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Por uma escola capaz de falar de gênero sem medo

Por uma escola capaz de falar de gênero sem medo

Sou professora, como muitos sabem, e atuo com adolescentes na Rede Básica de Ensino. Essa semana, devido à aproximação do dia Internacional das Mulheres, entrei em várias salas de aula com um discurso histórico sobre o nascimento (trágico) desse dia e as muitas conquistas que o movimento feminista conquistou em benefício das mulheres.

Preenchi meu dia com vozes femininas, vozes de tantas mulheres cis ou Trans/Travestis que, ao longo da história, foram caladas ou relegadas ao fundo da cena, quando não foram assassinadas. Contei histórias de empoderamento feminino, inclusive a minha, afinal, sou uma Travesti na Educação e da Educação, como diz a maravilhosa Sara Wagner York, pedagoga, entre muitas outras coisas e, também, uma Travesti na Educação e da Educação.

Voltando para a sala dos professores no primeiro intervalo do dia, compartilhei, preocupada, a reação dos meninos adolescentes enquanto eu falava coisas do tipo: “mulheres não são objetos”, “mulheres têm as mesmas liberdades que homens”, “mulheresnão precisam mais serem sustentadas por homens”.

Quando comecei a falar nesse tom, sobre o respeito e a autonomia das mulheres a atmosfera mudou. De repente, o rumor dos meninos tomou conta do espaço, ora com risos abafados, ora com olhares de desdém, ora com argumentos e perguntas que pareciam ter saído de outro lugar, como se eles estivem apenas reproduzindo um discurso alheio. (Vindo de onde? – questionei!) Alguns cruzaram os braços, outros lançaram olhares vazios para o teto, outros trocaram olhares e risadinhas de canto de boca, como se aquelas frases fossem apenas ruído, coisa de outro mundo, balela, mimimi, sem valor de significado real para eles.

A cada questão nova, a resistência crescia, feita de indiferença e pequenas ironias lançadas ao vento. Confesso que, em determinada turma, o assombro tomou conta da de mim: como era possível tanto distanciamento? Senti o peso do silêncio ensurdecedor,  imensamente ensurdecedor, e percebi o abismo entre a intenção de diálogo e a fortaleza de resistência erguida ali, escancarada na minha frente.

E esse silêncio vinha também das meninas. Pareciam amedrontadas, apesar das carinhas de satisfação e os “uhus” que eu ouvia saindo de suas expresões. Mas não se manifestavam verbalmente, não se defendiam diante da postura esnobe dos meninos. Precisei intervir, cutucar, perguntar, confrontar, meninos e meninas… há uma barreira enorme a ser quebrada quando o assunto é gênero dentro das escolas.

Pois, se as meninas estão se espelhando em outras mulheres que fizeram carreira; que se tronaram profissionais incríveis em suas áreas de atuação; que se bancam; que se  apresentam independentes, donas de seus próprios narizes, os meninos, por outro lado, parecem que se ancoraram em uma postura hostil, ressentida e violenta contra as mulheres e suas conquistas. E isso não dá match!

Diante dos meus e das minhas colegas de trabalho,  expus minhas impressões e preocupações, um misto de inquietação e urgência. Inquieta por ver o quanto ainda era necessário insistir, plantar sementes em solo pedregoso; e urgência para encontrar meios de como frear e/ou reverter esse quadro tenebroso para a sociedade: Meninos violentos e indiferentes diante de meninas sonhadoras e amedrontadas.

Partilhei isso com meus pares porque acredito que a educação é uma travessia, é uma ferramenta de transformação, é uma saída possível. Mesmo que o discurso fora de seus muros seja contrário, a Escola não pode simplesmete cruzar os braços diante da misoginia, diante da violência praticada contra mulheres. Ela não pode receber e apenas aceitar o que é negativo para a sociedade e não fazer nada.

Se ela é esse espaço de transformação do qual falo, ela precisa morder, mastigar, triturar, ruminar o que está sendo oferecido do meio externo e devolver para a sociedade um adubo fértil, potencialmente rico para que ainda brote, em algum momento futuro, meninos menos ressentidos, menos violentos e capazes de ouvir falar sobre as conquistas das mulheres sem a hostilidade que mantém a misoginia e o machismo armas que deformam e dessencibilizam meninos e violentam ou matam meninas.

O silêncio precisa ser extirpado e o rumor ouvido em sala de aula deve ser de meninos e meninas que compartilham futuros promissores; respeito e liberdade de escolhas, independente do gênero que possuem, independente da identidade com que se identificam e se expressam; e que não tenham medo de ser quem são, nem de morrerem por ser quem são.

Fonte: saibamais.jor.br

Bia Crispim

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