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O “verdaval” do Seridó

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Para quem transita nas estradas do Seridó, a angústia de ver a caatinga despida de cor, em sua secura selvagemente bruta e embranquecida e pálida, é de cortar o coração.

Mas também a alegria de a ver rea(s)cender em cores vibrantes e em vida pulsante assim que as primeiras chuvas chegam é uma apoteose.

Coisa muito carnavalesca: uma maquiagem nova todo dia, onde quer que nossos olhos mirem. Uma pulsão de alegria em cada banho de chuva, um frenesi de movimentos, um alvoroço de penas, galhos e folhas, um brotar de flores multicoloridas e multiformes, uma folia sem precedentes. Uma alegoria harmônica contada num enredo cíclico de vida-morte-vida.

O “verdaval” nas avenidas que cortam o Seridó enchem os foliões de mais alegria. Alegria de Momo, de reinado farto, de um mundo que se apresenta esperançoso, de verão quente/chuvoso: sem problemas, sem angústias, sem cansaço, sem hora pra ser feliz. Sem pecados! Na expectativa do novo dia de júbilo e pulsão vital.

O olhar do seridoense brilha com tudo isso. Brilha suas fantasias com plumas, paetês e purpurinas (personagens, monstros e bichos que ofuscam na avenida); rendas, flores, desenhos únicos da pelagem do maracajá… como enchem os nossos olhos as alegorias em festa.

Nós, foliões, seguimos atrás das trivelas, dos trios, dos frevos, das marchinhas… seguimos os ritmos, a música do mundo, fantasiados/as/es do “verdaval” do Seridó. Reproduzimos suas plumas, paetês e purpurinas (personagens, monstros e bichos que brilham na caatinga a(s)cesa); rendas, flores, desenhos únicos da pelagem do maracajá. Padrões únicos que a natureza em desfile nos apresenta como modelos para nos esbaldarmos nos dias de reinado de Momo.

Enchemos a cara, como o solo seco, a jurema seca, o açude seco, o rio seco, os bichos sedentos sorvem as primeiras águas das chuvas. Embriaguez sem culpas. Há muita vida pra ser celebrada nessa suspensão temporal e existencial que é o Carnaval, que é o “verdaval do Seridó.

Embriaguemo-nos, pois!

Festejamos a vida florescida, aflorada do Seridó com sorrisos, danças e movimentos; com corpos, sexo e desejos; com (re)encontros, desencontros e amizades; com churrasco, caldos e filhós com mel; com cachaça, cerveja e negrones; com chuva, piscina e banho de mangueira; com olhares, abraços e beijos; com suor, saliva e sêmen…

Que festejemos o “verdaval” do Seridó em festa. Porque quando a chuva cai sobre a caatinga, é hora de perder a cabeça e como diria Caetano Veloso:

“E vamos embolar ladeira abaixo/

Acho que a chuva ajuda a gente a se ver/

Venha, veja, deixa, beija, seja/

O que Deus quiser/

A gente se embala, se embora, se embola/

Só para na porta da igreja/

A gente se olha, se beija, se molha/

De chuva suor e cerveja”

Fonte: saibamais.jor.br

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