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Na boca do verso de Iara Maria Carvalho

Na boca do verso de Iara Maria Carvalho

Na boca do forno, quarto livro da escritora potiguar Iara Maria Carvalho chega, ao público leitor, publicado pelo selo editorial da CJA, com trabalho de capa e de ilustração assinado por Rita Machado. Na noite do último dia 16 de abril, teve lançamento no Mahalila Café & Livros, com declamação de poemas na voz da escritora Regina Azevedo. Com cinquenta poemas autorais, o livro vem dividido em quatros cenários da subjetividade de um eu fêmeo que, em sua partilha do dizível, aparece feito um “rabisco com fuligem de ouro e sonho”, quando reflete as relações contemporâneas entre o eu-mundo, o eu-mulher, o eu-desejo, o eu-palavra, o eu-tempo, descortina versos com aquela elegância pertencente de quem vem do sertão do Seridó: “Encadernei o tempo para que não fujam as folhas”.

O livro Na boca do forno vem dedicado às sereias insubmissas: “Para à Iara que eu não pude ser e para aquela que um dia serei: este hiato em Poesia”. Em uma escrita de si que revela uma escrita sobre todas nós, com o traço carregado pela tinta da ironia ou pela “didascália” de um humor trágico na lira da surpresa: “Eu guardei seu mundo na palma da mão. / Guardei no fundo de meu coração. / O mundo me deu voltas e me estrangulou”.

Na língua do fogo, o livro-lume faz de uma flama verbal uma espécie de provocação fabulosa a todas as mulheres que vivem à beira do caos portátil, à beira de uma melancolia florbeliana que, com um tipo de ritmo-réquiem, desabafa a aos seus leitores: “Um poema/ onde eu possa/ te estragar com calma/ e enrolar teu corpo no tapete”. Nesse último livro-brasa de Iara Carvalho, o poema parece oblíquo, torto, enviesado no fogo da alcova de Eros: “Quão surpreso ele ficou/quando lhe incendiei /da porta para fora, / com uma mão na frente/ e outra atrás/ de si mesmo”.

Perto daquele fogo fátuo das fogueiras ancestrais, conhecido por perseguir quem corre para o efêmero, o eu poético de Iara Carvalho parece querer incendiar o mundo da imaginação de cabeça para baixo, à beira do siso e do riso, à beira do espanto de uma mariposa com fome: “quando como homens, / o estômago dói/pela morte da borboleta”.

No jogo semiótico de uma labareda verbal, Iara constrói um livro talvez feito de entretons, ou semitons de uma partitura, com um tipo de linguagem corrosiva em meio a versos fragmentos, norteados por enjambements, na fenda do experimento. Na travessia de uma vida visionária feita de imagens e miragens a outros mundos epifânicos, a poeta acende o fogo do verbo: “Sou, nesta manhã, / uma vitória-régia antiga/ a segurar os próprios cabelos, escapando por pouco/ de ser apenas um vaso/sobre a escrivaninha”.

À beira do barulho de reexistir, como se o poema fosse um “origami às avessas”, à maneira de Adélia Prado, a poeta potiguar anuncia seu minimalismo existencial: “Barulhenta ao se desembrulhar./Desdobrável./Sendo e não sendo/ com as artimanhas das/ próprias mãos” Um livro que põe a palavra em estado de fuga para falar da vida insensível ou daquele eu lírico /onírico, pleno de devaneios lúcidos e lúdicos, entre a nudez do sonho e a mudez da sono que há em cada mulher artesã, conforme diz Iara à beira de versos idílicos: “Ela dorme um sono de vidro/ e se arrisca a sonhar/ mesmo os panos do peito dobrados/ as mãos sobre o ventre/ a respiração de giz/ se apagando no ar”.

No sopro de um verso-faísca, a poeta acende o lampião das palavras para dizer sobre o grotesco mundo de viver em um eterno retorno da tensão pelo tesão sempre em falta a fogo brando: “Nunca mais fodi/ e estou alegre. /Eis o escândalo”. Um livro feito de uma hu(mana) condição feminina que queima o poema pelo meio e em carne viva, como quem sabe roer o osso do signo: “Minha desobediência é essa língua/ contraditória, / que me move a roer ossos/ na hora do almoço/ e a sentar no ônibus com/ as pernas abertas que nem homem/ Uma língua que não avisa/ quando vai se calar/ só para comer adiante”.

À beira das ciladas do machismo de homens e mulheres, quando se observa a abordagem poética de Iara Carvalho, percebe-se a atitude de uma escritora inconformada com as opressões sociais que “tentam obrigá-la a reagir às violências operadas pelo patriarcado, com docilidade e subserviência”, conforme comenta a poeta em uma matéria ao Jornal Tribuna do Norte.

Enfim, quando se conta em verso ou em verbo se conta, no campo da sugestão, também revisita o político e o social da linguagem. Se todo signo é ideológico, em correspondência eletiva com os elementos da criação literária, há coisas que são intocáveis na ação do dizer da poeta Iara Carvalho que ao escrever funda sentido ao mundo, porque, em verdade, poesia em seu formato filosófico é a primeira ação do dizer.

Na origem da linguagem, a poesia nasce da água e do fogo, lembrando aqui de Bachelard. O poema não tem existência fora do mundo real. Quando a obra nasce, a maneira de ver da poeta ‘trans-forma’ a norma da poesia local. Por ser talvez a poesia a arte de nomear as coisas intangíveis do mundo, auto retrato de si e também da sociedade, em sua equação feita de lampejos: “seguro meu rosto/ inseguro o meu rosto/ um resto”.

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*Tânia Lima é Professora Titular do Departamento de Letras – UFRN, contribui com o programa de Mestrado no Isced – Sumbe Angola; também faz parte do quadro de professores permanentes do mestrado em Artes – ProfArtes, orientando trabalhos em arte e linguagem. Atualmente, realiza uma pesquisa de pós-doc sobre a poeta africana Conceição Lima, na UFRJ, sob supervisão da professora Carmen Tindó.

Fonte: saibamais.jor.br

Da Redação

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