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Fiscal de bom dia, patrulha poética e sommelier de indignação

Quem me conhece e acompanha minhas mal traçadas linhas sabe que sou fascinado, ou melhor, obcecado, com sistemas de comunicação e a maneira como as pessoas interagem. Considero-me uma pessoa sociável e com vida social intensa, mas nunca deixo de considerar os seres humanos uns bichos muito esquisitos, principalmente quando se refere a relação com os semelhantes.

Se desde tempos bíblicos as pessoas têm comportamentos esquisitos, penso que as redes sociais aumentaram, ou ao menos colocaram uma lupa sobre essas estranhezas. Penso que as redes tornaram a todos mais vigilantes com o outro, no bom e no mau sentido. Percebo atualmente um olho crítico muito severo em relação a posturas alheias, ampliado, claro, pela facilidade com que podemos interagir nas redes (com caixas de comentários ou em grupos de zap, por exemplo).

Neste sentido, noto comportamentos bem curiosos. Como os fiscais de cumprimentos. Uma pessoa pula no zap (o que já acho desnecessário) com um “Bom dia”. Aí outra criatura responde: “Boa tarde. Já é 12h01”. Uma terceira intervém: “Bom dia sim. Boa tarde é a partir das 13h”. E o debate acalorado segue. também percebo isso na vida real. Dia desses entrei num supermercado nessa hora ambígua e no caixa desejei boa tarde. “Ainda é bom dia”, me corrigiu a moça simpática. Olhei o celular: eram 13h02, mas achei melhor não entrar em confronto. Melhor ter paz do que ter razão, como dizem.

Não sei como começou ou mesmo se sempre existiu essa fiscalização de cumprimentos, mas há coisas bem piores no mundo mágico (e terrível) das redes. Uma delas é a patrulha poética, esta realizada na bolha de escritores, literatos, intelectuais em geral, seja lá o que isso signifique. Basta que um poeta (ou uma poeta, já que essa patrulha acontece mais com mulheres que escrevem) poste na timeline uns versos, para quase imediatamente um destes patrulhadores comentar algo como: “certamente tem influência de Mário de Sá Carneiro” ou “Remete a Hilda Hilst em sua primeira fase”. Quando muitas vezes o/a poeta nem leu direito nem sofreu influência dos gêneros mencionados, apenas escreveu e publicou sua própria poesia.

Claro que é um direito do leitor comentar e mesmo criticar, e também é óbvio que quem posta, está na chuva virtual para se molhar. Mas a impressão é que os comentaristas sentem mais prazer em arrotar seus conhecimentos poéticos do que em curtir e comentar os versos do colega. Quando se trata de uma mulher que publica, como falei, a coisa fica pior: sempre aparecem uns poetas homens para nos comentários fazer versos, como se “completando” ou “corrigindo” a poesia original. Poetas (eu incluso) já são chatos. Patrulhadores, então… valei-me meu São Zuck.

Mas há uma categoria de policiamento de internet ainda pior e mais danosa, que é a dos sommeliers de indignações. Salvo engano o termo foi cunhado pelo amigo jornalista Alex de Souza, e se refere àquele tipo de pessoa que examina, tal qual um degustador crítico e esnobe de vinhos, as bandeiras de luta e de vida alheias, decidindo o que vale ou não. Exemplos: alguém escreve indignado sobre a escravidão no Brasil, aí vem o sommelier de indignação: “ah, por quê você não fala da matança de povos originários, séculos antes?”. Um internauta lamenta o genocídio do povo palestino por Isarel e o sujeito ataca: “Fale também do genocídio armênio, causado pelos turcos em 1910”. Experimente escrever que Hitler foi um monstro. O camarada virá com algo tipo “Muito pior foi Leopoldo, da Bélgica, por que você não diz que ele era monstro?”.

O sommelier de indignação não empunha as bandeiras dele, não compromete a timeline dele próprio. Seu prazer nada secreto é nas postagens alheias ele questionar as suas indignações e decidir quais devem ser suas bandeiras de luta. No fundo deve ser aquela mesma sempre, que existia antes mesmo do surgimento da internet, que quando você dizia que seu tio comprou um carro ele retrucava: “meu tio comprou dois”. Tudo dele sempre era mais e melhor. Inclusive as indignações, claro.

Fonte: saibamais.jor.br

Cefas Carvalho

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