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sabedoria na complexidade da vida

Por Gláucio Tavares

O amigo e pensador Ítalo de Melo Ramalho iniciou o seu ensaio Teatro das Cortes afirmando que a vida é como um teatro. Por caminho diverso, o filósofo alemão Arthur Schopenhauer também chegou ao entendimento de que a vida pode ser comparada a um teatro porque, assim como os atores, somos marionetes de uma força cega e insaciável: a “Vontade.” O inesquecível compositor Gonzaguinha musicou a indagação: a vida é a batida de um coração ou seria uma doce ilusão? Responder às indagações de Gonzaguinha sobre a vida não é uma tarefa trivial. Sabemos.

Entreato, entre átomos, sugere-se que a vida pode ser uma organização de matérias e energias – que são expressões da mesma substância – imbuídas de animus. Calha dizer nesta reflexão que a substância dessa organização é a linguagem, regente desde aquela expressa disposição de aminoácidos – cada um em seu devido lugar como as letras deste texto – a formar os ácidos nucleicos, que servem de transcrição para a edificação de proteínas a estruturar dada vida de espécie vegetal, ou daquele animal ou de micróbios.

O grau de complexidade alcança as estrelas quando se fala na organização da coletividade humana. Ora, o homem tem natureza biológica, psicológica e social; ou seja, o homem é ao mesmo tempo totalmente biológico e totalmente cultural, e o cérebro, da biologia, e a mente (da Psicologia), são faces diferentes de uma mesma moeda, como apontado por CALUZI e ROSELLA (2024). Essa coligação de elementos proporciona a existência da vontade, do desejo, das emoções, do deslumbramento com o belo, da estranheza, da percepção do universo… Além disso, a vida é muito mais.

Diante dessas constatações, não se deve recusar a ideia de que a vida é uma expressão da complexidade e para tentar desnudar as complexidões é essencial desenvolver a visão crítica. Nesse desiderato, mostra-se como excelente companhia o epistemólogo da complexidade Edgar Morin.

De antemão, nas lições de Morin, questiona-se o paradigma da razão e a ciência como único modo de interpretar a realidade. Isto significa asseverar que outros métodos de conhecimentos são válidos, de modo que não são pode julgar heterodoxo a religação dos conhecimentos dispersos e a integração da cultura científica e da cultura humanística. Em outras palavras, na complexidade “tudo se liga a tudo”. Como o próprio autor afirma no livro Ciência com consciência: “A ciência nunca teria sido ciência se não tivesse sido transdisciplinar” (IZABEL, 2022).

Com efeito, a Teoria da Complexidade de Edgar Morin é uma abordagem crítica sobre a fragmentação do conhecimento e propõe a religação dos saberes dispersos ou seja: “contextualizar e globalizar saberes até então fragmentados e compartimentados…” (MORIN, 2000a, p. 06). Faz-se assim a união entre áreas como ciências humanas e exatas, cultura e filosofia para compreender a realidade de forma mais integrada e não linear. Para Morin, complexidade não significa “complicado”, mas sim algo que é “tecido em conjunto” e que abrange a incerteza, a ambiguidade e a interconexão entre os fenômenos (PEREIRA, 2002). Superando a ideia simplificadora, a complexidade propõe o princípio da relação entre o objeto e o sujeito pesquisador-conceituador, que tanto o percebe quanto o concebe.

