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Ausência de incentivos fiscais no Centro Histórico de Natal volta ao debate

Ausência de incentivos fiscais no Centro Histórico de Natal volta ao debate

Foi uma publicação da página Museu da Demolição que voltou a escancarar um impasse antigo em Natal: enquanto outras capitais do Nordeste usam incentivos fiscais para repovoar e reativar seus centros históricos, a capital potiguar ainda assiste ao esvaziamento da Ribeira e da Cidade Alta sem consolidar uma política contínua para enfrentar o problema. Ao puxar esse debate nas redes, o perfil recoloca no centro da discussão a conta que moradores, empreendedores e o patrimônio da cidade seguem pagando pela falta de implementação.

Os chamados benefícios fiscais são instrumentos clássicos de política urbana. Incluem medidas como redução ou isenção de tributos municipais, a exemplo do IPTU e do ISS, além de taxas urbanas. Na prática, funcionam como mecanismos de indução: ao diminuir custos, o poder público busca tornar determinadas áreas mais atrativas para moradores, empreendedores e investidores. É isso que a página denuncia nas redes sociais, confira:

Em Recife, esse tipo de estratégia integra um conjunto mais amplo de políticas voltadas à requalificação do centro. Ao longo dos anos, a capital pernambucana adotou incentivos fiscais, ajustes de alíquotas e programas específicos para estimular a instalação de empresas e a recuperação de imóveis. Esse ambiente contribuiu para a consolidação de iniciativas como o Porto Digital, frequentemente citado como exemplo de dinamização econômica associada ao território histórico, ainda que resultado de múltiplos fatores, como políticas de inovação, articulação institucional e presença de universidades.

Mais recentemente, a prefeitura recifense lançou programas voltados à reocupação habitacional da área central, com previsão de incentivos fiscais para imóveis requalificados, cujos detalhes variam conforme critérios técnicos e enquadramento legal.

Em João Pessoa, a política segue linha semelhante. A capital paraibana possui legislação que prevê incentivos para ocupação do centro histórico e, nos últimos anos, vem discutindo a ampliação desses mecanismos, com foco em atrair tanto moradia quanto atividades institucionais e comerciais. A diretriz é aumentar o fluxo cotidiano de pessoas, o que tende a fortalecer o comércio local e estimular a preservação do patrimônio.

Em Natal, por outro lado, experiências nesse sentido não tiveram continuidade. Em 2007, o município instituiu a Lei Complementar nº 079, conhecida como Operação Urbana Ribeira, que previa incentivos como isenções tributárias vinculadas à recuperação de imóveis. A medida, no entanto, não se consolidou como política permanente e acabou não sendo sucedida por novos instrumentos de alcance semelhante, o que limita, hoje, o uso de incentivos fiscais como estratégia estruturada de reocupação.

Na prática, empresários e moradores relatam dificuldades para se manter na região central, apontando a carga tributária como um dos entraves. A percepção recorrente é de que os custos não dialogam com a realidade de um território que enfrenta esvaziamento e carência de investimentos públicos contínuos.

Para a arquiteta e coordenadora do projeto Museu da Demolição de Natal, Wire Lima, o problema não está na ausência de debate técnico, mas na falta de implementação. “Conseguir adotar esses incentivos é claramente uma questão de falta de interesse do poder público, né? Essas discussões já acontecem desde os anos 90 e sempre acontece algum projeto de lei, esse projeto de lei não é efetivado”, afirma em entrevista à Agência Saiba Mais.

Segundo ela, há também um atraso histórico no reconhecimento e na valorização do patrimônio local. “Para você ter ideia, o centro histórico de Natal só foi tombado pelo IPHAN em 2010, enquanto, por exemplo, o centro histórico de Recife foi tombado em 1998”, diz.

Wire Lima destaca que propostas para incentivo e requalificação urbana foram apresentadas ao longo das últimas décadas, mas esbarraram na descontinuidade administrativa e na falta de articulação política. “Existiram várias propostas para que essas leis fossem efetivadas desde os anos 90, mas o que não existe é vontade da Câmara, principalmente, dos vereadores, que deveriam determinar esses incentivos”, afirma.

Ela também chama atenção para a necessidade de ampliar o entendimento público sobre o tema. “Eu acho que precisa que o público entenda que benefício fiscal não é uma besteira, que não é uma coisa do outro mundo, que é uma coisa do dia a dia, que beneficiaria muitas pessoas”, explica.

Na avaliação da arquiteta, o impacto da carga tributária é direto sobre a permanência de atividades econômicas no centro. “Você pagar 7, 8 mil para um galpão pequeno na Ribeira, isso é muito caro, isso é um absurdo, isso mata o empresário, sabe? Isso faz a pessoa sair de lá”, relata.

O debate sobre prioridades de investimento público também aparece como pano de fundo das críticas. “Enquanto a gente está aqui com o centro histórico caindo aos pedaços, com a gente tentando, lutando para sobreviver aqui no centro histórico, o prefeito decide fazer uma engorda milionária em Ponta Negra”, afirma.

Diante da ausência de políticas estruturadas, iniciativas independentes têm buscado preservar a memória urbana e estimular o debate público. É o caso do Museu da Demolição de Natal, projeto que documenta imóveis em risco de desaparecimento e propõe reflexão sobre o futuro da cidade.

“Percebemos que muitas casas antigas, especialmente no eixo entre Petrópolis e Cidade Alta, estavam à venda ou simplesmente sendo demolidas para dar lugar a prédios residenciais e comerciais. Queríamos registrar essa versão de Natal que está deixando de existir”, explica.

Para a arquiteta, o abandono de áreas históricas pode estar associado a dinâmicas de valorização imobiliária de longo prazo. “É um planejamento mesmo de deixar tudo cair aos pedaços, porque é mais fácil, quando está tudo destruído, é mais fácil ir lá e falar: agora vamos construir o que a gente quer”, afirma.

Apesar do cenário, especialistas apontam que há instrumentos urbanísticos disponíveis que poderiam ser acionados pelo poder público, incluindo incentivos fiscais, mecanismos de uso de imóveis ociosos e políticas de requalificação integrada. “Todas as ferramentas existem para você melhorar o Centro Histórico. O que falta é interesse do poder público mesmo”, resume.

A Prefeitura de Natal apresentou, em 2025, um plano de requalificação do Centro Histórico no âmbito do Conplam, com base no Plano Diretor (Lei nº 208/2022). A proposta inclui ações como o projeto Becos e Travessas, intervenções no Cais e na Avenida Tavares de Lira, além do restauro do antigo Hotel Central e criação de um Living Lab. O plano também prevê instrumentos como incentivos fiscais e transferência de potencial construtivo, ainda em fase de implementação. A Prefeitura foi procurada para informar se há projetos em andamento ou em estudo voltados à concessão de incentivos fiscais para o centro histórico, mas não respondeu até o fechamento desta reportagem.

Sem uma política consistente de reocupação, o centro histórico de Natal segue enfrentando o desafio de equilibrar preservação, uso urbano e dinamização econômica, em meio a um debate que, embora antigo, ainda busca sair do campo das propostas para a efetivação prática.

SAIBA MAIS:
Museu da Demolição: a resistência contra o apagamento da memória urbana de Natal
Projeto recupera memória dos cinemas de rua do interior do RN



Fonte: saibamais.jor.br

Gil Araújo

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