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Pesquisa mostra que 53% das notícias sobre HIV no Brasil reforçam preconceitos

Pesquisa mostra que 53% das notícias sobre HIV no Brasil reforçam preconceitos

Mais da metade das matérias publicadas sobre HIV e aids no Brasil ainda utiliza linguagem ou enquadramentos que reforçam estigmas. O dado aparece em um guia voltado a profissionais da comunicação que propõe repensar a forma como o tema é tratado no jornalismo e em outras áreas da mídia. Intitulado “Pequeno manual de comunicação não estigmatizante sobre HIV e aids”, o material foi desenvolvido no âmbito do Programa de Pós-Graduação em Saúde Coletiva da Universidade de Brasília (UnB). A publicação reúne orientações práticas para jornalistas, publicitários e comunicadores interessados em abordar o tema de forma mais responsável e alinhada aos direitos humanos.

O manual surgiu a partir de uma pesquisa que analisou 1.945 matérias publicadas entre 2020 e 2024 nos portais G1, UOL e CNN Brasil. O levantamento mostrou que 53,8% das publicações apresentavam algum tipo de abordagem estigmatizante, enquanto 46,2% foram classificadas como não estigmatizantes.

Segundo os autores, parte do problema está na forma como o HIV costuma aparecer no noticiário. Em muitos casos, o vírus é citado em contextos de crime, violência ou morte, o que contribui para reforçar estereótipos e preconceitos. A pesquisa identificou que cerca de 30% das matérias analisadas estavam em editorias policiais e 12% em obituários.

Para o guia, a comunicação tem papel central na forma como a sociedade compreende o HIV. Cada escolha de palavras, enquadramento ou fonte pode influenciar percepções públicas e até políticas de saúde.

Entre as orientações, o manual recomenda evitar termos considerados estigmatizantes, como “portador do vírus” ou “aidético”, e priorizar expressões que coloquem a pessoa em primeiro lugar, como “pessoa vivendo com HIV”. A publicação também orienta jornalistas a evitar linguagem sensacionalista e metáforas associadas à tragédia ou culpa.

Outro ponto destacado é a importância de incluir pessoas vivendo com HIV como fontes nas reportagens. Segundo a pesquisa, matérias que ouviram diretamente essas pessoas apresentaram abordagens mais humanas e informativas na maioria dos casos.

O guia também destaca avanços científicos importantes que ainda aparecem pouco na cobertura da mídia. Um deles é o conceito “Indetectável = Intransmissível” (I=I), que demonstra que pessoas em tratamento antirretroviral com carga viral indetectável não transmitem o vírus por via sexual.

Além disso, o documento reforça a importância de tratar o HIV como tema de saúde pública e cidadania, evitando enquadramentos que reforcem medo ou exclusão social.

Dados recentes mostram que o tema continua relevante no país. Segundo o Boletim Epidemiológico HIV e aids 2025, o Brasil registrou 39.216 novos casos de HIV e 36.955 casos de aids em 2024, além de 9.157 mortes relacionadas à síndrome. Desde o início da série histórica, em 1980, o país já contabiliza mais de 1,6 milhão de pessoas vivendo com HIV ou aids.

Os números também revelam desigualdades sociais. Pessoas negras representam 59,7% dos novos casos registrados no país, enquanto entre as mulheres 62,5% dos diagnósticos ocorreram entre mulheres negras.

No Rio Grande do Norte, o cenário segue a tendência nacional. Dados da Secretaria de Estado da Saúde Pública (Sesap) indicam que o estado registrou 1.126 novos casos de HIV em 2024, além de 464 casos de aids e 144 mortes relacionadas à doença no mesmo período.

Atualmente, mais de 13,6 mil pessoas realizam tratamento para HIV no estado, acompanhadas por serviços especializados distribuídos em diferentes municípios potiguares.

Apesar do aumento nas notificações , indicadores de mortalidade apresentam queda ao longo dos últimos anos. Entre 2013 e 2023, a taxa de mortalidade por aids no Rio Grande do Norte caiu 18,2%.

Para os autores do manual, enfrentar o HIV hoje não é apenas uma questão médica, mas também social e comunicacional. A forma como o tema é retratado na mídia pode contribuir tanto para ampliar o acesso à informação e ao tratamento quanto para perpetuar estigmas históricos.

O objetivo da publicação é incentivar um jornalismo que informe com precisão, respeite a dignidade das pessoas que vivem com HIV e ajude a transformar a maneira como o assunto é debatido na sociedade. Confira o manual na íntegra aqui.

SAIBA MAIS:
Natal amplia acesso a medicamento que ajuda a prevenir o HIV
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Fonte: saibamais.jor.br

Gil Araújo

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