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a semana que pode mudar a vida de milhões de trabalhadores

Depois de quase quatro décadas de silêncio institucional, o Brasil finalmente volta a encarar uma pergunta que deveria estar no centro de qualquer sociedade minimamente civilizada: quanto vale o tempo de vida de um trabalhador?

A semana que começa é decisiva para a aprovação do projeto que põe fim à cruel escala 6 x 1 e reduz a jornada semanal para 40 horas. Nesta segunda-feira, haverá a leitura do relatório da PEC na Comissão Especial que trata da matéria na Câmara. Na quarta-feira, está prevista a votação na comissão e, na quinta-feira, a apreciação e votação do projeto pelos deputados no plenário da Casa.

Esse debate não surge por acaso. Nasce do esgotamento físico e mental de milhões de brasileiros que sustentam o país funcionando enquanto mal conseguem viver a própria vida.

Desde a Constituição de 1988, quando a jornada foi reduzida para 44 horas semanais, o Congresso Nacional jamais enfrentou seriamente a necessidade de avançar nessa pauta.

Foram 38 anos em que o mundo mudou, a tecnologia avançou, a produtividade aumentou e a economia se transformou radicalmente. Ao mesmo tempo, a vida do trabalhador brasileiro continuou aprisionada em uma lógica quase industrial do século passado.

E é importante deixar claro quem são as pessoas mais atingidas pela escala 6 x 1. Não estamos falando dos executivos de grandes empresas, dos donos de aplicativos ou dos defensores do “empreendedorismo” nas redes sociais. O público impactado pelo projeto é majoritariamente jovem, negro, com baixa escolaridade — a maioria tem até o ensino médio incompleto — e possui renda média de até dois salários mínimos.

Os setores do comércio e serviços, da agropecuária e da indústria lideram as áreas com maior contingente de trabalhadores submetidos a jornadas exaustivas.

O Brasil possui 14,1 milhões de pessoas que trabalham com direito a apenas um dia de descanso por semana. São trabalhadoras e trabalhadores que atuam como caixas de supermercado, atendentes de farmácia, balconistas, trabalhadores de shopping, recepcionistas, operadores de telemarketing, garçons, cozinheiras, vigilantes, motoristas, profissionais de limpeza, funcionários de hotéis e trabalhadores de serviços em geral.

Dados do governo federal mostram que 1,4 milhão de empregadas domésticas trabalham na escala 6 x 1.

É justamente a parcela da população que ganha menos, enfrenta jornadas mais exaustivas e depende de transporte público lotado que hoje sacrifica praticamente toda a semana em troca de um único dia de descanso. Um dia que muitas vezes sequer serve para descansar: é quando se lava roupa, faz-se feira, limpa-se a casa, resolvem-se burocracias e tenta-se recuperar o sono acumulado.

Uma jornada que penaliza ainda mais as mulheres, sobrecarregadas também pelas demandas domésticas e sobre quem recaem os cuidados com filhos, cônjuges, idosos e pessoas adoecidas.

A escala 6 x 1 rouba algo que deveria ser básico: o direito de existir para além do trabalho.

Por isso, reduzir a jornada e ampliar o descanso não é luxo, nem “preguiça”, como repetem certos setores empresariais acostumados a tratar trabalhador como peça descartável. É saúde pública. É dignidade. É qualidade de vida.

Ter mais tempo livre significa permitir que pais acompanhem o crescimento dos filhos; que mães consigam descansar; que trabalhadores possam estudar, praticar atividade física, cuidar da saúde mental ou simplesmente ter lazer — algo que, para boa parte da elite brasileira, parece ser tratado como privilégio, e não como direito.

Os países que avançaram na redução da jornada não quebraram. Ao contrário: registraram aumento de produtividade, melhora nos índices de saúde mental e redução do adoecimento relacionado ao trabalho. Funcionários menos exaustos produzem mais e vivem melhor. Não há qualquer novidade revolucionária nisso. O que existe é a resistência de setores que ainda enxergam direitos trabalhistas como ameaça, nunca como investimento social.

O curioso é que o mesmo mercado que defende modernização tecnológica, inteligência artificial e automação frequentemente age como se o trabalhador ainda tivesse a obrigação de viver exclusivamente para bater ponto.

A discussão sobre a jornada de trabalho é, no fundo, uma discussão sobre humanidade.

Afinal, qual é o sentido do desenvolvimento econômico se ele não for capaz de devolver às pessoas aquilo que elas têm de mais valioso: tempo?

O Brasil demorou 38 anos para retomar esse debate. Talvez porque parte das nossas elites ainda considere natural que milhões de pessoas sobrevivam apenas entre o ônibus, o crachá e o cansaço.

Mas o país que produz riqueza também precisa aprender a distribuir vida.

Portanto, mais do que nunca, nesta semana decisiva, precisamos seguir com as mobilizações, conversando com colegas de trabalho, amigos e familiares sobre a importância do projeto que acaba com a escala 6 x 1 e reduz a jornada para 40 horas, garantindo um dia a mais de descanso sem redução de salário.

É fundamental pressionar deputados e senadores nos estados, cobrando uma posição favorável aos trabalhadores e verdadeiramente em defesa das famílias. Essa é a pauta central do Brasil neste primeiro semestre. E, como todo avanço social na história do país, a redução da jornada e o fim da escala 6 x 1 só se transformarão em conquista com muita luta, engajamento e mobilização.

Fonte: saibamais.jor.br

Fernando Mineiro

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