*por Marcus Demétrios – Especialista em Gestão Pública Municipal e presidente do PSB (Partido Socialista Brasileiro) de Parnamirim/RN
O cenário é familiar: um jantar de família ou uma “thread” no X (antigo Twitter) que rapidamente se transforma em um campo de batalha ideológico. De um lado, o dogmatismo de uma direita nostálgica; do outro, uma esquerda que, para muitos, parece presa em burocracias identitárias. No meio desse fogo cruzado, a Geração .com — nativos digitais que cresceram sob o algoritmo da discórdia — levantou a bandeira branca. Mas não se engane: não é um pedido de rendição, é um êxodo.
O problema é que, ao contrário dos pioneiros que cruzaram oceanos, essa geração sabe do que está fugindo, mas ainda não mapeou o território onde pretende desembarcar.
O pragmatismo da “vibe”: a ideologia sem rótulo
Diferente dos seus pais, a Geração .com não tem paciência para cartilhas partidárias. Se a política tradicional é um sistema operacional lento e cheio de vírus, eles buscam uma interface mais intuitiva. O pensamento ideológico dessa geração é pautado por um pragmatismo ético.aCausas, não partidos: Eles defendem a sustentabilidade não porque leram Marx ou Adam Smith, mas porque o clima está, literalmente, cobrando a conta.
Identidade como Base: A pauta social não é um “extra”, é o ponto de partida. Diversidade e inclusão são pré-requisitos, não moedas de troca política.
O cansaço do cancelamento: Após anos de vigilância digital, há um movimento crescente de busca por nuances. O binário “herói ou vilão” já não satisfaz quem percebeu que a vida real não tem botão de mute.
O Campo Econômico: Entre o Estado-Babá e a Utopia Descentralizada
Se na política eles buscam o centro (ou um “além-centro”), na economia o GPS está recalculando a rota constantemente. A Geração .com vive a esquizofrenia de odiar o corporativismo predatório, enquanto depende da gig economy para pagar o aluguel.
Onde eles querem chegar?
Muitos flertam com o Pós-Capitalismo, mas sem o peso do socialismo soviético. O interesse por criptomoedas, DAOs (Organizações Autônomas Descentralizadas) e economias colaborativas mostra um desejo de autonomia. Eles querem um sistema onde o trabalho não seja uma sentença de 40 horas semanais em um cubículo, mas sim uma contribuição flexível para algo com propósito.
O impasse: Como construir uma rede de proteção social (saúde, aposentadoria) em um mundo onde ninguém quer ser “empregado” e o Estado é visto com desconfiança técnica?
O Labirinto Social: Conectados, mas Isolados
Socialmente, o desejo é por comunidades orgânicas. No entanto, o caminho escolhido tem sido o das bolhas de afinidade. Ao fugir da polarização das grandes praças públicas digitais, muitos se refugiam em servidores de Discord ou grupos fechados, o que levanta um questionamento vital: “É possível construir um projeto de nação dentro de um grupo de nicho?”
A fuga da polarização corre o risco de se tornar uma fuga da própria política institucional. Se os novos líderes se recusam a ocupar os espaços “sujos” do Congresso ou das prefeituras, quem sobra para gerir o bem comum?
O Horizonte ainda está em “Loading”
A Geração .com tem o diagnóstico correto: o modelo atual de “nós contra eles” é exaustivo e ineficiente. Contudo, a neutralidade não constrói estradas, e a estética da moderação não resolve crises habitacionais.
O caminho político parece apontar para uma Tecnodemocracia Humanista, onde a eficiência do dado se encontra com a empatia social. Mas, por enquanto, o que vemos é uma geração parada na fronteira, com as malas prontas, olhando para um mapa que ela mesma ainda está desenhando.
A pergunta não é mais se eles vão embora da polarização, mas se, quando chegarem ao “novo mundo”, haverá estrutura suficiente para erguer algo que não seja apenas uma versão mais moderna do caos que deixaram para trás.
Fonte: saibamais.jor.br





