O nosso amor, a gente inventa
Ela sempre soube sair de um restaurante sozinha sem parecer abandonada. Pagava a conta com firmeza, agradecia ao garçom olhando nos olhos e atravessava a rua como quem atravessa um portal invisível entre o que os outros pensam e o que de fato é. Para os olhos alheios, era inteira. Dona de si. Dessas mulheres que escolhem o próprio vinho e não pedem opinião sobre a própria vida.
Mas bastava uma notificação às 23h47, “oi, sumida”, para que toda a arquitetura da autonomia sofresse um pequeno abalo sísmico.
Ela ria de si mesma. Não era possível. Depois de tantas leituras, de tantas terapias pagas em doze vezes no cartão, de tantas conversas maduras com amigas igualmente exaustas, ainda tropeçava nas mesmas armadilhas sentimentais. Mudavam os nomes, os cortes de cabelo, as profissões. Permanecia a esperança. (Maldita!?)
Foi numa dessas fases de aparente lucidez que ela leu, sublinhou e fotografou a frase do livro Copo Vazio, de Natalia Timerman: “qualquer sentimento só pode ser uma invenção”. Ficou dias mastigando aquilo como quem testa a consistência de um doce novo.
Se qualquer sentimento é invenção, pensava, então talvez eu esteja inventando de novo. Inventando profundidade onde há só superfície. Inventando promessas nas entrelinhas econômicas de um homem que escreve “vamos ver” como quem escreve “nunca”. Inventando uma história inteira a partir de um toque no braço.
Ela poderia parar de inventar. (Poderia!?) Cazuza cantou: “O nosso amor, a gente inventa…” (Por que, não?!)
Poderia tratar cada encontro como contrato de prestação de serviços afetivos, com cláusulas claras e validade determinada. Poderia olhar para os fatos crus, sem tempero: ele não liga; ele não fica; ele não sustenta. Poderia se poupar da vertigem.
Mas aí (e esse é o ponto que ela não confessa nos almoços de domingo) a vida ficaria insuportavelmente árida.
Porque os fatos, assim, ao natural, são econômicos demais. As pessoas são truncadas, atravessadas por medos antigos, educações emocionais precárias, traumas que não cabem na mesa do bar. O ser humano, visto de perto, é desajeitado. Ama mal. Foge cedo. Promete torto.
Sem invenção, restaria o quê? Um inventário frio de desencontros?
Ela começou a desconfiar de que inventar não era exatamente mentir para si. Era, talvez, um gesto estético de sobrevivência. Como quem pendura um quadro numa parede rachada. A rachadura continua lá, mas agora há cor.
Quando ela imagina futuros possíveis, quando escolhe acreditar que aquele abraço demorou um segundo a mais por alguma razão cósmica, quando cria pequenas narrativas para sustentar a esperança, não está necessariamente se enganando. Está adornando o mundo. Colocando rendas sobre uma realidade que, nua, às vezes fere.
As relações não são bonitas por natureza. São cheias de ruídos, silêncios mal interpretados, disputas de poder quase infantis. São duas histórias tentando conversar em idiomas diferentes. Se não houver um pouco de enfeite, de firula, de acessório simbólico, a ideia de destino, de encontro improvável, de “foi diferente”, talvez ninguém suporte ficar.
Ela sabe que já exagerou na dose. Já construiu catedrais afetivas sobre terrenos baldios. Já chamou de intensidade o que era só indisponibilidade. Já romantizou migalhas com talento de decoradora de interiores emocionais.
E ainda assim…
Ainda assim, quando o telefone vibra às 23h47, ou às 5h, ela respira fundo e escolhe, mais uma vez, inventar um pouco. Não tudo, (aprendeu a dosar), mas o suficiente para que o mundo não seja apenas uma sucessão de dados objetivos, pálidos e insossos.
Porque se “qualquer sentimento só pode ser uma invenção”, como escreveu Natalia Timerman, talvez a grande questão não seja deixar de inventar. Talvez seja escolher que tipo de história queremos contar a nós mesmas.
Inventar, ela conclui, é também um ato de coragem. É dizer: eu sei que pode doer, mas ainda assim vou bordar alguma beleza sobre isso. Vou colocar luz onde há sombra. Vou criar sentido onde talvez haja apenas acaso.
No fim das contas, ela prefere o risco da ficção afetiva ao tédio da indiferença. Prefere sofrer por uma história que ajudou a colorir do que viver numa paisagem sem tintas. “Fabular é preciso”, disse-lhe, certa vez, a amiga Bia, escritora, em uma das suas crônicas.
E, se cair de novo, levantar-se-á (uma mesóclise para enfeitar o dia) com a dignidade pública de sempre, ajustando o batom, pagando a conta, atravessando a rua.
Inteira.
Inventada.
E, justamente por isso, profundamente humana.
E quanto à esperança: “Em algum momento, há que se matá-la.” Escreveu Timerman em seu Copo Vazio.
Fonte: saibamais.jor.br





