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Natal recebe tributo à Ave Sangria

Há discos que atravessam o tempo. Não apenas porque envelhecem bem, mas porque carregam dentro de si uma época inteira. O álbum Ave Sangria, lançado em 1974, é um desses casos raros. Nascido em meio aos anos mais duros da ditadura militar, o trabalho transformou poesia, rebeldia, rock psicodélico e sonoridades nordestinas em uma obra que, mais de cinco décadas depois, continua sendo descoberta por novas gerações.

Nesta sexta-feira (12), às 20h30, o público potiguar terá a oportunidade de reencontrar esse capítulo fundamental da música brasileira. O Backstage Bar, em Natal, recebe o primeiro Tributo à Ave Sangria realizado na cidade, com a execução integral do disco de estreia da banda pernambucana e a presença de dois de seus integrantes históricos: Marco Polo Guimarães e Almir de Oliveira.

Mais do que um show, a noite promete ser um encontro entre memória e resistência cultural.

Formada no Recife do início dos anos 1970, a Ave Sangria surgiu em um período de intensa efervescência artística e repressão política. Enquanto a censura tentava enquadrar comportamentos e discursos, a banda apostava na liberdade criativa, misturando influências do rock internacional com referências da cultura nordestina em uma linguagem que escapava a classificações fáceis.

O resultado foi um dos trabalhos mais singulares da música brasileira. Embora tenha tido uma trajetória interrompida precocemente, em parte pelos efeitos da censura e das dificuldades impostas pelo regime militar, a Ave Sangria construiu uma obra que resistiu ao esquecimento. Com o passar dos anos, seu único álbum de estúdio tornou-se objeto de culto entre pesquisadores, colecionadores, músicos e admiradores do rock nacional.

Em Natal, a missão de revisitar esse repertório ficará a cargo da banda Cajarana, liderada pelo músico Manu de Olinda. A apresentação ganha contornos históricos com a participação de Marco Polo Guimarães e Almir de Oliveira, artistas que ajudaram a construir a identidade sonora da própria Ave Sangria e que estarão no palco compartilhando com o público as canções que marcaram uma geração.

A programação também abre espaço para o presente da música potiguar. O Coletivo Viramundo Potiguar fará o show de abertura, levando ao palco composições autorais marcadas por influências do manguebeat, da música popular nordestina e das experiências culturais das periferias. Em diálogo com a herança deixada pela Ave Sangria, o grupo representa uma nova geração de artistas que segue transformando a arte em ferramenta de expressão, crítica social e afirmação cultural.

A conexão não é casual. Se nos anos 1970 a Ave Sangria buscava romper fronteiras estéticas e comportamentais, hoje coletivos e artistas independentes continuam produzindo música a partir das margens, reinventando linguagens e ampliando vozes historicamente invisibilizadas.

Por isso, o encontro desta sexta-feira ultrapassa o caráter comemorativo. É uma celebração da capacidade da cultura de sobreviver ao tempo, de atravessar gerações e de seguir provocando inquietações. Entre guitarras psicodélicas, poesia e experimentação sonora, Natal receberá uma das bandas mais emblemáticas da história da música brasileira — não como uma relíquia do passado, mas como uma obra que continua dialogando com o presente.

Serviço

Tributo à Ave Sangria

Quando: sexta-feira, 12 de junho, às 20h30

Onde: Backstage Bar, Natal (RN)

Atrações: Cajarana (Manu de Olinda), Marco Polo Guimarães e Almir de Oliveira (Ave Sangria)

Abertura: Coletivo Viramundo Potiguar

Ingressos: R$ 30,00, na portaria

Fonte: saibamais.jor.br

Jana Sá

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