A viralização de vídeos de políticos e influenciadores banalizando o alerta sanitário da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) sobre produtos da marca Ypê ganhou novos contornos após o surgimento de um caso investigado no Rio Grande do Norte envolvendo uma criança internada com suspeita de intoxicação associada ao uso de detergente incluído na lista de recolhimento da agência.
Um dos vídeos mais virais foi publicado na última terça-feira (12), o deputado federal Sargento Fahur publicou um vídeo nas redes sociais em que aparece lavando o próprio bigode com detergente Ypê. Na gravação, o parlamentar ironiza a decisão da Agência Nacional de Vigilância Sanitária, responsável por suspender a fabricação, comercialização e distribuição de 24 produtos da empresa após identificar falhas graves no controle de qualidade e possível risco de contaminação microbiológica.
A publicação rapidamente viralizou e passou a ser reproduzida por apoiadores do ex-presidente Jair Bolsonaro. Em outros vídeos, influenciadores aparecem ingerindo pequenas quantidades de detergente, aplicando o produto na pele e questionando a legitimidade da decisão técnica da agência reguladora. Parte das publicações sugere, sem provas, que a medida teria motivação política.
Enquanto os vídeos circulavam nas redes sociais em tom de deboche, um caso em Natal passou a chamar atenção das autoridades sanitárias.
A Secretaria Estadual de Saúde Pública do Rio Grande do Norte acompanha a situação de Maria Clara, de 10 anos, que foi internada na UPA Pajuçara com quadro de infecção bacteriana generalizada. Segundo relato da mãe da criança, Tatiana Silva, os sintomas começaram após o contato com um detergente Ypê pertencente aos lotes identificados pela Anvisa, com numeração final 1. A criança foi transferida na tarde da última quarta-feira (13) para o Hospital Infantil Varela Santiago.
Até o momento, não há confirmação de que a infecção tenha sido causada pelo produto. O caso segue sob investigação da vigilância epidemiológica.
Para especialistas, no entanto, transformar alertas sanitários em disputa ideológica pode gerar consequências perigosas.
O infectologista Ricardo Alves explica, em entrevista à Agência Saiba Mais, que medidas preventivas como recolhimentos de produtos existem justamente para evitar danos maiores à população antes da confirmação definitiva de casos:
“Quando a Anvisa identifica falhas em controle de qualidade com potencial risco microbiológico, ela precisa agir preventivamente. Isso não significa que todas as pessoas terão intoxicação ou infecção, mas significa que existe um risco sanitário que precisa ser tratado com seriedade”, afirma.
O médico também critica conteúdos que incentivam o uso inadequado de produtos químicos:
“Detergente não é alimento e nem produto de uso corporal. Mesmo sem contaminação microbiológica, a ingestão ou aplicação inadequada pode causar irritações, intoxicações e outros problemas de saúde na derme”, acrescenta.
A própria Anvisa reforçou que a decisão possui caráter técnico e preventivo. Segundo a agência, os problemas identificados envolvem falhas relacionadas à garantia e ao controle de qualidade na fabricação dos produtos da Química Amparo, responsável pela marca Ypê, na unidade de Amparo, em São Paulo.
Entre os itens afetados estão detergentes lava-louças, sabões líquidos para roupas e desinfetantes. A orientação oficial é que consumidores verifiquem os lotes suspensos, interrompam imediatamente o uso e entrem em contato com o Serviço de Atendimento ao Consumidor da empresa.
A decisão rapidamente foi transformada em disputa política por influenciadores e políticos ligados à extrema direita, que passaram a publicar vídeos utilizando os produtos de forma provocativa nas redes sociais. Em uma das gravações mais compartilhadas, um homem aparece ingerindo um frasco inteiro de detergente enquanto faz ataques a “petistas”. Figuras como Michelle Bolsonaro e Cleitinho Azevedo também aderiram à onda de publicações ironizando o alerta sanitário da Anvisa, repetindo uma estratégia já vista durante a pandemia de Covid-19, quando setores bolsonaristas passaram a desacreditar decisões técnicas de órgãos de saúde pública.

O ministro da Saúde, Alexandre Padilha, rebateu as acusações de perseguição política envolvendo a decisão da agência e afirmou que o diretor responsável pelo procedimento foi indicado ainda durante o governo Bolsonaro.
No Rio Grande do Norte, a Vigilância Sanitária estadual informou que, até o momento, não houve apreensão dos produtos incluídos na resolução da Anvisa. A fiscalização na capital é de responsabilidade da Vigilância Sanitária Municipal.
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Fonte: saibamais.jor.br







