“Imprevistos bons também acontecem”. Clarice Lispector fez essa afirmação em uma carta dirigida à amiga Olga Borelli, em 11 de dezembro de 1970, data de seu aniversário. Na ocasião, a escritora celebrava o início da tessitura de uma amizade que se desdobraria em uma leal parceria ao longo da vida de ambas. Olga foi escritora, produtora cultural e a confidente mais próxima de Clarice nos últimos anos de sua vida, vindo a falecer em 2002. Rendemos a Olga gratidão por sua presença constante junto à amiga durante a escrita de Água Viva e A Hora da Estrela, bem como por sua atuação decisiva na publicação póstuma de Um Sopro de Vida, lançado em 1978.
Pois bem. Na carta a Olga, disse Clarice:
“Eu achei, sim, uma nova amiga. Mas você sai perdendo. Sou uma pessoa insegura, indecisa, sem rumo na vida, sem leme para me guiar: na verdade não sei o que fazer comigo. Sou uma pessoa muito medrosa. Tenho problemas reais gravíssimos que depois lhe contarei. E outros problemas, esses de personalidade. Você me quer como amiga mesmo assim? Se quer, não me diga que não lhe avisei. Não tenho qualidades, só tenho fragilidades. Mas às vezes tenho esperança. A passagem da vida para a morte me assusta: é igual como passar do ódio, que tem um objetivo e é limitado, para o amor que é ilimitado. Quando eu morrer (modo de dizer) espero que você esteja perto. Você me pareceu uma pessoa de enorme sensibilidade, mas forte.”
Em que pese sua capacidade de inventar uma forma tão original de construir uma metáfora sobre a morte, um dos pontos altos dessa carta ocorre quando ela menciona:
“Acontece que eu achava que nada mais tinha jeito. Então vi um anúncio de uma água de colônia da Coty, chamada Imprevisto. O perfume é barato. Mas me serviu para me lembrar que o inesperado bom também acontece. E sempre que estou desanimada, ponho em mim o Imprevisto. Me dá sorte. Você, por exemplo, não era prevista. E eu imprevistamente aceitei a tarde de autógrafos.”
Essa carta de Clarice para Olga, inaugurando uma amizade, toca de modo muito delicado a minha alma. E, sob essa inspiração de que “o inesperado bom também acontece”, também iniciei uma nova amizade.
Eu e o cantor Renato Braz somos amigos desde o final dos anos noventa. Foi por meio desse vínculo que conheci o talento de Breno Ruiz, virtuoso pianista e compositor, por ocasião do lançamento de Mar Aberto (2016), trabalho que reuniu também Mário Gil e Roberto Leão, cantor e músico português falecido em 2022, aos 37 anos, vítima de um infarto.
Em 2 de maio de 2025, estando eu sob o “céu de Brasília, traço do arquiteto”, fui informada de que se apresentariam, no Clube do Choro, Fred Martins, Guilherme Neves, Renato Braz e Breno Ruiz. Fiquei incrédula. As vestes da minha alma foram trocadas. Inspirada em Clarice, logo pensei: imprevistos bons também acontecem. Consegui ir e, para total surpresa de Renato Braz, encontramo-nos no cerrado, de onde ele partiria poucas horas depois rumo ao Japão. Chico César também estava na plateia e generosamente trocou afeto com o público.
Fred Martins, a quem aprecio desde 1998, é um irretocável letrista do Rio de Janeiro, atualmente radicado em Lisboa, autor de obras como “Depressa a vida passa”, além de “Flores”, imortalizada por Zélia Duncan no disco Sortimento, aquela que fala da dinâmica botânica das cores. Fred também já foi gravado por Ney Matogrosso em Olhos de Farol e em trabalho com Pedro Luiz e a Parede.
Contudo, ouvir “Por um fio” na voz do próprio Fred Martins foi profundamente tocante, pois nos põe em contato com as impermanências e incertezas que constituem o viver. Afirma Martins: “para ser mais preciso pouca coisa preciso, uma noite de sono, pés no chão quando piso(…) quando tudo é sertão tudo então pode estar por um fio em qualquer lugar pode estar no fim, tudo que ficar vai cantar por mim”. Naquele período, parte da humanidade padecia de uma aflição errante diante da situação das pessoas em Gaza, o que tornou a interpretação ainda mais pungente.
De Guilherme Neves, até então, eu nada conhecia; depois, me transportei em sua poesia em “zazie no metrô de São Paulo”, em samba tímido, com participações luxuosas de Toninho Ferragutti e João Camarero. A obra nos convida a investir no que nos faz viver. É uma crônica passeio em São Paulo.
