A enxurrada de comentários veio como sempre vem: disfarçada de opinião, embrulhada em moralismo barato e perfumada com hipocrisia de curral. Bastou eu repostar uma publicação da Associação TRANSERIDÓ para aparecer um vaqueiro desses de masculinidade encourada, berrando nos comentários se nós, pessoas Trans e Travestis, éramos “normais”.
Engraçado como certos homens perguntam em praça pública aquilo que já responderam no privado. Porque o mesmo sujeito que espuma ódio no Instagram é, muitas vezes, o mesmo que manda “oi, delícia” no meio da manhã. O mesmo que pergunta endereço, manda nude tremido no sigilo e pede discrição como quem está negociando segredo de Estado. No curral da macharia, posa de garanhão moralista; no escuro do WhatsApp, vira poeta do desejo proibido. E depois nós é que somos as farsantes?
Ah, me poupe!
Chamaram a gente de zumbi, múmia, “não-gente”. E eu fiquei pensando como deve ser triste uma vida tão vazia que precise transformar o ódio em passatempo. Porque ninguém que esteja em paz consigo mesmo acorda disposto a perseguir existências alheias na internet. Isso não é convicção. Isso é buraco emocional com acesso à internet.
Eu sempre digo: a gente externaliza aquilo que é. O amor, a raiva, a frustração, a inveja, tudo escapa pelos dedos, pelos comentários, pelas violências miúdas do cotidiano. E aquele homem lá, tão empenhado em nos desumanizar, talvez esteja apenas tentando fugir da própria verdade. Tenho minhas dúvidas sobre quem está “fantasiado” nessa história. Afinal, na boca dessa gente, somos farsantes.
Nós, Travestis e mulheres Trans, sentimos muita coisa antes mesmo que nos contem. A gente sabe pelo olhar torto, pela voz que muda de tom, pelo desejo mal resolvido escondido atrás da Bíblia, da fivela grande ou da foto com filtro de vaquejada. Tomando emprestado o bordão amplamente divulgado em forma de meme pelas gigantes Thabatta Pimenta e Nicole Bahls: “a gente que tem prótese sente, né, Nicole?”. E sente mesmo. Sente quando o desprezo vem carregado de atração. Sente quando o insulto é só desejo frustrado vestido de ódio.
O curioso é que tentam nos reduzir a “corpinhos para usar e descartar”, sem perceber que também aprendemos a olhar esses homens com a frieza que eles mesmos cultivaram. Porque sobreviver neste país sendo Travesti é aprender cedo que romantizar certas masculinidades pode custar a própria vida.
E ainda assim seguimos.
Seguimos montadas, trabalhadas no brilho, na coragem e na afronta. Seguimos ocupando ruas, universidades, redações, movimentos sociais e até os pesadelos dos conservadores. Não clamamos aos deuses porque, sinceramente, temos ocupado muito bem esse cargo. Somos entidades femininas, faraônicas, quase mitológicas. Sobrevivemos a espancamentos simbólicos e reais, ao abandono familiar, à fetichização e ao deboche cotidiano. Uma Travesti brasileira já acorda todo dia vencendo uma pequena guerra civil.
Então quando um cidadão qualquer aparece nos comentários perguntando se somos normais, talvez a pergunta precise voltar para ele como um espelho mal-educado:
Normal é desejar escondido aquilo que você agride em público?
Normal é transformar frustração pessoal em cruzada moral?
Normal é viver uma vida inteira encenando uma masculinidade que desmorona no primeiro “online” do WhatsApp?
Porque, veja bem, eu até aceito ser chamada de exagerada, debochada, escandalosa. Agora farsante? Logo nós?
Meu amor… farsante é quem passa o dia performando ódio e a madrugada implorando atenção de Travesti.
Fonte: saibamais.jor.br





