das trevas ao caminho da luz
Não existiriam sons se não fosse o silêncio.
Não existiria luz se não fosse a escuridão.
A vida é mesmo assim: dia e noite, não e sim.
Lulu Santos.
O ano era 2020, e o mundo vivia uma das piores experiências deste século. Subitamente, fomos obrigados a nos recolher em nossos lares, em nome da ciência e diante da ausência de informações capazes de conter o avanço do vírus da Covid-19.
Se, do ponto de vista da saúde pública, a ciência ainda não dispunha de elementos para conter o terrível vírus, o Brasil, além de conviver com a pandemia, tinha no governo central um pseudo-cristão e um defensor da “liberdade”, avesso à democracia. Eis que, no dia 20 de abril — ou seja, há seis anos, em uma segunda-feira, assim como ontem — fomos surpreendidos pela nomeação de um reitor pró-tempore que sequer havia participado do processo eleitoral.
A intervenção do Presidente da República, do Ministro da Educação à época e de outras figuras da política nacional e local nos faz pensar que, mesmo diante do caos vivido e das vítimas que agonizavam em todos os cantos do planeta, o que estava em pauta no Brasil era a ocupação de áreas estratégicas para a perpetuação de um projeto de poder, que tinha como “luz” o Posto Ipiranga — apelido cunhado ao então ministro da Economia, Paulo Guedes.
O projeto de poder, idealizado pela extrema direita mundial para o Brasil, tinha um timoneiro: um péssimo militar que, após a tentativa de um ato terrorista, conquistou uma confortável aposentadoria aos 33 anos de idade. O fato parece paradoxal, pois o mesmo homem condenou os brasileiros a trabalharem por 40 anos com carteira assinada para terem direito à aposentadoria.
Saiba Mais: Reitor do IFRN é hostilizado ao citar Lula em discurso sobre expansão dos IFs
Mas, voltando às trevas e ao IFRN, o ditador disfarçado de democrático tinha um plano para os institutos e universidades federais brasileiras: a nomeação de pessoas que atendessem ao seu projeto de poder, de caráter quase monárquico. Foi o que ocorreu em quatro instituições da nossa rede — no CEFET/RJ, no IFSC e no IFBA —, além de mais 25 universidades em todo o país, inclusive na nossa coirmã UFERSA.
Durante oito meses no IFRN, vivenciamos uma completa paralisia das ações cotidianas da instituição. A turbulência, a falta de diálogo e a tentativa de silenciamento de todas as instâncias institucionais eram a tônica de quem ocupava temporariamente o comando. Em diálogo com outros reitores eleitos e não nomeados, percebemos que esse era o modus operandi em diversas regiões do país.
Parecia existir um manual de “boas práticas” de gestão, escrito pelo “príncipe das trevas”, mais conhecido no submundo da política como o inominável. Naquele momento histórico, que não pode ser esquecido — pois o esquecimento pode fazer com que a história se repita, primeiro como farsa e depois como tragédia —, foi fundamental o envolvimento do movimento sindical, do movimento estudantil, da comunidade externa, de ex-alunos, da grande maioria dos servidores da instituição e do Poder Judiciário, que entendeu que o que aconteceu conosco foi fruto de arbítrio. Esse conjunto de forças foi decisivo para a retomada da democracia e da normalidade institucional, mesmo em um cenário de incertezas, marcado pela perda diária de entes queridos, amigos e pessoas em todo o mundo. Felizmente, nenhuma tempestade é eterna. Após as fortes chuvas, que deixam os dias sem luz, desabrigam pessoas e provocam estragos por onde passam, sempre surge um belo arco-íris. Um novo dia desponta, e a luz retorna ainda mais forte.
Saiba Mais: Reitor eleito do IFRN, José Arnóbio toma posse quase um ano após intervenção
Cabe a nós sermos sábios para nos reconectarmos e extrairmos dessa experiência dolorosa reflexões e aprendizados. Que nunca esqueçamos tudo o que nos fez sofrer enquanto instituição, nem o sofrimento mental e a perseguição enfrentados por mim, professor José Arnóbio de Araújo Filho, por meus companheiros de jornada dolorosa — Maurício Gariba (IFSC), Maurício Motta (CEFET/RJ) —, por nossa amiga e companheira Luzia Mota (IFBA), e por todos os demais reitores eleitos e não nomeados nas diversas universidades do Brasil.
Democracia presente, retrocesso e perseguição jamais.
A nossa luz e a nossa voz ecoam mais alto do que as dos covardes que tentam nos calar e apagar as luzes da verdade.
Fonte: saibamais.jor.br





