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a alga que une ciência, renda e sustentabilidade no litoral do RN

Nas águas rasas do litoral norte do Rio Grande do Norte, onde pescadores e marisqueiras dependem há gerações dos recursos do mar, uma nova atividade começa a ganhar espaço. Entre cordas, tubos de PVC e estruturas flutuantes instaladas entre os municípios de Macau e Galinhos, cresce silenciosamente uma matéria-prima capaz de abastecer indústrias de alimentos, cosméticos, agricultura e até laboratórios científicos.

Trata-se da Gracilaria, um gênero de macroalgas marinhas utilizado na produção do agar-agar, substância presente em uma infinidade de produtos do cotidiano. Mas, no Rio Grande do Norte, o cultivo da alga vem assumindo um papel que vai além da economia: tornou-se uma ferramenta de educação ambiental, geração de renda e fortalecimento comunitário.

É essa a proposta do Projeto Algimare, desenvolvido pelo Centro AMA-GOA de Cultura e Meio Ambiente em parceria com a Empresa de Pesquisa Agropecuária do Rio Grande do Norte (EMPARN) e a Petrobras, por meio do Programa Petrobras Socioambiental.

“Nosso objetivo é capacitar pessoas das comunidades para que conheçam como cultivar a alga marinha e como utilizá-la no dia a dia”, explica Valfran de Miranda Lima, coordenador técnico de campo do projeto.

A rotina dele começa muito antes da colheita. Ao lado de uma equipe de dez colaboradores, Valfran acompanha todas as etapas da produção, desde a coleta controlada de mudas em bancos naturais autorizados pelos órgãos ambientais até a montagem das balsas onde as algas são cultivadas.

“Fazemos todo o processo de montagem das estruturas, monitoramos o desenvolvimento das algas, realizamos a colheita e o replantio para iniciar um novo ciclo”, conta.

Uma alga presente em diversos produtos

Embora pouco conhecida pela maioria da população, a Gracilaria está presente em muitos itens consumidos diariamente.

Com mais de cem espécies catalogadas, a macroalga é utilizada na fabricação de alimentos, produtos farmacêuticos, cosméticos e fertilizantes. O agar-agar extraído dela funciona como gelificante, espessante e estabilizante, características que explicam sua ampla aplicação industrial.

“Ela pode ser encontrada em sorvetes, alimentos processados, gelatinas naturais e até em preparações gastronômicas como saladas e tempurás. Também está presente em cremes dentais, shampoos, hidratantes e produtos farmacêuticos”, explica Valfran.

Entre as diversas aplicações, uma das mais importantes está nos laboratórios. O agar-agar é utilizado como meio de cultura para o crescimento e estudo de microrganismos, tornando-se um insumo fundamental para pesquisas científicas e diagnósticos.

Apesar da demanda crescente, a produção brasileira ainda é pequena diante do potencial existente:

“O Brasil tem condições climáticas muito favoráveis para se tornar um produtor relevante de macroalgas marinhas, especialmente para o mercado agrícola e para a produção de biofertilizantes”, afirma.

Cultivo que respeita o mar

Uma das preocupações do projeto é demonstrar que a produção pode ocorrer sem comprometer os ecossistemas costeiros.

Atualmente, o Algimare possui áreas licenciadas de cultivo que somam quatro hectares: dois em Diogo Lopes, distrito de Macau, e outros dois em Galinhos.

Para garantir que a atividade não cause impactos ambientais, o projeto realiza monitoramento periódico dos bancos naturais de algas. A cada três meses, drones sobrevoam as áreas para acompanhar a evolução das populações naturais e avaliar possíveis alterações.

“O monitoramento é uma exigência do licenciamento ambiental. As observações mostram que as algas continuam se desenvolvendo naturalmente e até surgem em outras áreas próximas às estruturas de cultivo”, explica o coordenador.

Além da preservação ambiental, o projeto busca despertar uma nova relação das comunidades com o ambiente costeiro.

“O cultivo é uma experiência de geração de renda associada à conscientização sobre a importância de cuidar dos ecossistemas. As pessoas passam a enxergar o ambiente natural também como um patrimônio que precisa ser protegido.”

Os impactos do projeto já podem ser percebidos nas localidades participantes.

Atualmente, treze pessoas são contratadas diretamente pelo Algimare, todas residentes das próprias comunidades onde o projeto atua. A prioridade também é dada ao comércio e à mão de obra locais para aquisição de materiais e construção das estruturas de apoio.

A expectativa é que o cultivo se torne uma alternativa complementar à pesca e à mariscagem, atividades historicamente sujeitas à sazonalidade e às variações ambientais.

“O desafio agora é ampliar os mercados para os produtos derivados das algas, especialmente biofertilizantes e alimentos. Com isso, as famílias poderão aumentar sua renda e melhorar suas condições de vida”, afirma Valfran.

Nos últimos anos, o projeto passou a investir também em ações de capacitação e formação.

Foram realizados minicursos de cultivo, produção de biofertilizantes e gastronomia com algas marinhas, além de palestras voltadas para educação ambiental. As atividades apresentam novas possibilidades de uso da Gracilaria e estimulam o empreendedorismo local.

Nas oficinas gastronômicas, participantes aprenderam a incorporar as algas em receitas, descobrindo sabores e aplicações ainda pouco explorados no Brasil.

A iniciativa busca mostrar que o potencial da Gracilaria vai muito além da extração de matéria-prima industrial. Ela pode gerar oportunidades econômicas diversificadas, incentivar pequenos negócios e fortalecer a relação das comunidades com o território.

Apesar dos avanços, o setor ainda enfrenta obstáculos importantes. Segundo Valfran, a principal barreira é cultural. Diferentemente de países asiáticos, onde o cultivo de algas faz parte da tradição econômica de muitas regiões costeiras, essa prática ainda é pouco difundida no Brasil.

“No Rio Grande do Norte existe potencial para produzir muito mais, mas ainda falta uma cultura de cultivo entre as populações litorâneas”, observa.

Outro desafio está na industrialização. Embora a matéria-prima esteja disponível, faltam estruturas capazes de processar a produção em escala e agregar valor aos produtos derivados das algas.

Para ele, políticas públicas voltadas ao setor podem ser decisivas para consolidar uma nova cadeia produtiva no estado.

“Temos um grande mercado potencial para biofertilizantes utilizados em culturas como melão e melancia, que já são importantes para a economia potiguar.”

Mais do que produzir algas, o Algimare pretende deixar um legado de conhecimento e autonomia.

A expectativa é que as capacitações realizadas hoje permitam que moradores das comunidades desenvolvam seus próprios empreendimentos no futuro, ampliando as oportunidades econômicas sem abrir mão da conservação ambiental.

“As pessoas que ampliam sua visão sobre essas possibilidades conseguem criar oportunidades para si mesmas e para a coletividade”, resume Valfran.

Enquanto as balsas seguem flutuando nas águas tranquilas do litoral potiguar, carregando novas safras de Gracilaria, cresce também a expectativa de que uma atividade ainda pouco conhecida possa abrir caminhos para uma economia mais sustentável, conectando ciência, mar e desenvolvimento local.

No litoral do Rio Grande do Norte, uma simples alga mostra que inovação e preservação podem caminhar lado a lado.

SAIBA MAIS:
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Fonte: saibamais.jor.br

Gil Araújo

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