Antes de chegar ao Prêmio Hangar 2026 como Melhor Compositor do Ano, Moisés de Lima atravessou quase quatro décadas de música em Natal. Passou por bandas de garagem, bares, festivais estudantis, projetos culturais, casas noturnas e formações que ajudaram a dar corpo à cena roqueira da cidade. Esse percurso desemboca neste sábado, 6 de junho, às 20h, no Mestiços Bar e Espaço Cultural, em Ponta Negra, onde o músico, compositor e jornalista natalense apresenta o show autoral “Black In”. O couvert artístico custa R$ 15.
O repertório reúne músicas dos EPs “Afrika” e “Black In”, lançados com recursos da Política Nacional Aldir Blanc, em Natal, além de canções e temas instrumentais criados ao longo da trajetória do artista. O show passa pelo blues, pelo rock, por referências afro brasileiras e pela sonoridade da gaita diatônica, instrumento que se tornou uma das marcas de Moisés. No palco, ele será acompanhado por Thiago Andrade, na guitarra, Paulo Fernandes, no baixo, e Luiz Machado, na percussão.
“Black In” carrega também uma dimensão de memória. A faixa título homenageia Edgar Borges, o Blackout, poeta potiguar ligado à contracultura local, morto em 1999. A escolha revela uma linha importante do trabalho de Moisés, que aproxima música, território, ancestralidade e homenagem sem transformar a canção em peça solene. O blues aparece como linguagem, mas também como método de permanência. A gaita, o rock, a percussão e a palavra entram como formas de organizar afetos, perdas, referências e encontros.
O reconhecimento no Hangar veio acompanhado de outras indicações. O trabalho “Black In” também concorreu nas categorias Melhor Canção e Melhor EP, reforçando a presença de Moisés entre os nomes autorais da música potiguar em atividade. A premiação como Melhor Compositor do Ano confirma uma trajetória construída longe da pressa, com repertório próprio, circulação local e uma relação constante com músicos, poetas e grupos que marcaram diferentes momentos da cultura natalense.
Nascido em Natal, em 20 de outubro de 1966, Moisés iniciou sua trajetória musical no fim dos anos 1980, em bandas de garagem dedicadas ao repertório clássico do blues rock. Nesse período, participou de eventos de pequeno porte, festivais estudantis e comunitários, além de grupos que se apresentavam no bairro de Ponta Negra. Autodidata, aprendeu violão, guitarra elétrica, contrabaixo elétrico e gaita, ampliando aos poucos o próprio vocabulário musical.
Em 1992, passou a integrar, como contrabaixista, a banda Florbela Espanca, uma das referências da cena roqueira natalense daquele período, com apresentações em bares e festivais locais. Dois anos depois, entrou para a GRM Blues Band, grupo voltado à interpretação de clássicos do blues e do rock, mas também aberto à criação autoral. Ao lado de Ricardo Silva, compôs músicas como “Resurrection for the Blues” e “I Got Guitar”, incluídas no disco “Mãe Luiza in Blues”, gravado em 1995 e lançado posteriormente pelo selo Solaris, em 2002.
Em 1998, fundou o quarteto Bourbon 33, dedicado ao rock, ao blues e ao country na noite natalense. Com o grupo, apresentou se no evento Rua da Casa, na Casa da Ribeira, e no Projeto Seis e Meia, dividindo palco com a banda Cama de Gato, além de circular por diversas casas noturnas da capital. Entre 1999 e 2017, integrou a banda Os Grogs, que trabalhava com o resgate de clássicos do rock e também executava músicas autorais compostas por Moisés em parceria com artistas como o guitarrista Ricardo Silva e o poeta Graco Medeiros.
Uma dessas parcerias rendeu ao grupo o primeiro lugar no Festival MPBeco, em 2008, com a canção “Natal Canibal”, assinada por Moisés de Lima e Graco Medeiros. Como gaitista, Moisés também participou de shows e gravações de diversos artistas e grupos potiguares, consolidando uma presença discreta, mas recorrente, em diferentes frentes da produção musical local.
Atualmente, ele integra o grupo The Anthologics e desenvolve seu trabalho solo autoral, iniciado em 2023 com o lançamento do EP “Afrika”, projeto selecionado pela Seleção Pública da Lei Paulo Gustavo do Município de Natal. Em 2025, lançou o EP “Black In”, trabalho que amplia sua pesquisa musical e afirma uma assinatura própria dentro da música potiguar contemporânea.
No show deste sábado, essa história aparece condensada em repertório, timbre e presença de palco. “Black In” reúne o compositor premiado, o gaitista formado na escuta do blues, o músico que atravessou bandas e gerações, e o artista que transforma memória local em canção.
Serviço
Show “Black In”, de Moisés de Lima
Data: sábado, 6 de junho
Horário: 20h
Local: Mestiços Bar e Espaço Cultural, em Ponta Negra
Couvert artístico: R$ 15
Fonte: saibamais.jor.br





