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Barragens reagem às chuvas recentes, mas seca ainda afeta o RN

A rápida recuperação de reservatórios estratégicos no Rio Grande do Norte, como a Barragem Oiticica, não significa o fim da seca que levou o governo estadual a decretar situação de emergência em 166 municípios no início de abril. Embora as chuvas recentes tenham ampliado a reserva hídrica em parte do estado, especialistas e órgãos de monitoramento alertam que a melhora no volume dos grandes açudes não elimina, de imediato, os efeitos acumulados da estiagem prolongada.

O contraste entre os dois cenários ficou evidente em menos de um mês. No dia 1º de abril, o Governo do Estado decretou emergência por seca em 166 municípios, citando redução sustentada das reservas hídricas, colapso no abastecimento em cidades do interior e dependência de carros-pipa em quase metade do estado. Três semanas depois, a Barragem Oiticica, em Jucurutu, já havia ultrapassado 61% da capacidade, impulsionada pelas chuvas de abril e pelo reforço hídrico da transposição do Rio São Francisco.

SAIBA MAIS: Governo do Estado decreta emergência por seca em 166 municípios do RN

A aparente contradição, no entanto, é explicada pela própria dinâmica da seca no semiárido.

Segundo o Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden), a estiagem e a seca não se resumem à ausência momentânea de chuva. O órgão distingue a seca meteorológica, marcada por um período prolongado de baixa pluviosidade, da seca hidrológica, quando a falta de precipitação já compromete rios, reservatórios e o equilíbrio do sistema hídrico.

Para o meteologista Marcelo Bezerra, na prática, isso significa que uma sequência de chuvas pode elevar rapidamente o volume de grandes barragens, mas não é suficiente, por si só, para reverter os efeitos mais profundos da seca acumulada ao longo de meses:
“É esse descompasso que ajuda a explicar o cenário potiguar. Enquanto reservatórios de maior porte respondem mais rapidamente à chuva e à entrada de água por grandes sistemas, como a transposição do São Francisco, a recuperação de açudes menores, poços, aquíferos e da umidade do solo tende a ser mais lenta, especialmente em áreas rurais”, explica.

O próprio Cemaden aponta que secas prolongadas afetam diferentes partes do ciclo hidrológico em ritmos distintos. Mesmo quando há melhora nas chuvas, os impactos persistem sobre a umidade do solo, a produtividade agrícola e o abastecimento em regiões mais vulneráveis, como o semiárido nordestino, onde predominam pequenas propriedades dependentes de agricultura de sequeiro.

“No caso do Rio Grande do Norte, esse efeito é visível fora dos grandes reservatórios. Apesar da recuperação de Oiticica, o decreto estadual destaca que ao menos nove municípios ainda enfrentam colapso ou pré-colapso no abastecimento de água, atingindo cerca de 128 mil pessoas. O documento também aponta que 49,1% dos municípios potiguares seguem dependentes da Operação Carro-Pipa para garantir abastecimento humano na zona rural. Isso ocorre porque a recuperação hídrica não é uniforme. Grandes barragens conseguem acumular água com mais rapidez em eventos de chuva concentrada. Já sistemas menores e dispersos, que sustentam comunidades rurais e abastecimento local, dependem de recarga mais lenta e contínua.”

Além disso, a chuva no semiárido nem sempre se converte integralmente em recuperação hídrica. “Após longos períodos de estiagem, o solo tende a ficar mais seco e compactado, o que reduz sua capacidade de infiltração e favorece o escoamento superficial. Com isso, parte da água escoa rapidamente sem recompor, no mesmo ritmo, lençóis subterrâneos, pequenos reservatórios e a umidade necessária para a produção agrícola”, finaliza o especialista.

Boletim divulgado pelo Cemaden em abril reforça que, mesmo com sinais de atenuação em partes do Nordeste, a tendência nacional ainda era de persistência de condições de seca em diferentes níveis, com impactos prolongados sobre recursos hídricos e atividades produtivas. O órgão observa que a desintensificação da seca pode ocorrer gradualmente, mas depende da continuidade das chuvas e da recuperação das diferentes escalas do sistema hídrico.

No Rio Grande do Norte, isso significa que a elevação do nível de barragens como Oiticica representa um alívio importante e imediato, sobretudo para o abastecimento regional e para a segurança hídrica do Seridó. Mas o fim da emergência depende de um processo mais lento: manutenção das chuvas, recarga de mananciais menores, recuperação da umidade do solo e redução da dependência de abastecimento emergencial no interior.

SAIBA MAIS:
Inaugurada, barragem de Oiticica reescreve vida no sertão
Programa leva 41 mil cestas básicas a famílias afetadas pela seca no RN

Fonte: saibamais.jor.br

Gil Araújo

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