Exposição investiga corpo, deslocamento e memória em Natal
A exposição individual “Tudo respira aqui”, do artista potiguar Diego Dionisio, segue aberta para visitação após a abertura realizada no último dia 2 de abril, na Galeria Margem Hub. A mostra reúne trabalhos que articulam corpo, território e memória a partir de processos que atravessam diferentes paisagens do Rio Grande do Norte e da Paraíba.
Partindo de uma pesquisa que se constrói no deslocamento, o artista desenvolve obras a partir de ações como caminhar, coletar, repetir e registrar. Esses gestos, segundo ele, não se separam, mas constituem um mesmo campo de experimentação entre presença, arquivo e envolvimento com outras formas de vida.
“O meu processo se dá muito pelo percurso vivente, pelas experiências que eu tenho nos lugares”, afirma em entrevista à Agência Saiba Mais. Ele explica que suas criações emergem de vivências em feiras populares, quintais, terreiros e áreas periféricas de Natal, especialmente na Zona Oeste, onde cresceu.
A exposição propõe uma leitura multiespécie do mundo, tensionando a centralidade humana. Em vez de hierarquias, o artista busca relações de coexistência. “Eu utilizo terra, frutas, plantas. Da terra eu fabrico tintas, também faço tintas vegetais com urucum, couve, açafrão. São materialidades que vêm de outras espécies para falar delas mesmas”, diz.
Esse pensamento aparece também na ideia de “florestas do cotidiano”, conceito que atravessa a mostra. Para ele, esses espaços não se limitam a áreas preservadas, mas incluem territórios urbanos muitas vezes invisibilizados. “São florestas das beiras da linha de trem, das praças improvisadas, dos quintais, das plantas em baldes. Lugares onde a comunidade constrói possibilidades de vida, mesmo em contextos de ausência de infraestrutura”, explica.
A crítica ao capitalismo e à colonialidade aparece como um eixo importante da exposição, atravessando tanto a dimensão poética quanto a biográfica. O artista relaciona essa discussão à história de sua própria família, originária da região do Agreste.
“Percebi gradativamente um processo de devastação, seja pela monocultura ou pela expulsão de comunidades. Meus bisavós foram expulsos de um lugar chamado Riachão, com violência mesmo. Chegavam armados, atirando, até que eles saíssem. Hoje, quando eu penso nesse território, penso também nas ruínas que ficaram”, relata.
Essa memória de deslocamento forçado e transformação do território se desdobra nos trabalhos expostos, que operam como registros sensíveis de experiências individuais e coletivas. Ao mesmo tempo, a mostra incorpora práticas compartilhadas, como performances e proposições participativas.
Entre elas está o trabalho “Traço, Traço, Colheita”, em que o artista cria uma cartografia performática a partir de sons e movimentos do corpo. “É uma ação que começa comigo, mas que também se abre para o outro. Existe esse desejo de compartilhar o processo”, afirma.
Outro aspecto marcante da exposição é o uso de plantas alimentares não convencionais (PANCs), que aparecem como matéria e memória em obras que articulam cultivo, alimentação e conhecimento tradicional.
A exposição conta ainda com acessibilidade dialógica e ações de arte-educação conduzidas pelo próprio artista. A curadoria e expografia são assinadas por Sanzia Pinheiro.
Realizado com recursos do Edital de Fomento das Artes Visuais 09/2024 da Política Nacional Aldir Blanc no Rio Grande do Norte, o projeto tem produção da Margem Hub e apoio de instituições públicas de cultura.
Mais do que uma exposição, “Tudo respira aqui” se apresenta como um convite à escuta e à percepção ampliada dos territórios. “São dimensões de vida e de compartilhamento das experiências nesses espaços”, resume o artista.
Exposição: Tudo respira aqui
Local: Galeria Margem Hub
Visitação: de terça a sábado, das 10h às 19h
Entrada gratuita
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Fonte: saibamais.jor.br





