Vic Kabulosa e a força da Zona Norte na cena cultural
Na Zona Norte de Natal, território de potência e também de barreiras históricas, Vic Kabulosa aprendeu cedo que existir já era, por si só, um gesto de enfrentamento. Antes dos palcos, dos projetos coletivos e do nome que hoje ecoa como assinatura artística, houve uma infância atravessada pela música, e também por limites.
“Tudo começou na igreja”, conta. Foi ali, entre microfones, violão e bateria, que teve o primeiro contato com a música. “Foi onde eu cresci, onde tive acesso.” Mas o mesmo espaço que abriu portas também impôs silêncios. “Era um lugar de podas. De não poder ser feminina demais, de ter que ser um menino padrão”, relembra em entrevista à Agência Saiba Mais.
A ruptura não veio de uma decisão repentina, mas de um esgotamento. “Eu saí porque não me coube mais.” Do lado de fora, o mundo se apresentou como possibilidade, e também como desafio. Vic mergulhou na dança, especialmente nas danças urbanas, e passou a estudar música com mais profundidade. Ainda adolescente, começou a cantar em uma banda baile ligada à escola onde estudava. Foi ali que algo se acendeu. “Eu entendi que era cantora porque adorava me comunicar com o público.”
Mas essa presença, que hoje é potência, já foi motivo de exclusão. “Eu sempre fui a ‘amostrada’. E isso era um problema.” Com o tempo, ela transformou o que era apontado como excesso em linguagem artística. “Depois eu entendi que isso era verdade. E comecei a condensar isso artisticamente.”
Criada entre Santarém e Parque dos Coqueiros, Vic carrega a Zona Norte como fundamento de tudo que constrói. “Eu forjei a Kabulosa na Zona Norte”, diz. Mais do que um território, o lugar se tornou discurso. “A Zona Norte é um espaço de resistência.” Para ela, não se trata apenas de origem, mas de permanência. “Morar aqui já é resistência. Porque tudo é do outro lado, esse é o imaginário que as pessoas tem.”
A universidade, os equipamentos culturais, os grandes palcos, quase tudo parece distante. Ainda assim, ela circula: “Eu ocupo esses espaços, mas sem deixar de trazer a bandeira da Zona Norte.”
Foi também a partir desse trânsito que surgiu a Kabulosa. Antes, ainda era Vic. O nome que viria a marcar sua identidade artística nasceu de dentro, das relações e da linguagem cotidiana. Ganhou força quando ela passou a integrar os shows do MC Preguiça, figura central em sua trajetória. “Ele foi meu pai na noite potiguar. Me abriu as portas.” Vic começou como dançarina, mas não demorou a disputar o microfone. “Eu pedia pra cantar.” Aos poucos, o público passou a responder. E, no meio das apresentações, uma palavra começou a se repetir como grito e afirmação: Kabulosa!
O reconhecimento mais amplo veio no Beco da Lama. Foi ali que sua presença ganhou corpo.
No Beco, ela encontrou o público, a escuta. Sua mistura de referências, que atravessa forró, samba, funk, MPB, soul e black music, não afastou o público, como ela temia. Ao contrário. “Eu achei que seria difícil, mas encontrei uma galera sedenta por isso.” Essa mistura também é reflexo de sua própria trajetória fragmentada e múltipla. Dança, canto, performance. Nada vem separado. “Eu juntei tudo.”
Enquanto construía seu nome nos palcos, Vic também ocupava outro espaço historicamente negados a pessoas trans: a universidade. Hoje, é estudante de licenciatura em música e do curso técnico em canto popular na Universidade Federal do Rio Grande do Norte. “É uma forma de dizer que estamos lá”, afirma. Mas o processo não é simples. “É muito difícil não enxergar outros corpos como o meu.”
Por isso, sua trajetória nunca é só individual. Ao falar de si, Vic fala sempre no plural. Um dos nomes que aparece com frequência é Ale du Black. “Se eu existo hoje, é porque ela existe.” As duas constroem juntas iniciativas que tensionam a cena cultural da cidade, como o bloco Transfolia, que leva artistas trans para o Carnaval de Natal.
“É uma forma de se fazer existir”, resume.
Também atuam em projetos como o Festival Periferia Transborda, que articula formação e visibilidade. Mais do que ocupar espaços já dados, a proposta é criar outros. “A gente quer dizer quem pode estar, como pode estar.”
Esse gesto de criação coletiva surge como resposta a uma estrutura que, segundo ela, ainda empurra pessoas trans para margens muito específicas. “A gente sabe que existem caminhos que são quase impostos.” Transformar esse cenário pela arte, diz, é mais que desejo. “É uma missão.”
Nos últimos anos, Vic ampliou ainda mais seu campo de atuação. Estreou como atriz no curta “Praia das Artistas”, interpretando uma travesti que sonha em cantar. O filme dialoga diretamente com a cidade e suas memórias. “Me possibilitou acessar vivências que eu não tinha antes.”

Agora, ela se prepara para um passo que sintetiza tudo o que veio antes. Seu primeiro álbum autoral, “Kabulosa”, está em fase final de produção. “É a concretização de um sonho”, define. Mais do que um disco, o projeto marca uma virada. “É onde eu vou ditar o meu ritmo. O que eu quero falar.”
Se há um fio que costura toda a sua trajetória, ele passa pela insistência. Em existir, em permanecer, em criar. Em transformar aquilo que foi negação em linguagem.
No fim, o sonho que ela compartilha é direto, e coletivo. “A gente precisa parar de sobreviver e começar a viver disso.” Não como exceção, mas como regra.
A cada palco, a cada projeto, a cada verso, reafirma que sua voz não pede licença. Ela ocupa.
Esta reportagem faz parte da série Traquejo, da Agência Saiba Mais. O nome remete à habilidade de “se virar”, de encontrar experiências e seguir em movimento. A proposta é contar histórias de pessoas trans e travestis potiguares que, em contextos muitas vezes adversos, constroem seus próprios caminhos, criando estratégias e formas de fazer acontecer.
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Fonte: saibamais.jor.br





