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Carta a Edgar Morin

Por Ceiça Almeida, professora titular da UFRN

Conheci Edgar Morin por meio de suas palavras. Lá se vão mais de 35 anos. O Método 3 aparece numa das disciplinas ministradas por Edgard Carvalho durante meu doutorado na PUC-SP. Aquelas ideias, argumentos, noções e forma de escrever me arrebataram.

O arrebatamento provocado pela leitura permanente de sua obra se ampliou para impulsionar forças vitais de afeto, admiração, gratidão, companheirismo e amizade facilitados pela convivência durante os eventos dos quais participei ao lado dele e com tantos outros amigos.

No itinerário geo-afetivo que enredou nossas vidas, o Grupo de Estudos, instalado na Universidade Federal do Rio Grande do Norte, primeiro como Grupo Morin em 1992 e depois Grupo de Estudos da Complexidade-GRECOM em 1993, se mostrou uma fonte permanente de amor, poesia e sabedoria tecendo uma ciência aberta e complexa, como tantas vezes foi anunciada por Edgar. Por aqui, muitas teses e dissertações são defendidas nos Programas de Pós-Graduação em Educação e Ciências Sociais contaminadas pelas ideias da complexidade e transdisciplinaridade, importantes noções para alimentar o anel recursivo do conhecimento em tempos de crise, incerteza e mudanças.

Ele esteve em Natal cinco vezes, entre os anos de 1998 e 2012. Em todas pudemos reconhecer um intelectual implicado na obra por ele criada. Um homem intenso, entusiasmado, alegre e de ritmo incansável, capaz de contaminar a todos. Das vezes em que esteve aqui, destacamos a sua visita ao Forte dos Reis Magos. Ali, conhecendo um pouco da história de Natal por meio daquele monumento, Morin, com agilidade, sobe na muralha e diz: “Natal, GRECOM! Aqui é a capital do pensamento complexo”. Mesmo que saibamos que o cidadão de muitas pátrias pode ter proferido essas palavras em outros lugares, todos nós, que o acompanhávamos naquela hora, nos sentimos felizes.

Hoje, passados mais de trinta anos, aquele sentimento de alegria abre uma brecha para que possamos sentir a tristeza que toda morte desperta. Mas, como tudo que é da ordem do complexo, nesse momento, o GRECOM, experimenta no corpo e na alma um dos seus mais repetidos aprendizados. Tomando de empréstimo a expressão de Heráclito, Morin repetiu muitas vezes em sua obra a dialogia entre vida e morte, “morrer de vida e viver de morte”. Reconhecemos vida e morte como ciclos complementares e antagônicos.

Com esse espírito recordamos, para além de seus textos, suas visitas a Natal. A segunda vez que esteve aqui foi para receber o título Honoris Causa concedido pela UFRN e para fazer a conferência A cidade e o século por ocasião dos 400 anos de Natal. Levei-o para conhecer o túmulo de Nísia Floresta, norte-rio-grandense amiga de Augusto Comte. Percebi que se reconhecia como inscrito na história que liga Natal à Paris. Na conferência fez uma retrospectiva dos personagens que tiveram uma relação com a cidade antes dele: Comte, Saint-Exupéry, suas próprias viagens a bordo do avião Arc-em-Ciel da Aéropostale (que fazia parada em Natal para se abastecer e, disse ele, tudo que via era uma placa da Coca-Cola) e, por fim, sua volta à cidade, agora por meio do GRECOM, da UFRN.

Algum tempo depois, ele volta pela terceira vez. É a comemoração dos 10 Anos do GRECOM. Numa solenidade coordenada por Edgard Carvalho, Morin instala o Fórum de Estudos do Homem e da Vida. A Conferência aconteceu no Centro de Convenções completamente lotado. Participa do Simpósio Experiências de complexidade no Brasil, com a presença de 20 grupos, localizados em 8 estados brasileiros e do lançamento do livro Ciclos e Metamorfoses, registro da história do GRECOM até então, escrito por Margarida Knobbe e por mim. Na tarde seguinte, de muito sol e calor, inaugura no Parque das Dunas a Casa Mãe-Terra, idealizada por Maurício Panella em homenagem ao livro Terra Pátria. Com três metros e meio de altura, a escultura representa uma mulher ao parir de cócoras, à moda das culturas tradicionais e indígenas. Participa do ritual que evoca o som da Terra por meio de um tambor tocado pelo xamã Amaurí e observa a dança de jovens mulheres vestidas com roupas rústicas da cor de barro. Num certo momento, Edgar Morin me pede para entrar sozinho no interior da Casa Mãe-Terra. Permanece lá dentro por uns 15 minutos e, ao sair diz, emocionado, que tudo se passou como se ele tivesse entrado no útero de Luna, sua mãe.

A sua quarta estadia em Natal foi a mais desafiante. Edgar fala desse momento no livro Les souvenirs viennent à ma rencontre. Dessa vez, o GRECOM, em parceria com a Secretaria Estadual de Educação, o apoio da Reitoria da UFRN e de Sindicatos de docentes decide fazer a conferência em praça pública, na Praça Cívica da UFRN. Josineide de Oliveira foi quem nos encorajou a aceitar tal desafio. Ela própria fez contato com órgãos encarregados de instalar a infraestrutura. Muitos colegas da UFRN se mobilizaram para que tudo acontecesse a contento. Ao final, aconteceu a conferência ‘O destino da humanidade’ com a presença de 11 mil pessoas, entre professores da rede pública do Estado, alunos e professores de universidades locais e Estados vizinhos. A imprensa e outras mídias local e de fora fizeram extensa cobertura. Uma semana antes, Edgar tinha me dito que não precisava de tradução. Mesmo assim eu pedi ao colega Adir Ferreira que se mantivesse preparado. Na chegada a Natal, acompanhado pela esposa Sabah, suas primeiras palavras foram: “Sem tradução, Ceiça querida. Confie em mim”. E assim foi. Depois da abertura da Orquestra Filarmônica e das saudações, ele falou de pé, em grande performance e por mais de uma hora. Silêncio absoluto. Se todos entenderam? Sim, a julgar pelas matérias da mídia e pelos comentários que foram se multiplicando no tempo.

A quinta visita foi em 2012, por ocasião dos 20 anos do GRECOM que teve como título “Tributo a um Pensamento do Sul” sobre o que ele falou em sua conferência. Escolhemos outra vez a Escola de Música da UFRN, onde ele falou pela primeira vez. Quem sabe, talvez para celebrar o Eterno Retorno de um pensador sem fronteiras entre nós que fazemos o GRECOM, a UFRN, a Cidade do Natal

A morte de Edgar Morin nos enluta. Estamos tristes, mas continuaremos sisificamente seu legado em defesa de uma outra política de civilização na qual seja possível a regeneração do humanismo, uma reforma do pensamento que impossibilite a separação dos conhecimentos e da natureza e cultura. Como homenagem, aproveitamos a ocasião para anunciar a criação da Conferência Anual Edgar Morin. De outra dimensão cósmica, temos a certeza de que ele ficará contente por nossa teimosia.

Bom descanso, mestre e amigo.

Em nome do GRECOM e dos amigos que compartilharam a presença de Edgar Morin entre nós e a construção desse texto: Josineide Silveira, Alex Galeno e Eugênia Dantas.

Fonte: saibamais.jor.br

Da Redação

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