Diante disso, os pontos cardeais da Teoria da Complexidade de Edgar Morin podem ser considerados: crítica à fragmentação do saber: Morin critica a divisão rígida dos saberes em disciplinas isoladas, o que impede a obtenção de uma visão holística da realidade; religação dos saberes: a teoria defende a necessidade de unir conhecimentos de diferentes áreas para uma compreensão mais completa, como o ensino que integra história, sociologia, psicologia e economia; complexidade como “tecido em conjunto”: o termo vem do latim complexus e refere-se à interconexão de elementos que formam um todo, incluindo o que parece simples e os limites do próprio conhecimento; aceitação da incerteza: a teoria reconhece que a realidade é não linear, caótica e em constante mudança, exigindo a aceitação da incerteza, da ambiguidade e da incompletude; transdisciplinaridade: propõe um trabalho integrado entre os saberes, indo além da multidisciplinaridade e interdisciplinaridade, e buscando uma união mais profunda entre os conhecimentos; aplicação na educação: no contexto educacional, a teoria sugere que os professores colaborem para criar aulas mais significativas, conectando os conteúdos com a realidade dos alunos, que são expostos a um mundo cada vez mais complexo; princípio do “pensamento complexo”: trata-se da arte de reunir o máximo de certezas para lidar com o incerto, integrando informações e formulando esquemas de ação.

Comporta assinalar que Morin reflete na sua obra “Os sete saberes necessários à educação do futuro” sobre as necessidades da educação no século XXI, tratando de alguns problemas específicos, chamados de buracos negros, existentes tanto do ensino fundamental, médio e superior, e que são ignorados nos programas educativos, mas em sua opinião deveriam estar no centro das atenções dos que se preocupam com a formação de jovens e futuros cidadãos.

Um dos problemas ou “buracos negros” abordados, refere-se ao conhecimento, fornecido pelo ensino, que fornece saberes, mas, não revela o que é de fato o conhecimento; e – nesse caso – incorre em dois outros problemas: o erro e a ilusão (CALUZI e ROSELLA, 2024). A referida obra oferece um catálogo dos sete saberes: (i) as cegueiras do conhecimento: o erro e a ilusão; (ii) os princípios do conhecimento pertinente; (iii) ensinar a condição humana; (iv) ensinar a identidade terrena; (v) enfrentar as incertezas; (vi) ensinar a compreensão; (vii) a ética do gênero humano.

Edgar Morin nos advertiu, em suma, que enfrentamos persistentes ameaças à dignidade humana, como as armas de destruição em massa, a degradação ambiental, a total informatização dos dados relativos à vida pessoal, mas que há no nosso caminhar oportunidades de construção de um sistema mais rico e complexo, com grandes promessas para a humanidade. É essencial termos esperança!

REFERÊNCIAS __________________________________

ALVES, Roger F. Pacheco (2020). Invenção de mundos como Dispositivo Complexo de Aprendizagem: cartografia de uma (trans)formação docente. Dissertação (Mestrado). Universidade Federal do Pampa. Disponível em: . Acesso em: 24 nov. 2025.

BLAY, Ênio Alterman (2024). Edgar Morin e o que chamamos de “pensamento complexo”. Revista de Ensino Superior. Disponível em: . Acesso em: 02 nov. 2025.

CALUZI, João e ROSELLA, Marcelo L. Aroeira (2024). Edgar Morin: A Complexidade subsidiando o ensino de Ciências. Disponível em: . Acesso em: 24 nov. 2025.

FONSECA, E. R. da. Schopenhauer e o teatro: ilusão, resignação e sabedoria de vida. Voluntas: Revista Internacional de Filosofia, [S. l.], v. 9, n. 2, p. 67–83, 2018. DOI: 10.5902/2179378636053. Disponível em: Acesso em: 24 nov. 2025.

IZABEL, Petraglia (2022). Edgar Morin e o pensamento complexo. Revista de Ensino Superior. Disponível em: . Acesso em: 02 nov. 2025.

ROLLEMBERG, Marcelo (2021). Cem anos de sabedoria e complexidades. Jornal da USP. Disponível em: . Acesso em: 02 nov. 2025.

PEREIRA, Reinaldo Arruda (2002). A Ciência Moderna, a Crise dos Paradigmas e sua relação com a escola e como o currículo. Dissertação de mestrado apresentado na PUC/MG. Disponível em:. Acesso em: 24 nov. 2025.

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*Gláucio Tavares é ensaísta, mestrando em Direito pela Universidad Europea del Atlántico, graduado em Farmácia pela UFRN e ativista político pela democracia.

Fonte: saibamais.jor.br

Da Redação

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