Nessa travessia musical, eu já sabia, havia uma década, o quanto Breno Ruiz se revelava exímio músico e compositor, tanto pela profícua parceria com Paulo César Pinheiro quanto pelas interpretações eternizadas por Renato Braz e Mônica Salmaso. Milagres e Caipira, respectivamente, atestam a lindeza de seu cancioneiro.
Milagres desperta em mim a memória de uma menina inquieta, atravessada por perguntas, de sentidos atentos e movida por um desejo permanente de compreender o mundo, a vida e os seus mistérios. Com esse espírito, vale a transcrição:
“Onde será que tem o céu do céu? De onde será que nasce o mar e o sal que vem do mar? Como é que se formou o carrossel? De tudo que é galáxia em pleno ar? Como será que é a cor da cor? Como será que a lua mexe as águas da maré? Como é que um bosque nasce de uma flor? E a gente vem de dentro da mulher? Onde o milagre se esconde? Em que mundo e atrás de que cortina? De onde vem essa luz que me ilumina?”.
Nascido em Sorocaba (SP), Breno Ruiz completou 43 anos no último 4 de fevereiro. Pianista, compositor, arranjador e cantor, construiu uma trajetória marcada por parcerias relevantes na música brasileira. Dentre elas, destaco Samba do Jazz, em parceria com Dani Black, que deliciosamente nos envolve e diz muito de ambos, pois “quem tem no sangue o samba, o jazz, o som têm na mistura encantamento bom”.
Em 2016, apresentou Mar Aberto, ao lado de Renato Braz, Roberto Leão e Mário Gil, com participação especial de Dori Caymmi, e também Cantilenas Brasileiras, fruto da parceria com Paulo César Pinheiro. O trabalho contou com participações especiais de Mônica Salmaso, em Choro Bordado, e de Renato Braz, em Modinha Triste. Marinheiro do Mar – Porto de Araújo nº 2 abre o disco como uma crônica de partida: “Cuida de mãe. Ó. Mana que eu vou. De. Longe. Ajudar”.
Em 2019, surgiu Diferente, realizado com o compositor e violonista Miguel Rabello. No ano seguinte, ao lado de Roberto Leão, veio Alegria. Mais recentemente, em 2024, apresentou Pequenas Impressões sobre o Caos, com participação marcante do violonista João Camarero e, no mesmo período, lançou Milagres, ao lado da cantora Alice Passos, reunindo treze composições criadas com Paulo César Pinheiro. Em Acalanto pra quem tem filha, conta com a estupenda presença de Edu Lobo.
Convém ressaltar que Disparada, de Geraldo Vandré e Theo de Barros, ganhou uma interpretação ao piano por Breno Ruiz com a sonoridade e a densidade que a música merece. Em 2025, fomos brindados com nosso amor e o tempo, em parceria com Guilherme Neves, cuja poética afirma que dona da minha saudade você é prova que o mundo é um raro caos ordenado.
Para registrar aquele encontro no Clube do Choro, adquiri mais um exemplar de Canto Guerreiro (2018), de Renato Braz, que na faixa Cálice reúne participações especiais de Chico Buarque, Milton Nascimento, Mário Gil, Roberto Leão e do próprio Breno. Ao lado de Cálice, recebi o oferecimento que selou o início de nossa amizade; desde então, seguimos juntos. Disse Breno:
“Querida Ana, prazer conhecer você! Que a poesia nunca lhe falte, que a música seja sempre tanta. Beijos de novo amigo. Breno Ruiz”.
Eu, que assim sou como Clarice, inundada de fragilidades, mas às vezes cheia de esperança, reconheço em Breno uma “pessoa de enorme sensibilidade, mas forte”; sua voz atesta isso. Nasceu, assim, uma amizade também selada pelo autógrafo, como se deu entre Clarice e Olga.
Em homenagem a esse extraordinário artista, organizei uma playlist, na plataforma spotify, como um brinde à amizade e como uma experiência musical no universo de Breno Ruiz, para aqueles e aquelas que desejarem percorrer, em escuta sensível, os caminhos de sua arte. Ela também simboliza meu desejo de vida longa para Breno, para que siga firme polinizando o mundo com sua criação e com sua forma de amar.
Ter conhecido Breno Ruiz pelas mãos de afeto de Renato Braz reafirma, para mim, que o “inesperado bom também acontece.”

Fonte: saibamais.jor.br
