Estão abertas as inscrições para o curso Teatros negros: fundamentos e perspectivas contemporâneas, conduzido pelo artista potiguar e pesquisador Quemuel Costa. A formação propõe um mergulho nas cenas negras contemporâneas e nas disputas de sentido que atravessam o teatro negro hoje, entre história, linguagem e crítica.
O ciclo de atividade parte de uma inquietação que atravessa a própria pesquisa de Quemuel no mestrado em Artes Cênicas da Universidade Federal da Bahia (UFBA): a repetição apressada de certas palavras para explicar ou resumir as cenas negras. Termos como “ancestralidade”, “fabulação”, “tempo espiralar” e “subjetividade”, cada vez mais presentes em sinopses, curadorias, críticas e falas de artistas, serão o ponto de partida para uma investigação coletiva.
“Às vezes, eu tenho a impressão de que, para um senso comum, as cenas negras se resumem a isso. Como se bastasse ter uma pessoa negra em cena para tudo virar ancestralidade ou fabulação”, relata Quemuel em entrevista à Agência Saiba Mais. “Essas palavras têm materialidade, têm história, têm pensamento. O curso surge do desejo de olhar para elas com mais cuidado.”
Ao longo de seis encontros, entre atividades presenciais e online, o curso propõe justamente desacelerar esse vocabulário. Em vez de tomar essas noções como rótulos prontos, a proposta é discutir de que modo elas operam nas cenas negras contemporâneas, como são mobilizadas por artistas e pensadores e o que revelam sobre o teatro produzido hoje.
“São palavras que, às vezes, acabam sendo usadas de forma preguiçosa, como um modo de reduzir experiências muito complexas para caber num imaginário”, diz. “Mas elas também são usadas de maneira muito precisa por teóricos, filósofos e artistas. O que me interessa é ampliar a visão sobre elas.”
A formação articula leitura de textos, exibição de arquivos teatrais, análise crítica e debate coletivo. No percurso, os participantes terão contato com autoras e autores como Leda Maria Martins, Saidiya Hartman, Jota Mombaça e Frantz Fanon, além de materiais que integram a própria pesquisa de mestrado de Quemuel, dedicada às relações entre dramaturgias negras e autobiografia no teatro contemporâneo.
O curso também propõe uma revisão crítica da história do teatro brasileiro a partir de suas ausências. Para Quemuel, discutir teatros negros hoje é também tensionar os modos como essa história foi escrita e o que ela deixou de fora.
“É uma história que ainda foi muito escrita por mãos brancas, e não necessariamente esse é o problema em si. O problema é que foram mãos que muitas vezes excluíram o que não consideravam relevante”, afirma. “Eu terminei a graduação em 2023 e mal vi teatro negro na universidade. Como se os teatros negros não tivessem contribuído para o teatro brasileiro de forma ampla, como se fossem algo de nicho. E não são.”
Essa revisão passa também pelo reposicionamento do Teatro Experimental do Negro (TEN) na história da cena brasileira. Quemuel cita como exemplo a leitura frequentemente limitada do grupo fundado por Abdias do Nascimento, ainda muitas vezes restrita a um viés sociológico ou racial, sem que suas contribuições estéticas e formais sejam incorporadas ao estudo do teatro moderno brasileiro.
“Quando se estuda o Teatro Experimental do Negro, geralmente ele aparece só pelo viés racial ou sociológico. Mas quando se estuda teatro moderno, ele não está incluído. E isso apaga contribuições riquíssimas e revolucionárias para o próprio teatro moderno”, pontua.
Ao mesmo tempo, a proposta também desloca o olhar para o presente. Sem se restringir aos nomes já consagrados da história do teatro negro brasileiro, o curso busca acompanhar o que vem sendo produzido agora, em sua diversidade de formas, linguagens e filiações.
“Quando se fala de teatro negro, muita gente ainda pensa só em Abdias, Ruth de Souza, Léa Garcia, naquele momento fundador dos anos 1940. Mas existe um teatro negro acontecendo agora, vivo, múltiplo, diverso”, afirma. “É também sobre olhar para esse trem passando.”
Além de aprofundar o debate sobre a cena negra contemporânea, Quemuel vê o curso como uma oportunidade de tirar a pesquisa do isolamento acadêmico e colocá-la em circulação. “A pesquisa acadêmica às vezes é muito solitária. É você, seu orientador e o computador. Eu queria que esse curso fosse um lugar de troca, de experimentar essas questões coletivamente, de ver como elas ressoam.”
Com carga horária de 20 horas, a formação terá quatro encontros presenciais no Departamento de Artes (Deart) da UFRN, nos dias 12, 14, 19 e 21 de maio, das 14h às 17h, e dois encontros online, abertos ao público, com transmissão no YouTube e acessibilidade em Libras.
A abertura será no dia 5 de maio, às 18h, com Guilherme Diniz (MG) e Lorenna Rocha (PE), na mesa Perspectivas críticas acerca do Teatro Experimental do Negro. O encerramento acontece em 28 de maio, também às 18h, com Anderson Feliciano (MG), na conversa Imagens da negrura: a festa e o provisório.
As inscrições seguem abertas até 6 de maio, por meio de formulário online.
Serviço
Encontros presenciais: 12, 14, 19 e 21 de maio, das 14h às 17h
Local: Deart/UFRN
Encontros online: 5 e 28 de maio, às 18h
Inscrições até 6 de maio:
SAIBA MAIS:
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Fonte: saibamais.jor.br





