem narrativas, às vezes até ficcionais”, observa.
Outro eixo do projeto é a acessibilidade. A partir do trabalho com uma equipe especializada, será incorporada a prática da descrição afetiva das imagens, buscando tornar o conteúdo acessível a pessoas com deficiência visual. “Não é só descrever o que está na imagem, mas colocar também o que ela carrega de emoção”, explica.
Entre as atividades previstas para as próximas semanas do projeto, estão encontros virtuais com artistas e pesquisadores que trabalham com memória e fotografia. A pesquisadora Elisa Elsie apresenta estudos sobre álbuns de família e o conceito de maternografia. Já Kely Araújo conduz a atividade “Guia audiodescritivo poético”, voltada à construção de descrições sensíveis das imagens. Também participam artistas e pesquisadores que exploram arquivos pessoais em seus trabalhos, além de um historiador que atua com memória local em Parnamirim.
Apesar do potencial de alcance, Everson adota uma perspectiva cautelosa sobre os impactos do projeto. “Eu não espero que seja transformador de comunidades. Transformador é saneamento básico, educação de qualidade. Mas se tocar algumas pessoas, se motivar alguém a contar a história do seu bairro, isso já é muito significativo.”
A iniciativa nasceu, em parte, da própria experiência do fotógrafo com o território onde vive há mais de duas décadas. Ao acompanhar as transformações do bairro e revisitar imagens familiares, ele identifica nesses registros um valor que ultrapassa o âmbito privado. “Tem fotos aqui em casa que contam muito da história da nossa rua, do que era o bairro. São imagens íntimas, mas que também falam do território”, relata.
A proposta, segundo ele, é somar ao debate sobre memória e cidade, sem pretensão de esgotá-lo. “Meu trabalho não busca ser ponto final de nada. Ele procura colaborar com um debate que é muito maior.”
Ao final, o projeto resulta em um álbum digital coletivo, disponível gratuitamente. Mais do que um produto final, a iniciativa se apresenta como um processo de ativação de memórias e conexões entre territórios. “O projeto tenta cumprir algumas funções, compartilhar saberes e, principalmente, conectar pessoas”, resume Everson.
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Fonte: saibamais.jor.br





