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Na guerra de narrativas, a verdade sempre morre!

Na guerra de narrativas, a verdade sempre morre!

A célebre frase “Na guerra, a primeira vítima é a verdade” é atribuída a políticos do século 19 e início do 20, como Hiram Johnson e Philip Snowden, mas tudo indica que é do dramaturgo grego Ésquilo, que viveu na Grécia Antiga, mais exatamente entre 525 e 456 a. C. Ou seja, desde antes de Cristo na filosófica (embora bélica) civilização helênica, havia a percepção que em períodos de conflito as versões sobre derrota e vitória, conquista e perda são bem tênues, quando não manipuladas. Isso em uma era onde as batalhas eram travadas com lanças, escudos e arco e flecha.

Em tempos de internet, mundo digital e redes sociais, a situação obviamente piorou neste quesito. Se na primeira e segunda guerras mundiais já lemos sobre espiões, contra-informações, mensagens falsas e/ou cifradas, nos tempos atuais a tecnologia digital e ferramentas como a IA simplesmente podem construir ou desfazer narrativas específicas, como combates, bombardeios, mísseis e mortes.

Nesta quarta-feira 8 de abril lemos sobre o cessar fogo na Guerra do Irã (ou melhor dizendo Guerra NO Irã) que teria sido acordado entre iranianos e EUA com mediação do Paquistão. Um dia depois do ditador estadunidense Donald Trump afirmar que “uma civilização inteira morrerá esta noite para nunca mais ser ressuscitada”, numa ameaça ao imenso país persa de 90 milhões de habitantes que configuraria um claríssimo crime de guerra e/ou genocídio.

Trump não cumpriu a ameaça, mas cantou vitória. Argumentou que o Irã cedeu aos seus pontos, que o regime teocrático havia chegado ao fim e que o estreito de Ormuz (por onde passa boa parte do petróleo consumido no mundo) havia sido aberto para todos. Já o irã lançou nota onde celebra a vitória sobre “o imperialismo americano” e que o regime segue forte, além de lembrar que o estreito de Ormuz só foi fechado durante os ataques americanos, pois antes era aberto.

Ou seja, cada lado diz que venceu. Trump comemora ter aberto uma passagem de navios que já estava aberta antes dele atacar um país que não agrediu os EUA. Ambos os lados divulgam notas, fotos e vídeos garantindo os danos que causaram ao outro lado. Em meio a isso tudo, um piloto americano que ninguém sabe ao certo se foi realmente resgatado em território iraniano, um programa nuclear que ninguém tem certeza que existe e um poderio bélico que pode estar sendo manipulado para mais pelos dois lados.

Mas não pretendo aqui fazer uma falsa simetria. Se o governo teocrático iraniano é repressivo e ditatorial, Trump parece estar querendo fazer o mesmo nos EUA com fanatismo religioso cristão e violência contra imigrantes e minorias, além de ser um mentiroso patológico. Uma pessoa na qual, como se diz no interior, a palavra não vale um risco na água. O que diz em um momento, pode contradizer meia hora depois. Tornou-se não-confiável mesmo para aliados históricos como Reino Unido, Alemanha, França e Japão.

Voltando ao tema do artigo: como saber hoje o que é verdade ou mentira vindo dos lados diversos do conflito? Simplesmente não temos como. Toda imagem ou vídeo pode ser manipulada ou uma criação de IA. por um lado o Irã não tem um líder ou um porta-voz autorizado que dê informações oficiais precisas, por outro lado Trump e seu entorno desde que assumiram não se importam com a verdade e sim com a narrativa. Palavra que vem sendo criticada por muita gente, mas cujo conceito é a tônica da comunicação, inclusive de guerra, deste momento histórico.

Na narrativa atual, EUA e Irã ganharam a guerra e impuseram-se no acordo, segundo cada lado. Enquanto isso, Israel bombardeou o Líbano de forma intensa nesta terça-feira, o que vai contra o suposto acordo. Temos portanto uma terceira narrativa, de um país que hoje pratica um genocídio contra o povo palestivo justamente com a narrativa de que está se defendendo do grupo Hamas. Ainda nesta noite a guerra pode ser retomada.

Nestes dias seguintes, até o fim de semana, pode mudar tudo e cada lado ter sua narrativa nova ou refeita para o acordo ou circunstância violenta de ocasião. Se na guerra a verdade é sempre a primeira vítima, entre crianças, mulheres, civis – neste caso do Irã, que os EUA não sofrem agressão em seu território, pelo menos não de outro país – sempre são estes que morrem. Que Deus e Alá tenham pena deles, pois seus líderes não têm.

Fonte: saibamais.jor.br

Cefas Carvalho

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