Trabalho doméstico no RN reflete desigualdade regional, aponta MTE
O trabalho doméstico com carteira assinada no Brasil encerrou 2025 com 1.302.792 vínculos ativos, segundo levantamento do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE), com base em dados do eSocial. O número representa leve recuo em relação a 2024, quando foram registrados 1.343.792 contratos formais, sinalizando estabilidade no setor. Apesar disso, a remuneração média real avançou, passando de R$ 1.949,06 para R$ 2.047,92 no período.
No Rio Grande do Norte, o cenário acompanha a dinâmica do Nordeste, marcada por menor participação no total de vínculos formais e por salários médios inferiores aos observados nas regiões Sul e Sudeste. A realidade local, no entanto, evidencia um movimento mais acentuado de retração ao longo dos últimos anos.
O estado potiguar ocupa a segunda posição no Nordeste com maior queda nos vínculos formais de trabalho doméstico na última década. Entre 2015 e 2024, a redução foi de 12,5%, passando de 19.845 trabalhadores para 17.364, índice inferior apenas ao de Sergipe (12,6%). No mesmo período, a retração nacional foi ainda mais expressiva, chegando a 18,1%, com o total de vínculos caindo de 1,6 milhão para cerca de 1,3 milhão.
Mulheres dominam mercado de trabalho doméstico
No recorte de gênero, a queda teve impacto mais significativo entre as mulheres, que seguem como maioria absoluta na categoria. Em 2024, elas representavam 87% dos vínculos no Rio Grande do Norte. Em termos absolutos, o número de trabalhadoras formais caiu de 17.553, em 2015, para 15.163 no ano passado, uma redução de 13,6%.
Esse quadro é agravado por fatores estruturais. A ausência de um piso salarial regional, com adoção exclusiva do salário mínimo nacional como referência, tende a limitar o avanço da remuneração média local, mantendo o estado em desvantagem em relação a regiões com maior poder de renda.
A estrutura do setor segue fortemente feminina em todo o país. As mulheres representam 88,64% dos vínculos formais no Brasil, o equivalente a mais de 1,15 milhão de trabalhadoras, enquanto os homens somam 11,36%. Esse perfil também se repete no Rio Grande do Norte, onde o trabalho doméstico permanece como uma importante fonte de ocupação para mulheres, especialmente em contextos de maior vulnerabilidade social.
As funções de serviços gerais concentram a maior parte dos empregos domésticos, com quase 1 milhão de vínculos no Brasil e remuneração média de R$ 1.952,44. Outras ocupações relevantes incluem babás, com média salarial de R$ 2.098,67, e cuidadores de idosos, que recebem, em média, R$ 2.281,78. Já funções mais especializadas, como motoristas particulares, apresentam rendimentos mais elevados, ultrapassando R$ 3 mil mensais.
No topo da renda, embora com baixa representatividade, estão profissionais de enfermagem no ambiente doméstico, com média salarial superior a R$ 4,8 mil. Ainda assim, esse tipo de ocupação é pouco expressivo tanto no Brasil quanto em estados como o Rio Grande do Norte.
Educação
O perfil educacional indica predominância de trabalhadores com ensino médio completo, seguido por aqueles com ensino fundamental incompleto ou completo. Já a distribuição por idade revela um processo de envelhecimento da categoria, com maior concentração entre 50 e 59 anos, tendência que também se observa no mercado potiguar.
Regionalmente, o emprego doméstico formal segue concentrado em estados mais populosos e com maior renda, como São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro. No Nordeste, Bahia, Pernambuco e Ceará lideram em número de vínculos formais.
Estudo do tema no RN
Essa realidade também está ligada a uma desigualdade que se forma antes mesmo da entrada no mercado de trabalho. Um estudo desenvolvido por pesquisadoras da UFRN e da UFMG aponta que meninas entre 10 e 14 anos já dedicam mais tempo a tarefas domésticas e de cuidado do que homens em qualquer fase da vida. No conjunto da população, as mulheres concentram cerca de 79,7% de todo o trabalho de cuidado não remunerado no país, evidenciando uma divisão desigual que se perpetua ao longo dos anos e ajuda a explicar o perfil do trabalho doméstico formal.
Romper esse ciclo exige reconhecer que o cuidado não é uma responsabilidade individual, mas uma questão social. “Durante muito tempo, o cuidado foi tratado como uma obrigação feminina, quase como parte da natureza das mulheres. Mas, na verdade, trata-se de uma divisão social do trabalho, construída historicamente”, afirma a pesquisadora Jordana Cristina de Jesus.
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Fonte: saibamais.jor.br





