A drenagem improvisada feita pela Prefeitura de Natal após a obra de engorda da Praia de Ponta Negra pode estar criando um cenário de risco semelhante ao que levou ao desmoronamento da Rua Guanabara, no bairro de Mãe Luíza, na Zona Leste, em 2014. O alerta é do engenheiro civil João Abner, professor aposentado da UFRN, que aponta que as galerias estão operando de forma pressurizada — quando deveriam funcionar como condutos livres. De acordo com ele, essa condição pode provocar rompimentos, erosões e até acidentes de grandes proporções.
Para o engenheiro, não é exagero fazer um paralelo com o episódio de Mãe Luíza. Naquele caso, uma falha no sistema de drenagem abriu uma cratera e destruiu casas, deixando dezenas de famílias desabrigadas — situação que, anos depois, ainda não foi resolvida.
“O que aconteceu lá pode se repetir aqui. Quando esse tipo de processo começa, não para mais. Basta um gatilho”, afirma.
Ele explica que, antes da engorda, a água da chuva escoava naturalmente para o mar. Após o aterro hidráulico, esse caminho foi alterado. Agora, as galerias — projetadas para funcionar sem pressão — passaram a operar de forma forçada, com a água retornando pelas tubulações.
Esse tipo de situação aumenta o risco de rompimentos e de processos erosivos que podem evoluir rapidamente.
“As galerias de drenagem, que eram pra funcionar com condutos livres, estão pressurizadas. Isso provoca um risco muito grande de rompimento dessas galerias, aumentando a probabilidade de ter acidentes, como a abertura de crateras, o que precisa ser evitado emergencialmente”, alerta.
Esgoto misturado com água da chuva
O problema não se limita à drenagem. De acordo com João Abner, a pressurização também está afetando o sistema de esgoto da região.
Na prática, isso já aparece no dia a dia: mesmo com chuvas fracas, há pontos com esgoto transbordando pelas tampas dos poços de visita, especialmente na Avenida Erivan França.
“Você tem água da drenagem misturada com esgoto, escorrendo pela rua e indo para o mar. Isso é um problema sério e não pode ser tratado como algo normal”, diz.
Lagoas na areia e risco à saúde

Outro efeito visível da obra são as lagoas que se formam ao longo da faixa de areia após as chuvas. Para o engenheiro, há um forte risco de que essa água esteja contaminada.
Ele defende que a circulação de pessoas nesses trechos seja controlada até que haja um monitoramento claro da qualidade da água.
“Você tem uma lâmina d’água ao longo de vários quilômetros, com possibilidade de contaminação por esgoto. Isso é uma questão de saúde pública”, alerta.
Professor chama titular da Semurb de “amador” após ele dizer que alagamentos eram “planejados”

A explicação dada pelo secretário de Meio Ambiente e Urbanismo, Thiago Mesquita, afirmando que essas lagoas seriam “espelhos d’água” planejados, é rebatida com veemência pelo professor.
“Isso não faz sentido do ponto de vista técnico. Não existe projeto de drenagem que preveja lagoa de água poluída na praia como solução”, afirma.
Para João Abner, a declaração revela o “amadorismo” do titular da Semurb. “Ele não tem conhecimento técnico nenhum para fazer qualquer avaliação disso. É um amador, até porque não houve projeto de drenagem, apenas uma gambiarra”, dispara.
Para o professor, faltou o básico: definir para onde a água deveria ir: “O destino natural é o mar. Quando você não cria um caminho para isso, a água vai encontrar um por conta própria — e foi isso que aconteceu.”
O professor chamou de “tiro no pé” a justificativa do secretário. “Uma coisa é admitir que a lagoa seja uma solução emergencial, mas outra coisa é admitir que isso é a solução definitiva, porque todos os problemas que a gente verificou na orla da praia, desde a construção do aterro hidráulico, decorrem da formação dessas lagoas”.
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Erosão avança e preocupa

Na falta da saída adequada, a água passou a se concentrar em alguns pontos da praia. Esse acúmulo já provoca erosão intensa, formando voçorocas e ameaçando áreas sensíveis, como o entorno do Morro do Careca.
Antes da obra, o escoamento era distribuído ao longo da orla. Agora, com as saídas bloqueadas, o fluxo ficou concentrado — o que aumenta a força da água e acelera o desgaste do terreno.
Para reduzir os riscos no curto prazo, João Abner defende ações emergenciais. Entre elas, a abertura de canais ao longo da praia para permitir que a água volte a escoar até o mar e aliviar a pressão sobre o sistema.
Ele também sugere intervenções pontuais em áreas mais críticas, com estruturas provisórias que ajudem a controlar o fluxo.
Ao mesmo tempo, reforça a necessidade de um diagnóstico técnico detalhado e monitoramento contínuo das galerias, especialmente no período de chuvas.
As críticas surgem no momento em que a própria Prefeitura de Natal reconhece a necessidade de novas obras de drenagem. O secretário de Planejamento, Vagner Araújo, afirmou que intervenções devem começar nos próximos meses — apesar de a gestão já ter anunciado anteriormente que o sistema estava concluído.
Para o engenheiro, isso evidencia falhas no planejamento. Na avaliação de João Abner, o problema vai além de ajustes pontuais. A solução definitiva exige reestruturar o sistema para que volte a funcionar de forma despressurizada e com um caminho adequado até o mar.
“Não é uma obra simples. Mas o que não dá é ignorar o problema. O risco existe — e ele é sério”, conclui.
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Fonte: saibamais.jor.br





