Desde as eleições do ex-presidente, Jair Bolsonaro, estamos vivenciando um surto de declarações absurdas que, inclusive, foram e são legitimadas por ele e seus apoiadores. Gente que veio a público questionar a eficácia das vacinas e fazia campanha contra, alegando os efeitos nocivos que poderiam causar à saúde. Isso sem falar nos inúmeros questionamentos sobre a eficácia e a suposta falta de pesquisas que a comprovassem.
Recentemente, a ANVISA emitiu um alerta a respeito do detergente da marca Ypê, mais especificamente sobre o lote terminado em um. Imediatamente, surge um movimento inacreditável nas redes sociais de bolsonaristas bebendo o produto, banhando-se com ele ou jogando-o em plantações e comidas. Eu poderia alegar que as mesmas pessoas que antes estavam questionando as comprovações científicas a respeito das vacinas contra a COVID-19 estão agora não apenas fazendo uso, mas bebendo um produto que possivelmente está contaminado por uma bactéria grave.
Que a preocupação dessas pessoas não é com a saúde ou com a ciência, disso nós já sabemos. Não dá para esperar lucidez dessa gente, então não percamos tempo com isso. O que tem me assustado verdadeiramente é a quantidade de pessoas que se dizem preocupadas com saúde, as mesmas defensoras da ciência e das pesquisas, buscando alternativas similares ao Mounjaro, inclusive no mercado clandestino, e tomando-as sem prescrição médica.
Mesmo com vários estudos apontando as indicações do medicamento (diabetes tipo 2 e obesidade), pessoas que estão apenas com excesso de peso estão recorrendo às chamadas “canetas emagrecedoras”. Não estou aqui para tecer comentários negativos sobre o produto. É um caminho possível e seguro para quem tem acesso ao medicamento testado e com acompanhamento médico, o que vai exigir recursos financeiros que a maioria da população não tem.
O problema é ver pessoas instruídas e supostamente lúcidas buscando alternativas que não são seguras, não pela saúde, mas para atingir um padrão estético exigido pela mídia e que sabemos ser inalcançável. O Brasil é o país que mais realiza procedimentos estéticos no mundo e, apesar das discussões que vemos nas redes sobre corpos reais, a verdade é que ninguém está satisfeito com o próprio corpo e, em muitos casos, é capaz de tudo para conseguir atingir seu ideal. Muitos homens que criticam a ditadura da beleza nas redes sociais buscam corpos magros para se relacionar. Muitas mulheres passam o dia atacando outras mulheres porque engordaram, e isso não faz o menor sentido.
Durante o Met Gala 2026, acompanhei várias críticas aos corpos de Rihanna e Beyoncé, mulheres lindíssimas que acabaram de ter filhos e já têm mais de trinta anos. O que esperar de mulheres nessa idade, que são mães e têm uma carreira ativa? Alguns dirão: “ah, mas elas são ricas e vivem da imagem, deveriam se cuidar”, mas elas, mesmo um pouco acima do peso, continuam lindíssimas e bem-sucedidas. O que é “se cuidar” para você?
Quem conhece minha filha sabe que ela é extremamente magra. Eu, apesar das fotos e comentários elogiosos nas redes, peso 100 kg. Adivinha quem está com o colesterol alto. Entendem? Saúde não é sobre balança e números. Esperar que eu, uma mulher de 45 anos, mãe, trabalhando o dia todo em várias atividades e cuidando da casa, ainda tenha ânimo diariamente para cuidar do corpo, comer bem e ainda atingir o manequim 42 é querer me envolver nessa máquina da indústria que movimenta moda, medicamentos e suplementos.
Se o seu peso lhe incomoda, emagreça, mas faça isso com respeito pela sua trajetória, rotina de vida e saúde. Não use a régua das redes sociais como parâmetro. Corpos ditos perfeitos são fruto de muita disciplina, sim, mas também e principalmente de vários procedimentos e de uma dieta restritiva.
Independentemente do seu manequim, vá ser feliz. Acredite: ninguém liga! Quem comenta, na verdade, está tentando apenas tirar o foco de si mesmo, mas, no fundo, tem inveja da sua autoestima.
Ana Paula Campos (Lua Callin)- Indígena Potyguara, Cigana Calon, mãe atípica, candomblecista e juremeira, Professora da rede pública, escritora, pesquisadora orgânica, bailarina e cartomante.
Fonte: saibamais.jor.br





