A Polícia Civil do Rio Grande do Norte divulgou em seu site oficial uma operação que prendeu um idoso de 79 anos que foi condenado por um homicídio cometido em 1984. Segundo a publicação, a vítima era goleiro do Riachuelo Atlético Clube. De acordo com a informação, o crime ocorreu em um bar no bairro de Lagoa Seca, em Natal, após desentendimento entre as partes. O assassino deixou o local após discussão e voltou com uma arma de fogo para executar o ex-atleta. O assunto foi replicado sem outras apurações por grandes veículos de comunicação do estado como G1 e Tribuna do Norte.
Para entender o caso, muito além das poucas informações fornecidas atualmente, é preciso voltar ao dia 15 de setembro de 1984, no bairro de Lagoa Seca, na rua Alberto Silva, nos arredores da Igreja de São João. O ex-jogador de futebol de 35 anos, João Pereira da Silva, conhecido como Esquerdinha, chegou no início da noite na sede do Ipiranga Futebol Clube para cumprir a rotina semanal de confraternizar com os amigos no estabelecimento.
Naquele sábado, ao contrário de outras ocasiões, João tinha programado ficar apenas um curto período no bar do clube Ipiranga. O motivo da visita mais breve estava relacionado ao fato de sua filha estar comemorando 15 anos na mesma data. A noite estava reservada para comemoração do aniversário em família.
Meia hora após a chegada, Esquerdinha pagou a conta, se despediu dos amigos e deixou o local. Entretanto, antes de chegar na porta de saída, foi surpreendido com seis tiros executados por José Fernandes que imediatamente se evadiu. Quatro disparos atingiram cabeça, tórax e perna da vítima que ficou com o corpo estirado no chão, precisamente ao lado da mesa de sinuca.
Esquerdinha foi socorrido e levado ao pronto-socorro do Hospital Walfredo Gurgel a bordo de uma Chevrolet Caravan guiada pelo amigo Manuel Gomes. Na unidade de saúde, o esportista foi atendido, passou por procedimento cirúrgico, mas acabou falecendo após a meia noite. No dia seguinte, em meio a grande consternação no universo local do futebol, o seu corpo foi sepultado no cemitério de Nova Descoberta. Uma semana depois, a Federação Norte-Rio-Grandense de Futebol (FNF) organizou a missa de sétimo dia na Catedral Metropolitana.
A investigação do crime ficou sob a responsabilidade do delegado José Corsino de Queiroz, titular da 5ª DP. A autoridade policial esteve no local e ouviu de testemunhas que a execução ocorreu de surpresa. Não foram presenciadas discussões entre os envolvidos e ambos bebiam em espaços diferentes. O dono do bar, Miguel Costa Filho, afirmou que Esquerdinha chegou no lugar para conversar com os amigos, como costumava fazer nos finais de semana.
José Fernandes, que morava logo ao lado na Rua São João já se encontrava no recinto após a chegada do ex-goleiro. Miguel declarou que apresentou a vítima ao acusado. Os dois se cumprimentaram com um aperto de mão, mas cada um permaneceu em seus respectivos lugares. Em seguida, o acusado foi visto pedindo para outra pessoa ir até sua casa buscar uma bolsa, que até então, não se sabia que continha o revolver usado no homicídio.
Momentos depois, Esquerdinha e José Fernandes foram vistos indo ao banheiro ao mesmo tempo. Testemunhas relataram que os dois foram vistos conversando naquele ambiente. Ao deixarem o toalete, cada um voltou para o espaço que estavam no bar. Quando o ex-goleiro se despediu dos presentes, foi surpreendentemente alvejado na saída.
Os jornais da época mostraram versões conflitantes sobre a razão do delito que orbitaram sobre uma possível motivação passional relacionada a uma mulher. A defesa de José Fernandes alegou que se defendeu de uma tentativa de agressão e ameaça recebidas da vítima no momento em que estava no banheiro. Porém, testemunhas reforçaram que não observaram a discussão e que Esquerdinha era bastante querido no bairro.
Nos anos 70, João Pereira da Silva foi goleiro no futebol profissional defendendo as cores do Ferroviário Esporte Clube, uma pequena agremiação fundada em 1952 pelos trabalhadores de Rede Ferroviária que disputou continuamente os campeonatos estaduais até a década de 1980. A vítima também jogou no Riachuelo Atlético Clube que é o mesmo time que revelou o craque Marinho Chagas.
Na época do falecimento, o ex-jogador era casado, tinha três filhos, morava em Potilândia e trabalhava como serralheiro. No entanto, o esporte ainda estava presente na sua vida. Além de presidente, Esquerdinha era o treinador do Alvorada Esporte Clube, agremiação que disputava o principal campeonato amador da região. O certame era organizado pela FNF, tinha grande destaque nos jornais e servia de vitrine para os clubes captarem novos talentos.
O resgate do caso com a prisão de José Fernandes trouxe à tona as lembranças de quem viveu a dor da perda. Julinho Leão, hoje líder comunitário no bairro de Nova Descoberta, tinha 17 anos em 1984 e era atleta de Esquerdinha no Alvorada. Ele lembra do ex-goleiro com muito carinho e o descreve como uma pessoa muito querida e, taticamente, um visionário do futebol, que apoiava os jovens que sonhavam em seguir a carreira de jogador profissional.
Enquanto a cobertura atual ocultou os nomes dos envolvidos e divulgou apenas a detenção de um frágil velhinho de 79 anos, as notícias da época desvendaram o perfil de quem puxou o gatilho. Em 1984, José Fernandes era casado, vendia verduras na Ceasa e já tinha um histórico de violência. Segundo publicações do jornal O Poti daquele ano, antes mesmo do homicídio no bar do clube Ipiranga, o acusado já carregava no currículo a suspeita de outro assassinato a tiros, além do atropelamento de um idoso.
A ação recente da Polícia Civil quatro décadas depois joga luz sobre um caso praticamente esquecido, exceto para amigos e familiares de Esquerdinha. A prisão de José Fernandes encerra um grande período de impunidade e traz um desfecho tardio para um crime que abalou o futebol amador da cidade.
Fonte: saibamais.jor.br





