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Amém Ore lança “Clube da Humanidade” gravado em ocupação em Natal

Rap e resistência: Amém Ore lança “Clube da Humanidade” gravado em ocupação em Natal

Amém Ore é um artista de guerra, mas as armas dele são a caneta e a voz. Rapper e poeta, filho de Mãe Luíza, o potiguar lançou neste mês seu mais novo trabalho, “Clube da Humanidade”, um videoclipe-documentário gravado na Ocupação Palmares, organizada pelo Movimento de Luta nos Bairros, Vilas e Favelas (MLB) no bairro das Rocas, Zona Leste de Natal. 

A obra, com cerca de 8 minutos e disponível no YouTube (assista abaixo), marca o retorno de Amém Ore, nome artístico de André Lima, depois de cerca de três anos desenvolvendo o projeto. 

O título da obra faz referência ao pensamento do filósofo indígena Ailton Krenak, que questiona a ideia de uma humanidade moderna construída por uma parcela da sociedade. Nesse modelo, só é reconhecido como plenamente humano quem se encaixa em padrões de consumo, lucro e produção infinita.

“O Ailton Krenak critica essa sociedade produtiva de muito dinheiro, de muito lucro e a crítica dele é sobre as pessoas que não conseguem alcançar esse Clube da Humanidade, que seria, por exemplo, a elite, uma pequena parcela da sociedade, e o resto da população que não faz parte dessa parcela, nessa crítica, é tratado como não humanos, como indigentes, pessoas que não merecem dignidade”, explica.

“Quando eu pensei nessa crítica, eu pensei muito nas ocupações, que lutam exatamente por essa dignidade, por uma moradia, por comida, por um trabalho digno.” 

O trabalho audiovisual mistura entrevistas, performances e, claro, o rap. “A música fala muito da perspectiva da crítica e o videoclipe já mostra essa outra fase da humanidade que esse Clube da Humanidade tenta apagar”, define Amém Ore.

Para colher os depoimentos e gravar dentro da Ocupação Palmares, o artista contou com a sensibilidade e com a paciência para que tudo saísse como planejado. Depois de tantas idas, o videoclipe-documentário ganhou vida e foi exibido dentro da própria Palmares, para que os moradores pudessem assistir, no último dia 5 de março. 

“A gente passou um ano inteiro visitando a ocupação, dialogando, falando sobre o que seria o projeto, para aí sim as pessoas realmente se sentirem confortáveis para conversar com a gente”, conta.

André Lima mora em Mãe Luíza e já teve uma tia que liderou uma das primeiras ocupações na comunidade. Por isso, “Clube da Humanidade” não se distanciou da sua própria realidade. 

“É algo da minha vivência e também de querer contar essa vivência. Tudo foi se interligando”, atesta.

As letras do rap dentro do videoclipe-documentário denunciam o racismo, a desigualdade social e questionam a quem serve a nossa democracia. Lima diz que produzir o trabalho o ajudou a entender o que o hip-hop visa, como a empatia, a coletividade, a humanização e a oportunidade de dar local de fala.

“Foi, na prática, fazer o que a gente fala. A gente sempre fala sobre a desigualdade, mas muitas vezes a gente não vai até esses pontos para ouvir e dar local de fala para essas pessoas. Eu me senti não só como um rapper, mas como um ativista, como um repórter também”, diz o cantor e poeta.

Se a democracia é do povo, porque o governo é do rico? 
O sonho do capitalista é controlar o capitalismo 
Mas internet e celular
Saibam, nada disso se come 
A fome não tem Twitter, mas tem milhões de seguidores no mundo inteiro 
E o Brasil sendo comandado por militares, garimpeiros, milionários e fazendeiros
Trecho do videoclipe-documentário “Clube da Humanidade”

Amém Ore se notabilizou a partir das batalhas de slam, um gênero de poesia falada que encontrou lugar dentro da periferia e do rap. Já ganhou o Slam RN e representou o estado na etapa nacional, o Slam Br. Em Mãe Luíza, bairro onde mora, também organiza o Slam no Mirante. Depois de “Clube da Humanidade”, ele já tem outros projetos em mente e prepara o lançamento do seu próximo EP — o primeiro gravado com banda.

“É um EP mais diferenciado, mais romântico, mais puxado pro rock e rap, algo bem diferente do que eu lancei”, adianta.

Confiram o videoclipe-documentário “Clube da Humanidade”:

Fonte: saibamais.jor.br

Valcidney Soares

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