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Das opiniões banais

Nem sempre me dou ao trabalho de responder certas opiniões. Tenho aprendido que o melhor é ignorar os ignorantes. Mas, como diria minha saudosa mãe, eu às vezes engulo um boi e às vezes me engasgo com um mosquito. Então, como não sou hipócrita nem me faço de coitada, dou logo nome aos bois: este artigo é minha opinião banal sobre o texto do ilustríssimo senhor Vicente Serejo. Em sua coluna de opinião do dia 19 de maio de 2026, do importantíssimo jornal Tribuna do Norte, leio:
Na fortuna crítica da nova edição do ‘Crônica da Banalidade’, de Carlos de Souza, topei com a exegética expressão ‘Paratopia Literária’. Como? Até hoje não consegui saber o que significa. E foi pior: nenhum amigo apenas letrado soube explicar o mistério. Todas as vezes que por alguma afoiteza tento entender a linguagem do mundo fechado da ensaística engendrada da academia universitária, acabo com a cara contra a parede. Contaria vários casos, se tivesse espaço. O belo texto de Carlão, que tenho e li ainda na primeira edição, me fez sair da leitura vencido pelo novo enigma. Mesmo sabendo que o pedantismo, ao substituir o estilo fluente, não afaga os nossos olhos. Nem deixa neles o sabor do encontro inesquecível e prazeroso.
Vamos lá, por partes, ruminando bem direitinho: a expressão “paratopia literária” mencionada foi utilizada por mim no artigo reproduzido na reedição de “Crônica da Banalidade”, do saudoso Carlos de Souza, e lançado no último dia 16. Para quem for alfabetizado, basta ir conferir, tá lá explicitamente na página 119: a condição do escritor de ser “um quase lugar” que “não pode encerrar-se em nenhum território”. No restante do artigo, mostro que a paratopia, nessa contraditória relação entre pertencer e não pertencer a uma instância, se manifesta na Crônica de Carlão em três aspectos: no geográfico (entre São Paulo e Natal), no funcional (entre a casa, o trabalho e o bar) e no enunciativo (entre a escrita jornalística e a literária).
Será preciso desenhar?
Mas o mais importante é alertar para o discurso que se escamoteia na pretensa crítica do jornalista: ao sugerir que a “ensaística engendrada da academia universitária” se expressa como “pedantismo”, abre-se espaço para um precedente bastante perigoso: a de que a linguagem acadêmica é descabida e, por conseguinte, inútil. Sim, muitos acham que é inútil a produção de conhecimento e a tentativa de conciliar complexidades teóricas a práticas concretas. Muitos acham que a Universidade (olha o Lattes aí gente…) é inútil. Discursinho típico e recorrente dos extremistas, sabemos bem quem, os mesmos que chamam professores de vagabundos.
Uma coisa é tecer uma crítica com base no argumento em questão (algo como “não, o livro de Carlão não expressa paratopia…”). Adoro um bom debate nessa direção. Outra coisa é desmerecer meu texto não pelo argumento, mas sim reduzindo-o e taxando-o, indiretamente, de pedante, rebatendo não a ideia em si e sim a pessoa, algo bem falacioso, aliás. Argumento ad hominem é como chama (eita, estou sendo pedante!).
Enfim, para concluir, só posso lamentar que meu texto não tenha agradado ao ilustre jornalista. O que ele chama de pedantismo, para outros pode soar como elegância (e viva a diversidade, meu nobre!), então faço uso das palavras da Crônica da Banalidade: Nós somos elegantes, respondeu o professor!

Fonte: saibamais.jor.br

Cellina Muniz

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