Para além das tantas virtudes que nos cabem, o Brasil é, disparado, “o país do suingue é o país da contradição”, como canta o pernambucano Lenine, fazendo coro ao carioca Sebastião Maia, que sentenciou que “este país não pode dar certo”.
Para o síndico Tim, “aqui prostituta se apaixona, cafetão tem ciúme, traficante se vicia e pobre é de direita”. O paulista Celso Viáfora e o baiano Vicente Barreto foram além e definiram a Cara do Brasil.
Somos um país gordo na contradição, “que tem talher de prata” e “que só come com a mão”, de homens que morrem de sede para que outros enriqueçam da seca do sertão, de caboclos “sem dinheiro procurando um doutor nalgum lugar” e do professor Darcy Ribeiro (fundador da UnB e vice-governador de Brizola, no Rio), “que fugiu do hospital pra se tratar”.
Celso e Vicente concluem que “a gente é tudo igual Garrincha e Aleijadinho, ninguém precisa consertar. Se não der certo, a gente se virar sozinho, decerto então nunca vai dar”…
Aí o cearense Fagner e o piauiense Clodo arrematam a conversa e encerram o assunto com um sonoro verso que nos enche de esperança: “tudo o que faltar a gente inventa”, porque é assim que a gente faz e a coisa acontece. Que o diga essa festa de criatividade explícita com que o brasileiro constrói seu carnaval.
Uma festa que encanta e surpreende, o carnaval se manifesta naquele instante de ilusão que dura alguns dias, mas exige um ano inteiro de trabalho duro. Uma tarefa que movimenta milhões e mobiliza milhares de homens e mulheres em suas dezenas de funções.
Explosão de talento e jeitinho brasileiro transformado em alegria, o carnaval do Brasil são vários, múltiplos, distintos e assemelhados, cheio de energia e espírito coletivo.
Os preparativos para uma das manifestações mais democráticas de nossa cultura começam assim que o carnaval acaba e só terminam um ano depois, quando a quarta-feira se veste de cinzas para lembrar do carnaval que passou.
A rua, espaço público tão privatizado e maltratado nos últimos tempos, se enche de gente e os mais escondidos dos sentimentos se afloram, tornando sóbrios senhores e recatadas senhoras em prova viva de que o som dos clarins de Momo desperta o desejo da carne expressa em música, letra e dança, cores, gestos e vestes, brilhos, missangas e tangas, risos, beijos e libidos incendiados.
Um país que lhe fazem de desacreditado e taxado de tudo, o ano inteiro, se entrega ao suingue perfeito maior das “alas dos barões famintos e dos napoleões retintos”, decantadas por Chico Buarque e Francis Hime. que transformam a avenida num antídoto ao sanatório geral que se instalou nessa República.
Carnaval é oportunidade de se ver a contradição explícita, transparente, escancarada, amostrada pra todo mundo ver e expor as mazelas que atrasam o nosso país e apresentar os responsáveis por essas tragédias.
Findo o carnaval, a contradição se camufla de novo, se esconde, se protege e passa mais um ano agindo na surdina, adubando a injustiça e semeando o mal querer… até que tudo seja carnaval outra vez.
Que bom seria que os bons espíritos das festas e da catarses coletivas não nos abandonem mais, quando a orquestra entoar seus acordes finais.
Sejamos o país do carnaval o ano todo, sem dar explicações pra ninguém.
Precisamos fazer valer toda a criatividade, inventividade e coragem que é nossa marca.
Que não nos falte ousadia, resiliência e fé na festa e que os santos que protegem o precário equilíbrio da passista e aliviam as dores dos tocadores de tuba e de surdo bola, nos abençoem e nos guardem.
E sagrados sejam os trabalhadores do Carnaval!!!…
Que Deus lhes garanta um bom lugar nos bailes do céu… Que assim seja.
Fonte: saibamais.jor.br